Capítulo 4

DOMINIK

🌸🌸🌸

— Querido, preciso retocar a maquiagem — sussurrei no ouvido de Ewan alguns minutos depois.

Ele desviou a atenção dos empresários com quem conversava e pousou os olhos em mim imediatamente. Mesmo cercado por pessoas influentes, Ewan sempre parecia focado em cada mínimo movimento meu.

— Claro, minha querida.

Os dedos dele deslizaram lentamente pela minha cintura antes de me soltar.

— Não demore.

Forcei um sorriso suave, assentindo.

— Prometo.

Afastei-me do grupo tentando manter a postura elegante enquanto caminhava pelo enorme salão iluminado. O som das taças se chocando, das risadas artificiais e da música clássica parecia distante demais dentro da minha cabeça. Porque eu só conseguia pensar em Alexander.

Meu coração ainda estava acelerado desde o instante em que nossos olhares se cruzaram pela segunda vez naquela noite. Cinco malditos anos... E bastou um único olhar para que tudo voltasse. A dor. O desejo. A humilhação. A obsessão.

Respirei fundo enquanto atravessava um dos corredores mais vazios da mansão. Precisava falar com Lydia imediatamente. Precisava entender o que diabos estava acontecendo. E principalmente... Precisava confirmar se aquele reencontro havia sido coincidência. Ou uma armadilha.

Meus saltos ecoavam discretamente pelo corredor comprido revestido em madeira escura. Lustres dourados iluminavam parcialmente o ambiente, criando sombras elegantes e perturbadoras nas paredes.

Olhei várias vezes para trás. Paranoia talvez. Ou instinto.

Porque uma parte de mim tinha absoluta certeza de que Alexander ainda estava naquela casa. Observando. Esperando.

Meu estômago apertou. Continuei andando até encontrar uma porta dupla no fim do corredor. Sem pensar muito, girei a maçaneta e entrei rapidamente. Era uma biblioteca. Luxuosa. Rústica.

O ambiente cheirava a madeira antiga, couro e livros caros. Havia estantes enormes ocupando quase toda a parede, além de sofás escuros próximos a uma lareira apagada.

Fechei a porta imediatamente atrás de mim e a tranquei. Só então consegui respirar melhor. Caminhei até uma das janelas altas enquanto puxava o celular da bolsa.

Disquei o número de Lydia. Chamou uma vez. Duas. Nada. Provavelmente ela ainda estava no jantar de noivado. Tentei novamente e dessa vez ela atendeu no terceiro toque.

— Se estiver ligando por causa da Amy, já estou sabendo.

Fechei os olhos por um segundo.

“Claro.”

Jodie e Ella haviam corrido contar. Duas cobras.

— Lydia, por favor, não castigue a Amy — pedi imediatamente. — Ela estava nervosa.

— Eu não treino garotas para ficarem nervosas, Dominik.

A voz dela saiu fria como sempre.

— Eu sei. Já conversei com ela e isso não vai se repetir — informei afastando discretamente parte da cortina e observando o jardim escuro do lado de fora. — Quero ficar responsável por ela. Se Amy cometer outro erro, você pode me punir no lugar dela.

O silêncio durou alguns segundos. Lydia raramente reconsiderava decisões. Mas comigo era diferente. Porque eu era uma das veteranas. Uma das poucas em quem ela realmente confiava.

— Tudo bem — respondeu por fim. — Mas continuaremos essa conversa depois.

Soltei o ar devagar.

— Obrigada.

— E Dominik... — estranhamente meu corpo enrijeceu. — Tome cuidado esta noite.

Antes que eu pudesse perguntar o que aquilo significava, a ligação foi encerrada. Franzi a testa encarando a tela apagada do celular. Aquilo definitivamente não parecia um aviso comum.

Guardei o aparelho lentamente na bolsa e permaneci parada diante da janela por alguns segundos observando o jardim mergulhado na penumbra. As árvores balançavam suavemente com o vento noturno. Tudo parecia calmo. Mas eu não conseguia relaxar.

— Um problema resolvido... — murmurei baixo para mim mesma. — Agora só preciso sobreviver ao resto dessa festa cheia de milionários esnobes.

— Entediada com a festa?

Meu corpo inteiro se arrepiou instantaneamente. A voz... Aquela maldita voz.

“Meu Deus...”

Virei-me rápido demais, sentindo o coração disparar violentamente. Olhei ao redor da biblioteca. Nada. O silêncio voltou a preencher o ambiente. Minha respiração ficou irregular. Talvez eu estivesse ficando louca. Talvez fossem os drinques. Ou talvez...

— Aqui em cima.

Ergui os olhos imediatamente e o vi.

Alexander estava escorado no parapeito do segundo andar da biblioteca particular. Observando-me. Meu estômago despencou.

Seu terno preto e elegante fazia com que sua presença se misturasse à penumbra do andar de cima. Havia algo diferente nele. Algo quebrado. Os olhos cinzentos pareciam mais escuros. Cansados. Perigosamente intensos.

Mesmo distante, eu conseguia perceber. Alexander Foster estava destruído. E ainda assim... Continuava absurdamente bonito.

“Droga!”

— O que está fazendo aqui? — perguntei tentando controlar o tremor da minha voz.

Ele ignorou a pergunta. Em vez disso, começou a descer lentamente a escada lateral. Cada passo parecia calculado. Predatório. Meu corpo inteiro entrou em alerta.

— Oi, Dominik.

A forma como ele pronunciou meu nome fez meu peito apertar dolorosamente. Por um segundo, senti-me novamente a garota de dezenove anos completamente apaixonada pelo homem errado. Mas forcei minha postura firme.

— Oi, Alexander.

Ele parou a poucos metros de mim. Perto demais.

— Ouvi dizer que virou uma acompanhante de luxo.

A frase veio carregada de julgamento. Meu sangue ferveu imediatamente.

“Claro que isso já devia ter chegado aos ouvidos dele. Provavelmente havia sido Lydia.”

Cruzei os braços lentamente.

— Também ouvi dizer que o grande Alexander Foster virou um alcoólatra antissocial que vive trancado dentro do apartamento — rebati e vi o maxilar dele tensionar então continuei. — Mas pelo visto nem tudo que ouvimos é verdade, não é?

Alexander permaneceu em silêncio, apenas me encarando. A intensidade daquele olhar ainda me fazia perder o ar. Então ele deu um passo à frente e eu instintivamente recuei.

“Droga!”

O pior era perceber que meu corpo ainda reagia a ele.

— Está com medo de mim? — Alexander perguntou baixo.

Engoli em seco e neguei rapidamente. Mas era mentira. Eu estava aterrorizada. Porque ninguém jamais me machucou como Alexander Foster o fez. Ninguém.

Ele avançou mais um passo e eu recuei novamente. A biblioteca parecia pequena demais de repente. Sufocante demais.

— Vamos sair daqui — ele disse calmamente. — Precisamos conversar.

Uma risada amarga escapou dos meus lábios.

— Conversar? — meu tom saiu mais agressivo do que eu pretendia. — Obrigada pelo convite, mas não.

Os olhos dele escureceram perigosamente.

— Dominik...

— Não.

Alexander aproximou-se ainda mais. Agora eu conseguia sentir o perfume dele. O mesmo perfume de anos atrás. O mesmo cheiro que impregnava meus lençóis depois das noites em seu apartamento.

Meu coração começou a bater descompassado.

“Odeio você! Odeio você! Odeio você!”

Mas meu corpo parecia não acreditar naquilo.

— Precisamos ter uma conversa particular para resolvermos o passado — ele insistiu.

A raiva finalmente venceu o medo então dei um passo à frente.

— Quer mesmo falar sobre o passado, Sr. Foster? — rosnei baixo e ameaçador. Os olhos dele fixaram imediatamente nos meus. — Então vamos falar... Toda vez que você dizia que queria uma “conversa particular”, eu acabava machucada.

Meu peito subia e descia rápido demais. A expressão dele vacilou minimamente.

— Dominik...

— Ou esqueceu quantas vezes me deixou incapaz de andar depois dos seus castigos e sexo bruto? — o cortei.

Alexander desviou o olhar por um breve instante e aquilo só aumentou a minha raiva.

— Na última vez eu fui parar em um hospital — cuspi as palavras. — E sabe o que você fez depois?

Silêncio.

— Me descartou como se eu fosse lixo.

O maxilar dele travou violentamente. Mas eu ainda não tinha terminado. Cinco anos de dor estavam finalmente saindo.

— Você me destruiu.

A biblioteca mergulhou num silêncio sufocante. Alexander aproximou-se até parar diante de mim. Perto demais. Dominador demais. Perigoso demais.

— Você era minha — ele murmurou roucamente. — E eu podia fazer o que quisesse.

Meu sangue gelou. Por um segundo, a antiga submissão quase tentou emergir dentro de mim. A garota que obedecia. Que tremia. Que implorava pela aprovação dele. Mas ela não existia mais.

Ergui o rosto lentamente.

— Não pertenço mais a você.

Os olhos dele ficaram sombrios.

— Vamos para meu apartamento — Alexander disse e eu quase ri da audácia absurda daquela proposta. — Você não pode me dizer não, Dominik. Ninguém me diz não.

Aquela frase. Aquela maldita frase. Meu corpo inteiro queimou de ódio. Antes mesmo de pensar, minha mão acertou o rosto dele com força. O estalo ecoou pela biblioteca. Alexander ficou imóvel. A marca vermelha surgiu lentamente em sua pele.

Minha respiração estava descontrolada.

— Escute com atenção, Alexander Foster — aproximei-me dele perigosamente. — Eu não sou mais sua submissa e você não é mais meu Mestre.

Os olhos dele queimavam nos meus. Mas agora havia algo diferente ali. Choque. Culpa. Talvez até arrependimento. Ou talvez eu só estivesse imaginando.

Ajustei o vestido rapidamente e caminhei até a porta. Minha mão tremia quando destranquei a fechadura. Mas antes de sair, virei-me uma última vez. Alexander ainda estava parado no mesmo lugar. Com a mão no rosto. Me observando.

— Pelo visto você superou rápido demais a morte da sua esposa.

Vi a dor atravessar os olhos dele instantaneamente. Mas não esperei sua resposta. Saí da biblioteca praticamente fugindo. Meus saltos ecoavam apressados pelo corredor enquanto eu tentava controlar a respiração.

Ele viria atrás de mim. Eu sabia disso. Alexander sempre conseguia o que queria. Principalmente quando estava irritado.

Atravessei o salão principal rapidamente procurando Ewan desesperadamente. Precisava de segurança. Precisava de distância. Precisava lembrar a mim mesma que Alexander não tinha mais poder sobre mim. Então encontrei Ewan próximo ao bar conversando com um pequeno grupo.

Assim que me aproximei, ele abriu um sorriso imediato.

— Dominik. Aqui está você.

Os dedos dele tocaram minhas costas possessivamente. Forcei um sorriso impecável.

— Desculpe. Encontrei uma velha amiga e perdi a noção do tempo.

— Mulheres falam mais que investidores em reunião — um homem moreno brincou arrancando risadas do grupo.

Sorri automaticamente. Mas minha mente estava em outro lugar. Na biblioteca. Em Alexander. Na forma como ele ainda conseguia destruir meu equilíbrio apenas existindo no mesmo ambiente que eu.

Horas depois, o jantar finalmente começou em outro salão da mansão. E para meu completo alívio Alexander não apareceu novamente. Talvez tivesse ido embora. Talvez tivesse desistido. Ou talvez estivesse apenas esperando o momento certo.

Já passava das onze da noite quando Ewan decidiu ir embora. Durante todo o trajeto de volta até o aeroporto privado, permaneci em silêncio observando as luzes da estrada pela janela. Mas dentro da minha cabeça... Eu ainda conseguia sentir o olhar de Alexander sobre mim.

— John, deixe-me primeiro — Ewan ordenou ao motorista. — Depois leve a Srta. Kartell para a casa dela e está liberado para tirar seus dias de licença. Apenas entregue as chaves do carro para Tyler.

— Sim, senhor.

Então Ewan olhou para mim e eu só assenti distraída. Meu coração ainda estava estranho. Inquieto. Então depois de alguns segundos, tomei uma decisão impulsiva.

— Ewan...

Ele me encarou e ergueu uma sobrancelha.

— Sim?

Hesitei apenas um segundo.

— Posso dormir na sua mansão esta noite?

O olhar dele mudou imediatamente. Mais atento. Mais intenso. Mas ainda gentil.

— Claro que pode, minha querida.

E pela primeira vez naquela noite senti que talvez eu realmente precisasse fugir de Alexander Foster.

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