Mundo de ficçãoIniciar sessãoAo tentar encontrar a Dana e não conseguir, fui direto para a saída. Por sorte, tinha alguém chegando de táxi. Me aproximei para entrar assim que o outro passageiro desceu.
Foi quando ouvi minha voz ser chamada.
_ Ane, espera!
Parei por um segundo, tentando decidir se valia a pena ouvir o que ele tinha a dizer. Mas a imagem que eu tinha na cabeça decidiu por mim.
Entrei no táxi.
_ Vai, por favor… sai o mais rápido possível — pedi ao motorista.
Olhei para trás e ainda vi ele na calçada, com as mãos no cabelo, me olhando como se não acreditasse que eu estava indo embora.
_ Moça, qual é o endereço? — a voz do taxista me trouxe de volta.
_ Rua Luís Roberto Barroso, número 144 — respondi.
Fechei os olhos, tentando apagar aquela cena da minha cabeça.
Uma lágrima caiu, silenciosa.
Mas eu prometi a mim mesma: não deixaria ele brincar comigo outra vez.
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No dia seguinte, meu telefone tocou cedo demais.
Nem eram sete da manhã.
_ Espero sinceramente que estejam me ligando pra avisar que o mundo está acabando, porque senão eu vou acabar com quem me acordou a essa hora — resmunguei antes de atender.
_ Alô.
_ Ane?
_ Não, Shakira — respondi.
_ Idiota!
_ Por que você está me ligando a essa hora, Dana? Alguém morreu?
_ É exatamente isso que eu quero saber! — ela disparou. — Fiquei sabendo que você foi embora da boate pelo meu irmão, que estava desesperado atrás do seu endereço. Eu perguntei o que tinha acontecido e ele não quis me dizer. Quando eu falei que não o daria o endereço porque era tarde, ele saiu bufando feito um touro!
Engoli em seco.
_ O que aconteceu entre vocês, Ane?
_ O que aconteceu, Dana, é que seu irmão é um imbecil — respondi. — E também está cedo demais pra eu me estressar com essa conversa.
_ Podemos nos ver mais tarde?
_ Desde que não seja na sua casa…
_ Ok. Sorveteria então?
_ Pode ser.
_ Ane… eu te amo. Não deixa o trouxa do meu irmão estragar as coisas entre nós.
_ Nunca — respondi.
_ Então tá. Sorveteria e depois shopping. Só nós duas, sem garotos.
_ Tudo bem, amiga. Te amo. Tchau.
_ Tchau.
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Depois que desliguei, fiquei um bom tempo olhando para o teto, pensando no que Dana tinha me dito.
Qual seria o interesse do Patrick em vir atrás de mim?
Talvez ele só estivesse brincando.
Talvez eu fosse só mais uma distração.
Afinal… ele era mais velho, experiente, e provavelmente percebeu o quanto eu me afetava por ele.
E resolveu brincar com isso.
Respirei fundo.
_ Sabe que a gente pode comprar sorvete na praça de alimentação do shopping, né? — falei mais tarde, quando encontrei Dana em frente à sorveteria.
_ Você concordou em vir aqui primeiro — ela respondeu.
_ Eu estava com 80% do cérebro adormecido. Aceitaria qualquer coisa que você dissesse.
_ Para de drama, Ane. Você ama sair comigo.
Revirei os olhos.
_ Amo às vezes.
Entramos na sorveteria.
Enquanto esperávamos, pensei na minha mãe. Na forma como ela nunca esteve realmente presente nas coisas importantes pra mim. E em como a ausência dela, às vezes, pesava mais do que eu admitia.
_ Terra chamando Ane — ouvi Dana.
_ Oi?
_ Você estava viajando de novo, né?
_ Só pensando na vida.
_ E essa vida tem nome?
_ Não começa, Dana. Eu não quero falar sobre isso.
_ Ok, ok… já não está aqui quem falou.
Ficamos em silêncio por um tempo.
Até que o sino da porta tocou.
Olhei automaticamente.
E meu estômago afundou.
_ Não acredito nisso — murmurei, com raiva. — Você tem alguma coisa a ver com isso, Dana?
_ Desculpa, amiga… — ela disse, levantando devagar. — Eu não sabia exatamente o que aconteceu entre vocês ontem, mas sei o quanto você é louca por ele… e o quanto ele estava surtado atrás de você. Eu contei que estávamos aqui.
_ Eu pensei que você fosse minha amiga — minha voz falhou.
Ela me olhou triste.
_ Eu sou. Mas vocês precisam conversar. E se depois disso você ainda achar que eu não mereço sua amizade… eu vou entender.
Ela se levantou e saiu.
Me deixando sozinha.
Com ele.
Patrick sentou à minha frente.
_ Por favor, me ouve antes de tentar me matar — ele disse.
Eu não respondi.
Só o encarei.
_ Eu gosto de você, Ane. Não te conheço há muito tempo, não sei tudo sobre você… mas o que eu sei já é suficiente pra eu gostar de você.
Respirou fundo.
_ Eu sabia que você estava na boate. Ouvi a Dana falando com o Adam. Eu fui lá porque queria te ver.
Engoliu em seco.
_ Mas quando eu te vi com aquele cara… eu perdi a cabeça. Eu fiz besteira. Eu sei. Eu senti raiva… e quis te fazer sentir também. Mas quando vi o jeito que você me olhou ontem… eu percebi o tamanho da burrice que eu fiz.
Ele se aproximou um pouco.
_ Me perdoa. Me dá uma chance de te mostrar que eu não sou esse babaca que você viu ontem. Eu quero te conhecer… e quero que você me conheça também.
O mundo parecia estranho demais pra ser real.
Mas doía.
Doía porque era ele.
E porque, no fundo, eu sabia exatamente o que aquilo mexia em mim.
_ Não há motivo pra te perdoar — respondi, firme. — Você é livre pra fazer o que quiser. A errada nisso tudo sou eu.
Ele tentou segurar minha mão.
Eu afastei.
_ Não, Patrick. Ontem eu entendi. E não vou mais misturar as coisas. Se eu quero ser sua amiga? Sim. Mas entre nós… nunca vai ser nada além disso.
Me levantei.
E fui embora.







