Mundo de ficçãoIniciar sessão
Eu nunca fui o tipo de garota que reclamava da vida.
Na escola, também nunca me destaquei. Não era nerd, nem popular. Eu só… existia. Fazia minhas coisas sem chamar muita atenção, e sinceramente? Gostava assim.
Também não tive namorados no ensino médio. Os meninos da minha idade pareciam disputar quem conseguia ser mais idiota, então manter distância sempre pareceu uma ótima escolha.
E antes que você imagine uma garota solitária e introspectiva demais, não era isso. Eu tinha Dana.
A doida da Dana.
Minha melhor amiga e parceira oficial de tardes em livrarias, bibliotecas e cafeterias pequenas demais para o mundo inteiro. Nós passávamos horas falando sobre livros, música e garotos impossíveis, enquanto dançávamos Backstreet Boys no quarto dela como se aquilo fosse um grande show. Tinha algo de mágico naquela simplicidade. Nada parecia urgente. Nada parecia quebrado.
Eu gostava da estabilidade das coisas simples.
Do conforto de saber exatamente como meus dias seriam.
O que para muita gente parecia tédio, para mim era paz.
Só existia uma pessoa capaz de destruir completamente essa paz: Patrick.
O irmão mais velho da Dana.
Toda vez que ele aparecia, meu estômago virava um caos absurdo. Dana dizia que qualquer dia começaria a andar comigo segurando um balde, para evitar que eu babasse no chão e algum inocente sofresse um acidente.
E sinceramente? Ela tinha razão.
Era impossível não babar no Patrick.
Ele tinha aqueles olhos verdes irritantemente bonitos, cabelos escuros cacheados e um sorriso capaz de convencer qualquer garota a cometer um crime. Alto, atlético, sempre passando os fins de semana entre jogos de futebol e festas cheias demais. Ele parecia pertencer a outro tipo de mundo, um mundo mais leve, mais confiante, mais barulhento.
Patrick pertencia ao tipo de realidade que nunca parecia incluir garotas como eu.
Enquanto ele colecionava meninas lindas e inalcançáveis, eu era apenas Ane: pele morena, cabelos ondulados, olhos cor de mel e uma obsessão vergonhosa pelo irmão da minha melhor amiga.
Mas tudo bem.
Todo mundo sobrevive ao primeiro amor platônico, não é?
Naquela época, eu realmente acreditava nisso.
Eu me acostumei a observar de longe, a rir das histórias que Dana contava sobre ele, fingindo desinteresse quando, na verdade, gravava cada detalhe sem querer. Ele nunca percebeu. Ou talvez percebesse e apenas achasse divertido demais para comentar.
Sinto falta daqueles dias.
Sinto falta da Dana.
Às vezes a vida é tão inacreditável que parece ter sido escrita por algum autor cruel e sem noção, que gosta de mudar as regras no meio do jogo só para ver o que acontece com a gente.
Passei grande parte da minha vida ouvindo que tudo acontece por uma razão.
Mas, honestamente?
Que sentido poderia existir em tudo o que aconteceu com a gente?
Talvez algumas histórias não sejam feitas para fazer sentido. Talvez sejam feitas apenas para marcar a gente… e
seguir com a gente, mesmo quando tudo o resto vai embora.
Cinco anos atrás…
— Não acredito! Sério? E por que você não me contou que estava falando do meu irmão?
Dana parecia genuinamente chocada.
O problema era que eu havia passado praticamente o ano inteiro falando sobre um garoto que conheci na padaria e por quem, infelizmente, desenvolvi uma paixão completamente ridícula. Depois disso, comecei a inventar desculpas para aparecer lá todos os domingos de manhã, mesmo que ele mal soubesse da minha existência.
— Como eu ia contar? — rebati. — Você vive reclamando do Patrick. “Patrick isso”, “Patrick aquilo”, “meu irmão é um babaca pegajoso”… Eu não sabia como você reagiria se descobrisse que eu estava apaixonada por ele.
Dana colocou a mão no peito, dramaticamente ofendida.
— Ane, isso é nojento! Todo esse tempo ouvindo você falar do que faria com esse homem e no fim era o meu irmão?
Comecei a rir.
— Não é nojento.
— É sim! Pior: nós somos parecidos. Então é quase como se você estivesse apaixonada por mim.
— Não são parecidos.
— Somos sim.
— Nem de longe.
— Ainda assim… eca!
O travesseiro veio direto na minha cara.
Eu gargalhei mais ainda.
Era impossível não rir da Dana. Ela tinha aquele tipo de energia caótica que transformava qualquer conversa simples em um evento.
— Tá bom — ela disse, cruzando os braços. — Só porque eu amo muito você, vou ajudar na operação “torne-se minha cunhada”.
— Deus me livre. Não me mete nisso. Eu conheço você, Dana. Isso tem tudo para acabar em humilhação pública.
— Você não confia nos meus talentos de cupido?
— Nem um pouco.
— Sua vaca.
Ela pegou o celular na cama e olhou rapidamente para a tela.
— Inclusive… acho ótimo você começar a confiar, porque meu irmão chega em uns cinco minutos para o almoço.
Meu coração simplesmente parou.
— O quê?
— Patrick vem todo fim de semana, sua maluca. Já te falei isso umas cinquenta vezes. Meus pais obrigam o “filho universitário exemplar” a aparecer no almoço de domingo.
— Você tá brincando.
— Não.
Levantei tão rápido da cama que quase tropecei nos próprios pés.
— Ei, onde você vai?
— Embora. Antes que ele chegue.
Essa era a ideia.
Desci a escada praticamente correndo, mas no último degrau bati em alguém e perdi completamente o equilíbrio. Só não caí porque duas mãos me seguraram pela cintura.
— Opa… cuidado.
Minha respiração falhou.
Patrick.
Ele estava me segurando enquanto me observava com um sorriso torto, divertido, como se aquilo tivesse sido a coisa mais engraçada do mundo.
E talvez tivesse mesmo.
— Você está bem?
Meu cérebro simplesmente desligou.
— Eu… bem… sim. Quer dizer… estou.
Perfeito, Ane. Absolutamente brilhante.
A gargalhada da Dana ecoou atrás de mim.
Desgraçada.
— Patrick, essa é a Ane. Minha amiga. Ane, esse é o Patrick.
Ela tossiu logo depois, num falso pigarro.
— Como se você não soubesse…
Fingi não ouvir.
Ou melhor, rezei para que só eu tivesse ouvido.
Patrick continuava olhando para mim daquele jeito tranquilo, com um sorriso que parecia desregular todos os órgãos do meu corpo ao mesmo tempo.
— Engraçado… como nunca te vi aqui antes?
— Ah… desencontros, eu acho. Quando eu vinha, você estava na faculdade. Ou talvez eu estivesse em casa quando você vinha… enfim…
Cala a boca. Cala a boca imediatamente.
Por que, na primeira conversa da minha vida com o garoto dos sonhos, eu parecia incapaz de formular frases normais?
Dana já estava quase sem ar de tanto rir.
Hiena infernal.
— Enfim… eu já estava indo embora — falei rapidamente.
— Mas por quê? — Patrick olhou para a irmã. — Você não convidou sua amiga para almoçar?
Dana respondeu com a maior cara limpa do universo:
— Convidei. Mas a Ane é tímida e entrou em pânico quando descobriu que teria companhia masculina na mesa.
Eu estreitei os olhos na direção dela.
Você está morta.
— Fica — Patrick insistiu. — Eu prometo que não mordo. E agora fiquei curioso para conhecer a santa que consegue tolerar a Dana.
Não consegui evitar a risada.
— Certamente sou uma santa — murmurei.
— Viu? Ela já tem senso de humor. Agora pronto, vai ter que ficar.
Patrick sorriu outra vez antes de subir as escadas.
— Vou tomar um banho e já desço. Assim podemos conversar direito.
Conversar direito.
Meu Deus.
Assim que ele sumiu no corredor do andar de cima, Dana explodiu em gargalhadas.
— Ane, eu vou morrer! Sua cara foi a melhor coisa que já vi na vida!
Mostrei o dedo do meio para ela.
— Você é uma péssima amiga.
— Não, eu sou uma amiga excelente. O problema é que você entrou em combustão espontânea quando viu meu irmão.
— Eu odeio você.
— Mentira.
Ela se jogou ao meu lado no sofá ainda rindo.
— Relaxa. Não foi tão ruim assim, Maria do Bairro.
— Não fala comigo.
— Você vai sobreviver. Só tenta manter uma conversa coerente quando ele descer, porque eu sinceramente não tenho estrutura emocional para rir tanto de novo.
Acabei rindo também.
Porque, infelizmente, ela tinha razão.
Durante o almoço, o clima foi melhor do que eu esperava. Eu já conhecia os pais da Dana, conhecia a casa, os costumes, o jeito bagunçado daquela família. O problema era Patrick.
Toda vez que ele falava diretamente comigo, meu corpo inteiro esquecia como funcionar normalmente.
E Dana, traidora profissional, se divertia assistindo ao meu sofrimento.
Quando Patrick saiu da mesa para atender uma ligação, finalmente consegui respirar.
Pouco depois, Dana subiu para falar com o namorado e pediu que eu esperasse por ela.
Então fui para o jardim.
A casa deles sempre pareceu pertencer a outro universo.
Era um casarão antigo reformado, com varanda branca rodeando toda a estrutura, janelas enormes e um jardim bonito demais para existir na vida real. Nos fundos havia uma piscina, uma área gourmet e bancos de madeira espalhados perto das árvores.
Eu gostava daquele lugar.
Gostava da sensação de paz que existia ali.
Sentada naquele jardim, observando a luz do sol atravessar as folhas, era quase possível esquecer minha própria vida.
Esquecer da minha mãe alcoólatra.
Do meu irmão afundado nas drogas.
Do homem casado que aparecia de vez em quando só para fingir que era meu pai.
Meus pais nunca tiveram uma história bonita. Minha mãe era amante dele havia mais de vinte anos. E eu carregava nas costas o peso silencioso de existir no lugar errado da vida de muita gente.
Eu tinha meio-irmãos que odiavam a ideia da minha existência.
E, honestamente?
Às vezes eu nem conseguia culpá-los.
Fiquei tão perdida nos próprios pensamentos que não percebi alguém se aproximando.
— Fugindo do almoço também?







