Dois

Yasmin

Estar de volta a esse quarto ainda me parece errado. Não é só estranho, é como se cada parede, cada móvel, cada detalhe silencioso estivesse me observando, me lembrando exatamente quem eu fui e de tudo que eu destruí no caminho.

Sento-me na beirada da cama, com os dedos entrelaçados no colo e o olhar perdido em algum ponto do chão que eu nem enxergo de verdade.

Já faz um ano. Um ano inteiro morando aqui de novo, sob o teto dos meus pais, no mesmo quarto que um dia foi refúgio e agora parece mais um espelho cruel. Nada em mim encaixa mais aqui e, ao mesmo tempo, eu não me encaixo em lugar algum.

As sessões de terapia ajudam, sei que me dão algum tipo de estrutura, um fio mínimo de lógica no meio do caos que minha cabeça ainda é. Mas não é suficiente para calar a voz que insiste em repetir, todos os dias, que fui responsável por tudo: pelo fracasso, pelas escolhas erradas, pelo afastamento, pela perda. Principalmente pela perda.

Meu peito aperta só de pensar nela. Mila. O nome ecoa dentro de mim como algo que não deveria doer tanto ainda, mas dói.

Dói como se fosse recente, como se eu ainda tivesse tempo de fazer diferente, de ligar, de aparecer, de a abraçar e dizer o quanto sinto falta, ou quanto eu a amo, mas não faço isso. Eu não estava lá, e agora nunca mais vou estar.

Fecho os olhos por um instante, sentindo a garganta apertar, mas me recuso a chorar. Não de novo. Eu já chorei demais por coisas que não têm mais conserto.

Levanto-me da cama quase no automático, meu corpo assumindo o controle no lugar da mente, e pego o vestido largado na poltrona. O tecido escorrega entre meus dedos, leve, bonito e completamente deslocado da forma como me sinto por dentro.

Sigo para o banheiro. O caminho é curto, familiar demais, assim como tudo aqui, assim como as lembranças que tento evitar, mas que sempre encontram um jeito de voltar. Paro em frente à pia, apoio as mãos na borda e encaro meu reflexo no espelho. Por um segundo, quase não me reconheço. A imagem é bonita, arrumada e controlada, mas eu sei o que tem por trás. Eu sei quem fui. E isso é o pior.

— Como você foi burra — minha voz sai baixa, amarga e carregada de um desprezo que eu nunca imaginei sentir por mim mesma.

Burra. Cega. Idiota.

Eu realmente acreditei que Denis era o amor da minha vida, que o cuidado, a atenção e a forma como ele me olhava eram reais. Eu construí minha vida inteira em cima disso, ou melhor, destruí minha vida inteira por causa disso.

Denis foi perfeito. Perfeito demais. Um lobo disfarçado de tudo que eu sempre achei que queria. Ele se moldou e se esforçou, fez questão de parecer o homem ideal, e eu aceitei tudo sem questionar. Era fácil, bonito e um conto de fadas que vivi como uma idiota.

Nós éramos o casal invejável. Na faculdade, todo mundo olhava. No baile de formatura, quando ele me pediu em casamento, foi como uma cena de filme com luzes, aplausos e emoção. Até chorei de felicidade.

Hoje, quase sinto vergonha dessa lembrança, porque enquanto eu acreditava que estava começando a minha história perfeita, as pessoas que realmente me amavam já viam o que eu me recusava a enxergar.

Meus pais nunca gostaram dele. Nunca. Tentaram me avisar de todas as formas possíveis, mas eu não quis ouvir. Sempre tinha uma desculpa, achava que era exagero, implicância, medo de me ver crescer.

Mila… Aperto os olhos por um segundo e a dor vem com mais força. Ela tentou também. No começo, até parecia gostar dele, mas depois começou a implicar, a questionar, a dizer que tinha algo errado. Lembro-me de revirar os olhos e dizer que ela estava sendo infantil.

Infantil.

Solto uma respiração pesada, sentindo o gosto amargo dessas lembranças. Ela só estava tentando me proteger e eu me afastei. Me afastei deles, um por um, como se estivesse fazendo a coisa certa, como se estivesse escolhendo o amor. Mas não era amor. Nunca foi.

Eu me mudei com ele para Curitiba, deixei tudo para trás sem pensar duas vezes: a empresa, o plano, o nosso futuro. Nosso. Eu quase rio. Aquilo nunca foi nosso, era dele. Sempre foi. Porque, no fundo, eu tinha outros planos. Eu queria terminar meu curso, ajudar meu pai, estar perto da minha família, mas abri mão de tudo por ele. Porque eu achava que isso era amar.

Jogo a água fria no rosto, deixando escorrer pela pele como se pudesse levar junto um pouco dessa sensação sufocante que insiste em ficar. Mas não leva. Nunca leva.

Levanto o rosto devagar e encaro meu reflexo de novo. Os olhos ainda são os mesmos, mas a mulher ali não é. E talvez nunca volte a ser.

— Você é patética — digo mais uma vez, sem suavizar, sem tentar ser gentil.

Continuo encarando meu reflexo, como se fosse possível encontrar alguma resposta ali, escondida atrás da imagem de uma mulher que, por fora, ainda parece inteira. E isso é o mais irônico, porque eu já fui feliz. De verdade. Ou pelo menos foi o que acreditei por muito tempo.

Denis era um ótimo marido. Atencioso, presente dentro do que eu entendia como presença, sempre cuidadoso com as palavras, fazendo o possível para que eu não sentisse falta da minha família. Ele preenchia os espaços com uma facilidade quase impressionante, como se soubesse exatamente onde tocar, o que dizer, como agir. E, ao mesmo tempo, deixava claro, de uma forma sutil, quase imperceptível, o quanto eu o magoaria se escolhesse retomar o contato com os meus pais. Nunca foi uma proibição direta, era pior. Era emocional, e eu cedi. Escolhi ele, escolhi acreditar que ele bastava, que nós bastávamos. Como eu fui idiota e egoísta.

Respiro fundo, sentindo o peito apertar enquanto as lembranças vêm, uma atrás da outra, como um filme que eu não consigo pausar. Eu realmente acreditava que ele era a minha única família. Ele e os pais, que me acolheram bem, me trataram como parte de algo que eu achei que era seguro. E foi nesse cenário que o desejo de ser mãe começou a crescer dentro de mim de forma mais intensa.

Mas a verdade é que sempre esteve ali, desde sempre. Eu sempre quis, imaginei e senti. Denis não compartilhava do mesmo entusiasmo, mas eu aceitava. Eu entendia. A empresa estava crescendo, tomando proporções que nós nem imaginávamos, no início filiais, clientes maiores, mais responsabilidade.

E eu sentia orgulho. Um orgulho genuíno, porque sabia o quanto eu tinha lutado por aquilo, o quanto eu tinha me dedicado, me doado, me moldado para fazer tudo funcionar. Era nosso. Ou pelo menos era o que eu acreditava.

Cinco anos de casamento, e meses tentando engravidar. Expectativa, frustração, esperança tudo misturado, até que veio o diagnóstico.

Ainda sinto o cheiro característico, o silêncio desconfortável, o olhar da médica que demorou meio segundo a mais do que deveria antes de falar: tumor. Avançado.

O ar falta só de lembrar.

Tudo virou um borrão depois disso. Exames, tratamentos, médicos, decisões rápidas demais para uma mente que não estava pronta para nada daquilo.

O tratamento foi agressivo, duro e exaustivo. Eu precisei ser forte a maior parte do tempo, e sozinha, porque Denis precisava estar na empresa. Sempre precisava, e eu entendia. Eu sempre entendia.

Meses depois, a decisão final, a única possível, que segundo eles era a retirada do útero.

Fecho os olhos por um instante, sentindo aquela dor antiga reaparecer com uma força que nunca realmente foi embora. Ali, acabou o meu sonho, a possibilidade, a escolha. Arrancaram de mim não só um órgão, mas tudo que projetei como futuro. Aquilo me destruiu em partes tão pequenas que eu nem sei dizer quando deixei de ser inteira.

Denis estava lá tecnicamente, mas eu o sentia distante, frio em lugares onde eu precisava de calor. E mesmo assim eu aceitei, como sempre.

Então veio o pior momento da minha vida.

Durante a recuperação, o telefone tocou. Meu pai. Anos sem me ligar, respeitando a escolha que eu fiz de me afastar… e naquele dia ele ligou. Eu já sabia que não era coisa boa. Ninguém rompe um silêncio de anos por algo simples.

Mila estava morta. Overdose.

Minha respiração falha só de reviver esse momento. Não faz sentido. Nunca fez. Mila odiava álcool, reclamava do cheiro. Era intensa, sim, difícil às vezes, mas droga?

Aquilo não encaixava na imagem que eu tinha dela. Ela era minha irmãzinha, minha garotinha, e eu não estava lá. Eu nem tive chance de dizer adeus, porque Denis não deixou.

“Você precisa de repouso.”

“Você está debilitada.”

“Não é seguro.”

As justificativas vinham uma atrás da outra, sempre muito racionais, sempre muito bem colocadas. E eu, mais uma vez, aceitei.

Eu perdi a minha irmã e perdi a chance de me despedir.

A culpa me atravessa como uma lâmina, porque não foi só a morte, foi tudo antes. A ausência. O abandono.

Quando finalmente voltei para Goiânia, eu entendi como ela se perdeu. As festas, as companhias erradas, as escolhas impulsivas desde o primeiro período da faculdade. Engenharia civil era o sonho dela desde adolescente. Meus pais tentaram de todas as formas possíveis, mas Mila sempre foi intensa demais para ser contida.

Eu me pergunto todos os dias se eu estivesse aqui teria sido diferente. Se eu não tivesse escolhido aquele homem, se tivesse ficado, se eu tivesse sido irmã de verdade.

Talvez eu pudesse ter acolhido, ter impedido. Talvez ela ainda estivesse viva.

O peso disso é insuportável, e, ainda assim, não foi o fim. Porque enquanto eu estava quebrada, pesquisando sobre adoção, tentando encontrar algum sentido, alguma forma de reconstruir, ele estava me traindo com a Samila. A mulher que eu considerava amiga.

Solto uma risada fraca, amarga. Amiga. Eu nem tinha amigas. Minha vida era aquela empresa e aquele casamento, e nada daquilo era real.

Ela estava grávida dele de três meses. Esse foi o argumento, a justificativa, o motivo para o divórcio. Como se não bastasse a traição, veio o golpe final ao descobrir que eu não tinha nada. Nem um por cento da empresa que eu ajudei a construir com anos da minha vida.

Fico em silêncio, olhando para mim mesma no espelho, sentindo tudo isso passar de novo, como uma avalanche que nunca termina. O baque foi tão forte que eu quis desaparecer, e eu tentei. Três cartelas diferentes. Uma mistura perigosa o suficiente para não acordar. Pelo menos era o plano, mas eu acordei. E quando abri os olhos, as únicas pessoas ali eram aquelas que eu abandonei, os meus pais. Eles vieram até Curitiba e me tiraram daquele inferno sem me cobrar nada, sem me julgar, sem me dizer “eu avisei”. Só deram amor. E isso dói mais do que qualquer outra coisa, porque eu não mereço.

Abaixo o olhar, apoiando as mãos na pia com mais força, precisando me segurar em alguma coisa. Já faz um ano que estou vivendo aqui e ainda não consigo olhar para eles de verdade, porque a vergonha é grande demais. A raiva de mim mesma é constante e, às vezes, eu preciso lutar contra a vontade de simplesmente deixar de existir, porque viver com tudo isso cansa. A culpa, raiva e vergonha não vão embora, são minhas companheiras mais fiéis, e estou perdida nelas. Completamente.

Encaro meu reflexo mais uma vez, tentando encontrar algum resquício de esperança naquela mulher que ainda está de pé.

— Será que um dia consigo viver de novo? — Minha voz sai baixa, quase um sussurro. — Será que eu consigo me perdoar?

E o silêncio que vem depois é a única resposta que eu tenho.

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