Mundo de ficçãoIniciar sessãoYasmin
Eu saio do banheiro ainda com a sensação de que o ar não entra direito nos pulmões. Tiro o pijama sem pressa, sem realmente prestar atenção no que estou fazendo. O aperto no peito não diminui, só muda de lugar, como se procurasse um ponto novo para incomodar. Passo a mão pelo cabelo, tentando organizar não só os fios, mas os pensamentos, e encosto a porta atrás de mim lentamente. Eu sei que não posso continuar assim, não dá mais. Ficar aqui, vivendo à custa dos meus pais, ocupando um espaço que abandonei por escolha, me corrói de um jeito que não consigo mais ignorar. A vergonha é constante, silenciosa, mas sempre presente. Eles me acolheram quando eu não tinha mais nada, quando eu mesma me destruí, e, ainda assim, sinto como se estivesse devendo algo impossível de pagar. Meu olhar cai sobre a cômoda, nos porta-retratos, e travo por um segundo. Na primeira foto, Mila ainda é uma criança, com o sorriso largo e despreocupado, enquanto eu, mais velha, estou ao lado dela com um braço apoiado nos ombros finos. Na segunda, quinze anos: o vestido, a felicidade estampada no rosto, e eu ali, orgulhosa, presente. A última foto foi última vez que estivemos juntas daquele jeito, antes de eu ir embora, de a abandonar. Minha garganta aperta e meus olhos ardem, mas não choro. É como se a dor já tivesse ultrapassado esse ponto. — Eu sinto tanto a sua falta — murmuro, quase sem voz. Eu nunca imaginei que ela fosse se perder assim. Nunca. E talvez esse tenha sido o meu maior erro. Uma batida leve à porta me faz piscar, voltando para o presente. — Yasmin? — A voz da minha mãe vem suave, mas carregada de cuidado. — Está tudo bem? Eu viro o rosto automaticamente para o relógio na mesinha de cabeceira. Quase onze e meia. Meu estômago revira de leve. Dormi demais, de novo. Os calmantes da noite anterior ainda pesam no meu corpo, deixando tudo mais lento, mais arrastado. Isso está se tornando frequente demais e sei que não deveria. Eu nunca dei trabalho para eles. Fui uma criança tranquila, uma adolescente responsável, e agora sou exatamente o oposto disso. — Está sim — respondo, forçando estabilidade na voz. — Pode entrar, a porta está aberta. Ela abre devagar, como se sempre tivesse medo de me encontrar quebrada demais. E talvez tenha. — Bom dia — digo, tentando esboçar um sorriso. — Desculpa, eu perdi a hora. Ela me observa por um instante, avaliando mais do que eu gostaria, e então entra. — Está tudo bem mesmo? — O olhar dela passa pelos porta-retratos e eu sei exatamente o que está pensando. — Não fique se martirizando, minha filha, você não tem culpa. Engulo em seco. Eu tenho culpa, mas estou sem forças para discutir isso agora. — Está tudo bem — repito, mais baixo. Ela se aproxima um pouco mais, com aquele cuidado que só ela tem. — Vai se arrumar e comer alguma coisa. Você nem jantou ontem. — A senhora está me vigiando? — Levanto uma sobrancelha, tentando aliviar o clima. Ela ri, um riso leve, acolhedor. — Não estou vigiando. Estou cuidando de você. Isso aquece e dói ao mesmo tempo. — Obrigada — digo, sincera. Respiro fundo, tentando me manter presente. — O papai já foi trabalhar? — Foi. — Ela assente. — Mas está preocupado. — Com o quê? — O administrador da fazenda pediu demissão, do nada. Seu pai vai ter que resolver tudo por lá, e rápido, você sabe como ele fica com essas coisas. Eu sei. Meu pai sempre foi organizado, metódico, e gosta de ter controle, de entender cada detalhe. A fazenda. A palavra acende algo distante na minha memória. Lembro-me vagamente das vezes que fomos para lá, anos atrás. Não eram muitas, mas eram boas: ar puro, silêncio, uma sensação de espaço que não existe na cidade. Morro Alto. Eu demoro um segundo, mas o nome vem, o lugar onde meus pais sempre sonharam em viver de verdade. A produção de suínos, principalmente. Gado, galinhas, mas os porcos sempre foram o foco. — Eu não vejo a hora do seu pai se aposentar — minha mãe comenta, suspirando levemente. — Ele quer tanto ir para lá de vez. Fico em silêncio por um instante, pensando, e então a ideia surge, inesperada, quase absurda. Eu nem entendo direito de fazenda, nada técnico, nada prático. Minha vida sempre foi escritório, números, planejamento, ainda assim, talvez… — Mãe — começo, devagar. Ela me olha. — O que você acha de eu ir para a fazenda por um tempo? — Como assim? — Ela pisca, surpresa. — Ficar lá. Ajudar o papai, ver o que precisa para ele não ficar preocupado e nem ter que ficar indo para lá. — Respiro fundo, tentando organizar o que estou dizendo enquanto falo. — Eu sei que não entendo muito, mas posso aprender. Posso pelo menos tentar organizar alguma coisa, ajudar com gestão, sei lá… Ela continua me olhando, claramente pega de surpresa. — Você não precisa se preocupar com isso, Yasmin. Se preocupe em ficar bem. — Eu sei — interrompo, com mais firmeza do que eu esperava. — Mas quero tentar. O silêncio se instala por um segundo. — Eu não posso ficar para sempre aqui desse jeito. — Minha voz sai mais baixa agora, mas mais honesta. — Preciso fazer alguma coisa com a minha vida. — Seguro o olhar dela, mesmo com tudo dentro de mim tremendo. — E talvez isso seja um começo.






