Me Apaixonei por um Cowboy Arrogante
Me Apaixonei por um Cowboy Arrogante
Por: Laura Ivanish
Um

Fernando

Estou no sofá, o corpo finalmente afundando no descanso depois de um dia inteiro de aula, e a primeira coisa que me atravessa é um alívio quase físico, profundo, que se espalha pelos músculos como uma onda quente. É estranho perceber isso tão perto do fim, mas é real. Último ano. Últimas semanas.

Meu TCC está praticamente pronto, e só de saber que a fase dos estágios finalmente acabou, sinto como se tivessem tirado um peso enorme das minhas costas. Eu não aguentava mais. No começo, pular de cidade em cidade parecia uma ótima ideia — experiência, currículo, contatos —, tudo muito bonito no papel. Na prática, foram só estradas longas, cansaço acumulado, comida ruim e aquela sensação constante de não pertencer a lugar nenhum. Eu quis isso, escolhi, mas agora só consigo pensar que foi uma decisão idiota.

Passo a mão no rosto, soltando o ar devagar, e pego o celular jogado ao meu lado. Abro o Tinder quase no automático, o polegar já acostumado com o movimento de deslizar, mas nem chego a ver direito quem aparece na tela antes de fechar o aplicativo rapidamente. Melhor não arrumar problema para o final de semana. Ficar de conversinha só vai me fazer perder tempo. Já tenho coisas demais ocupando minha cabeça. É melhor ir à caça sem ter que ficar demonstrando interesse.

Eu me levanto do sofá, sentindo o corpo esticar com um leve estalo nas costas, e caminho até a geladeira. Abro a porta esperando não encontrar nada que preste, mas quando vejo as três latas de cerveja ali, geladas, alinhadas como uma pequena vitória pessoal, um meio-sorriso escapa dos meus lábios.

— Ainda bem — murmuro.

Pego uma, notando que a geladeira está quase vazia, só com água, dois energéticos e um pacote de presunto. Fecho a porta com o pé. Preciso fazer compras, mas só de pensar em ir ao supermercado sinto uma preguiça enorme. Devia ter ido ver meus pais no último final de semana e aproveitado para encher a dispensa e a geladeira deles.

Abro a lata com um estalo seco e dou um gole demorado, sentindo o líquido gelado descer pela garganta, aliviando um pouco o cansaço que parece entranhado nos ossos.

E é exatamente nesse momento que a campainha toca.

Paro no meio do gole, com a lata ainda encostada nos lábios, e franzo a testa.

A primeira coisa que me vem à cabeça é André. Claro que é ele. Mora no mesmo prédio, não tem o menor respeito por horário e nunca avisa que está vindo. Provavelmente decidiu que hoje é dia de sair.

Solto um suspiro pelo nariz, já imaginando a insistência dele.

— Já vou — falo alto, mesmo sem saber se ele consegue ouvir, e sigo em direção à porta com a lata de cerveja ainda na mão.

Giro a maçaneta já preparado para dar de cara com André e alguma proposta idiota de última hora, mas a imagem que encontro do outro lado me faz travar no mesmo instante.

Não é ele.

É uma mulher loira, com o cabelo preso em um coque alto meio frouxo, como se tivesse sido feito às pressas. Seu rosto é bonito, marcado por uma maquiagem leve e bem-feita, mas o que chama minha atenção de imediato é o piercing no septo. Eu sei que já vi esse rosto antes. Tem alguma coisa ali que cutuca minha memória, mas não encaixa de primeira.

Então desço o olhar e vejo um bebê em seu colo. Um recém-nascido, adormecido, pequeno e frágil.

Meu cérebro demora alguns segundos para acompanhar o que meus olhos estão vendo, como se a cena simplesmente não fizesse sentido dentro da minha realidade.

— Oi — digo, confuso, com a mão ainda segurando a lata de cerveja. — Posso te ajudar?

Ela respira fundo, parecendo se preparar para algo muito maior do que isso.

— Você não deve se lembrar de mim — diz, soltando uma risada sem humor, quase vazia.

— Eu… não estou entendendo — franzo a testa.

— A gente se conheceu na festa da atlética — continua, direta. — Mas você estava muito bêbado. Bem provável que tenha esquecido.

Como um flash, a festa me vem à memória. O gosto ruim de bebida misturada, a cabeça girando, flashes desconexos. De repente, o rosto dela se encaixa no meio da bagunça: risos, luzes, música alta demais. Um beijo. Mãos. Sexo. Meu quarto, que eu nem me lembro de ter entrado, nem como cheguei até meu apartamento.

Passo a mão na cabeça, sentindo o peso da lembrança bater forte.

— Eu… — respiro fundo — me lembro de você, sim. Seu nome é… — forço a memória, tentando puxar o nome, mas ele não vem.

— Mi — ela diz, quase facilitando. — Pode me chamar de Mi.

— Certo, Mi. — Balanço a cabeça, ainda tentando organizar tudo. — Me desculpa, eu… — nem sei pelo que estou pedindo desculpa.

— Eu vou direto ao ponto — ela não perde tempo. — Eu preciso resolver um problema. — O jeito como ela fala não me agrada, é frio e direto demais.

— Que problema?

— Naquela noite — ela me encara de maneira firme —, eu engravidei.

— O quê? — O mundo parece dar uma leve inclinada.

— Quando eu descobri, já estava com quase cinco meses. Não dava mais para interromper — ela ajusta o bebê nos braços com naturalidade, como se isso não fosse a coisa mais absurda que eu já ouvi na vida. — E essa bebê aqui… — continua, olhando para mim — é sua filha.

A lata escorrega da minha mão antes que eu consiga processar direito e b**e no chão com um som metálico, a cerveja se espalhando pelo piso, mas eu nem olho.

Começo a rir, um riso seco, nervoso, sem nenhuma graça.

— Tá de brincadeira, né? — Passo a mão no rosto, ainda rindo. — Isso é o quê? Pegadinha? Foi o André? Porque se foi, eu juro que…

— Não é brincadeira — o tom dela, sério, firme e sem espaço para dúvida, corta meu riso no meio. — E é uma menina.

Um frio percorre minha espinha devagar.

— Como é que você tem tanta certeza disso? Que eu sou o pai? — pergunto, minha voz mais baixa agora, desconfiada e tensa.

— Porque você foi o único cara com quem eu transei, e a camisinha estourou — ela responde, simples assim.

— Você… tá falando sério? — Fico olhando para ela, sem reação.

Ela solta uma risadinha curta.

— Claro que não lembra desse detalhe. Você estava em outro mundo. E olha que eu tinha usado muita coisa… e ainda assim, estava mais sóbria que você.

— Isso não pode ser — meu estômago revira.

— Pode.

E antes que eu consiga reagir, ela dá um passo à frente e praticamente coloca o bebê nos meus braços.

Meu corpo reage atrasado. Eu seguro, mas completamente desajeitado, sem saber onde apoiar direito, sem saber a força certa, sem saber nada. Faz anos que segurei um bebê. Foi o Renatinho, meu irmão, quando ainda cabia inteiro no meu braço. Hoje ele já tem dez anos.

Agora estou aqui, com uma criança que pode ser minha filha.

Minhas pernas ficam estranhas, meio bambas, como se não fossem mais totalmente confiáveis.

Eu evito olhar, evito mesmo, porque se o fizer isso se torna real.

— As coisas dela estão aí — Mi diz, colocando uma bolsa rosa-claro no chão, como se estivesse deixando uma encomenda qualquer. — Tem tudo que precisa.

Eu finalmente levanto os olhos para ela, meu choque virando irritação.

— Você tá maluca? — Minha voz sai mais alta. — Aonde você pensa que vai?

— Eu não vou ficar com ela — ela responde, sem rodeio. — Eu levei a gravidez até o fim porque não tive escolha. Mas ser mãe… isso eu escolho não ser.

Isso me atinge como um soco seco no peito.

— Você não pode simplesmente largar ela aqui — retruco, sentindo o desespero começar a crescer. — Eu não sei cuidar de um bebê!

— Você vai dar um jeito — ela diz, já se virando de costas. — Você é o pai. Decide o que fazer. Adoção, sei lá.

— Ei! — Dou um passo atrás dela, ainda segurando a criança com todo o cuidado do mundo, completamente perdido. — Você não pode sair assim!

— Boa sorte — ela j**a por cima do ombro, aumentando o passo.

— Volta aqui! — falo mais alto, indo atrás dela pelo corredor. — Você não pode simplesmente deixar essa bebê comigo!

E então acontece.

Um choro alto e repentino corta o ar.

Eu paro na mesma hora, congelo, e olho para baixo. Ela está acordada. Pequena, frágil demais. Seu rostinho está contraído e vermelho, a boca aberta em um choro que parece grande demais para um corpo tão pequeno.

E, de repente, todo o resto perde força. A porta, o corredor, a mulher indo embora. Nada disso importa tanto quanto o peso leve nos meus braços e o som desesperado que ela está fazendo. Meu peito aperta de um jeito que eu não sei explicar, e eu fico ali, parado, sem saber o que fazer. Sem saber que, de agora em diante, a minha vida vai mudar para sempre.

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