Capítulo 5

Toco meu pulso levemente, passando os dedos sobre a pele como se pudesse reviver aquela sensação. Meu corpo ainda se lembra… do toque daquele desconhecido que, de alguma forma, é meu companheiro. Lembra da ausência da dor, do silêncio que tomou conta de mim naquele instante, de como tudo pareceu… calmo.

Como se, pela primeira vez em muito tempo, eu estivesse em paz.

Seu toque foi reconfortante.

Perigoso… justamente por isso.

— Você está muito distraída hoje… devo me preocupar?

A voz dele corta meus pensamentos como uma lâmina, fazendo tudo de bom desaparecer no mesmo instante.

Ergo o olhar e encontro Eros à mesa, comendo seu café da manhã com pressa, como se até aquele momento simples fosse apenas mais uma obrigação em sua rotina. Seus movimentos são controlados, elegantes… mas frios.

Hoje.

Hoje será o dia de anunciar o aumento dos impostos.

E, claro… eu tenho que acompanhá-lo.

Odeio isso.

— Não… nada com que se preocupar! — respondo, mantendo o tom neutro, escondendo qualquer resquício do que realmente passa pela minha mente.

Ele apenas dá de ombros, indiferente, como se minha resposta fosse irrelevante.

— Coma bem. — ele diz, finalmente me encarando. — Hoje iremos ao vilarejo. Fique sempre do meu lado… e não saia!

Há um aviso claro em suas palavras, mesmo que dito de forma aparentemente tranquila.

Aceno com a cabeça, obediente.

Mas, por dentro… minha mente já está longe dali.

Mordo levemente os lábios, desviando o olhar para o prato à minha frente, enquanto um pensamento insiste em surgir.

E se ele estiver lá?

O homem da floresta.

Meu companheiro.

Será que ele vive no vilarejo?

Será que… ele também vai sofrer com o aumento dos impostos?

Meu peito aperta com a possibilidade.

E, pela primeira vez, ir até o vilarejo não parece apenas mais uma obrigação.

Parece… um risco.

Ou talvez… uma chance.

...

Fico de cabeça baixa, evitando encarar os rostos ao meu redor. Sei exatamente o que aquelas pessoas sentem quando nos olham. Raiva. Desprezo. Revolta. E, mesmo sem merecer, acabo carregando o peso das decisões dele junto comigo.

Odeio isso.

Eros segura minha mão com firmeza, seus dedos apertando os meus com força suficiente para me lembrar que estou presa ali. Como se, a qualquer segundo, eu pudesse fugir.

E ele não está errado.

Porque, se tivesse a chance… eu fugiria.

Ele me conduz até o centro do vilarejo, seus passos confiantes, dominadores. Um dos guardas se adianta e grita, chamando a atenção de todos. Aos poucos, as pessoas vão se aproximando, formando um círculo ao nosso redor. O burburinho diminui até que o silêncio se instala, pesado, expectante.

Eros então sorri.

— Olá, meus caros súditos! — ele começa, com aquela voz controlada, quase ensaiada.

Enquanto ele fala, meu olhar se move discretamente pela multidão.

Eu o procuro.

— Como todos sabem, sempre procuro o melhor para meu povo e para meu reino! — Eros continua.

Como alguém consegue mentir com tanta facilidade?

Meu coração começa a acelerar.

Não o encontro.

Será que ele não vive aqui?

— Estarei aumentando os impostos! — ele anuncia.

A reação é imediata. Algumas pessoas fecham a expressão, outras começam a cochichar entre si, o desconforto se espalhando como uma onda silenciosa.

— E qual é o motivo?

A voz surge no meio da multidão, firme, sem hesitação.

E então… eu sinto.

Aquele cheiro.

Meu corpo reage antes mesmo da minha mente acompanhar. É quase automático. Fecho os olhos por um segundo, absorvendo aquele aroma que me envolve — fresco, acolhedor… familiar de uma forma que não deveria ser.

Quando abro os olhos, ele está ali.

E, sob a luz do dia, consigo vê-lo claramente.

Ele é exatamente como me lembro.

Forte. Intenso. Real.

Um príncipe… mas não como Eros.

Um príncipe guerreiro.

Nossos olhares se encontram.

Meu coração falha por um segundo.

Mordo os lábios e abaixo a cabeça rapidamente, sentindo um calor subir pelo rosto. A vergonha de estar ao lado de Eros… de parecer parte disso tudo… me consome.

— Como ousa questionar sua majestade? — Eros responde, irritado.

— Não estou questionando. — ele retruca, firme. — Mas é direito do povo saber para onde seu dinheiro está indo!

Meu peito aperta.

Fica quieto… por favor…

Está preocupada comigo, meu amor?

A voz surge na minha mente, clara… real demais para ser imaginação.

Arregalo levemente os olhos.

Ergo o olhar na direção dele, surpresa.

Ele me observa discretamente, e um leve sorriso surge em seus lábios.

Então é real.

Ele está falando comigo.

— Eu não preciso falar nada! — Eros continua, irritado. — Meu povo deve confiar em mim!

Ele vai mandar puni-lo se continuar questionando! — penso, direcionando minhas palavras a ele, ainda sem entender completamente como aquilo funciona.

Ele pune você?

A resposta vem como um rosnado dentro da minha cabeça.

Meu corpo enrijece por um instante.

— Vamos para casa! — sussurro para Eros, tentando conter aquilo antes que saia do controle, antes que alguém se machuque.

Eros me lança um olhar sério, desconfiado.

— Amanhã, os guardas irão passar para recolher o dinheiro! — ele anuncia, ignorando completamente a tensão ao redor.

O clima pesa ainda mais.

Hoje à noite… você prometeu.

A voz dele ecoa novamente na minha mente.

Meu coração dispara.

E, mesmo cercada por tantas pessoas… eu me sinto completamente exposta.

...

Estou parada no lugar de sempre, o ponto exato onde a pedra encontra a parede fria, esperando Joseph chegar. O ar da noite está mais denso hoje, como se carregasse um presságio, e percebo que cheguei mais cedo do que o normal — cedo demais. Quando Joseph surge, noto imediatamente o olhar surpreso dele ao me ver já ali, imóvel, como se estivesse esperando há muito tempo.

— Chegou rápido hoje! — Ele diz, franzindo levemente o cenho, os olhos ainda analisando meu rosto.

— Preciso falar com você antes de ir! — revelo, sem rodeios, sentindo a urgência pulsar dentro de mim.

Ele olha discretamente para os lados, como sempre faz, certificando-se de que estamos sozinhos. Em seguida, se aproxima um pouco mais de mim, diminuindo a distância, sua presença criando uma espécie de proteção silenciosa.

— Algo sério? Ele te machucou? — ele questiona, a preocupação evidente na voz e no olhar.

Faço que não com a cabeça, rapidamente.

— Encontrei meu companheiro ontem à noite! — revelo, sentindo o peso daquelas palavras ao finalmente saírem.

Os olhos dele se arregalam no mesmo instante. Ele dá um passo à frente, quase instintivo, e segura meu braço com firmeza, como se precisasse ter certeza de que estou mesmo ali.

— Como? — ele pergunta, incrédulo. — Você foi marcada… seu cheiro não existe mais!

— Eu sei… — respondo, ainda tentando entender aquilo tanto quanto ele. — Mas, de alguma forma, ele sentiu meu cheiro. — faço uma pequena pausa, sentindo meu coração acelerar ao lembrar. — E eu vou encontrar com ele hoje… explicar o porquê estou marcada!

Joseph balança a cabeça lentamente, como se aquilo desafiasse tudo o que ele conhece.

— Isso é arriscado… — ele diz, a voz mais baixa agora, mais séria. — Se Eros cogitar a ideia de você estar com alguém… ele vai te matar!

Sinto um arrepio percorrer minha espinha, mas ainda assim sustento o olhar.

— Ele não vai descobrir! — digo, mesmo sabendo que estou apostando alto demais.

Joseph me encara por alguns segundos, como se quisesse dizer mais… como se quisesse me impedir. Mas não o faz.

— Toma cuidado, Lilian. — ele fala, a voz carregada de algo mais profundo agora. — Eu vou cuidar de você até a minha morte… mas não consigo te proteger de tudo!

Aquelas palavras me atingem de uma forma diferente.

Dou um passo à frente e o abraço forte, envolvendo-o com os braços, buscando naquele gesto um pouco de segurança, um pouco de força. Ele retribui sem hesitar, me apertando de volta com firmeza.

— Obrigada por tudo! — digo, a voz baixa contra ele.

Nos afastamos, e ele me encara novamente, agora ainda mais sério.

— Não deixe que ele te beije… — Joseph diz, cada palavra sendo dita com cuidado. — ou te marque. E, muito menos… não tenha relação alguma. — ele reforça, o olhar duro. — Se houver qualquer resquício do cheiro de outro lobo em você… é o fim da linha!

Engulo em seco, sentindo o peso do aviso.

Aceno com a cabeça, em silêncio.

E então… saio do castelo.

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