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Azara Ashthorne - Caçada à luz da lua

O frio da madrugada cortava minha pele como lâminas invisíveis quando nos reunimos na clareira antes da caçada. O cheiro de terra úmida e pinho dominava o ar, impregnando meus pulmões a cada respiração. Acima de nós, a lua cheia pairava imponente no céu — um olho antigo e atento, observando cada passo, cada fôlego.

A adrenalina pulsava entre os caçadores, vibrando no silêncio tenso como uma corda prestes a arrebentar. Ethan, meu irmão, afiava a lâmina com um sorriso presunçoso, convicto de que hoje venceria nossa aposta. Meu pai, rígido como sempre, distribuía as últimas instruções enquanto minha mãe passava por cada um, inspecionando as armas, verificando se tudo estava em perfeito estado. A cena poderia ser de qualquer outra missão… mas não era.

Tudo parecia igual. Mas, para mim, algo estava errado.

Desde que acordei, um peso estranho pressionava meu peito, como se um nó invisível me puxasse para baixo. Havia uma inquietação sussurrando no fundo da minha mente, como um aviso que eu não conseguia decifrar. Um sentimento que dizia, com uma voz silenciosa: algo vai acontecer… e você não poderá impedir.

— Azara, está pronta? — A voz grave do meu pai soou mais como uma ordem do que como uma pergunta.

— Sempre. — Respondi no automático, apertando os dedos ao redor da adaga.

Ele apenas assentiu e se voltou para o grupo.

— Lembrem-se, os lobos de Lapéria não são presas fáceis. São mais ágeis, mais inteligentes. Cacem rápido, matem rápido. Não deem a eles a chance de atacar primeiro.

Os outros murmuraram concordância. Eu apenas fiquei em silêncio.

Lá no fundo, uma parte de mim queria virar as costas e ir embora.

Sacudi a cabeça, tentando expulsar esse pensamento. Medo não tem lugar entre os Ashthorne.

Seguimos floresta adentro, movendo-nos como sombras entre árvores retorcidas. As folhas secas se quebravam sob nossas botas, um som abafado misturado ao sussurro do vento cortante. Cada músculo do meu corpo estava tenso, pronto para reagir a qualquer sinal.

O cheiro da mata era forte, úmido, carregado. As árvores antigas projetavam sombras distorcidas no chão, criando figuras que pareciam se mover quando olhadas de relance. O farfalhar leve das copas se misturava com meu próprio coração acelerado.

Então, o primeiro uivo cortou a madrugada.

Longo. Profundo. Ancestral.

Era um aviso.

Um arrepio percorreu minha espinha e prendeu minha respiração. Ao meu redor, os caçadores se prepararam para o ataque, mas meus pés ficaram presos ao chão por um instante. O som não me causou apenas alerta — ele mexeu comigo de um jeito… íntimo. Familiar.

Antes que eu pudesse entender, um segundo uivo ecoou na distância. Depois, um terceiro. As notas se entrelaçaram no ar gelado, criando uma melodia que parecia conversar com algo que eu não sabia que existia dentro de mim.

A floresta estava viva.

E não éramos os únicos caçadores naquela noite.

O silêncio que veio depois era mais sufocante que a própria batalha.

Meu pai ergueu um punho fechado, sinal de que devíamos aguardar. Permanecemos imóveis, armas erguidas, os olhos varrendo a escuridão entre os troncos. O ar ficou mais denso, como se até as árvores prendessem a respiração.

Então, o mundo explodiu.

Um rosnado baixo, profundo, rasgou o silêncio. Uma sombra surgiu do nada, veloz como um raio. O primeiro lobo atacou. Atingiu um dos nossos com força brutal, derrubando-o antes que alguém pudesse reagir. O grito do caçador se misturou ao som nauseante de ossos quebrando.

— AGORA! — A voz do meu pai soou como um disparo.

A clareira se tornou um campo de guerra. Flechas cortavam o ar, lâminas refletiam a luz prateada da lua, e lobos emergiam das sombras como pesadelos com carne e sangue. Eles não eram monstros irracionais — eram caçadores também, rápidos, coordenados, mortais.

Meu corpo reagia antes mesmo da minha mente. Esquivei-me de um ataque, rolei pelo chão coberto de folhas e já estava de pé, adaga em punho, girando para a próxima investida.

Ele veio na minha direção. Um lobo de porte imponente, o pelo cinza-escuro quase negro, os olhos dourados brilhando com algo que parecia… consciência. Avançou, as garras buscando minha carne. Saltei para o lado no último instante, sentindo o ar quente de sua respiração passar rente ao meu rosto.

Meu punhal brilhou sob a lua quando avancei contra ele. O metal encontrou carne. O lobo recuou, soltando um uivo dolorido que reverberou dentro de mim mais do que deveria. Por um segundo, nossos olhares se prenderam. Não havia ódio ali… havia outra coisa. Algo que me fez hesitar.

E então, ele se virou e sumiu entre as árvores.

O caos da batalha continuava ao meu redor, mas minha mente estava longe. Meus dedos tremiam, não de medo, mas de algo que eu não conseguia explicar. Eu deveria sentir a satisfação de ter ferido um inimigo. Mas não sentia.

Pela primeira vez na vida, matar um lobo não pareceu certo.

E essa sensação me assustou mais do que qualquer garra ou presa.

No meio da matilha, um deles se destacava. Não pela força, mas pela fragilidade. Era menor, desajeitado, seus movimentos inseguros. Os olhos arregalados refletiam puro pânico. Um beta novato. Provavelmente recém-transformado. Ele não queria estar ali.

Enquanto os outros atacavam, ele recuava, o peito arfando rápido. Percebeu tarde demais que estava sozinho. E, num impulso instintivo, virou-se para fugir para a escuridão da floresta.

— Azara, vá atrás dele! — A voz do meu pai cortou o caos como uma lâmina.

Meu corpo ficou imóvel. Meus olhos encontraram os do jovem lobo, que hesitou antes de dar um passo para trás. Ele sabia. Sabia que, se eu fosse atrás dele, não haveria volta.

— O quê? Ele é só um filhote! — As palavras escaparam antes que eu pudesse impedi-las.

Mesmo com o rugido da batalha, o silêncio entre nós pareceu ensurdecedor. Meu pai se virou lentamente para mim, seu olhar carregado de gelo e desaprovação.

— Filhotes também crescem… e matam humanos. — Sua voz não tinha espaço para compaixão. — Não me desobedeça, Azara. Só volte quando tiver a cabeça dele nas mãos.

Meu coração acelerou.

De repente, a floresta pareceu se fechar ao meu redor. As sombras se alongaram, o ar ficou mais pesado, e por um breve instante, tive a estranha certeza de que… não era o lobo que estava sendo caçado.

Era eu.

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