Capítulo 3
Eu apertei o braço que ainda estava sangrando e fiquei olhando para ele em silêncio.

A minha visão foi ficando embaçada, como se eu estivesse vendo, de novo, o menino de cinco anos atrás, encolhido num canto, chorando e chamando pela mãe. Fui eu que usei os meus pincéis para animar aquele menino. Segurei a mãozinha dele e ensinei ele a fazer o primeiro desenho da vida dele.

Ele tinha dito:

— Tia, eu gosto de desenhar! Eu gosto de você.

Eu tinha acreditado que seria capaz de cuidar bem dele, que um dia ele iria aprender a gostar de mim. No fim, tudo não passava de ilusão minha.

Eu estendi a mão na direção dele e, ignorando o olhar desconfiado que ele me lançou, ajeitei a gola da camisa dele:

— Você cresceu. A partir de agora, você precisa cuidar bem de você mesmo.

Danilo me olhou, surpreso. O garoto que sempre parecia cheio de espinhos, pronto para atacar, de repente pareceu um pouco inquieto, até inseguro.

Antes que ele respondesse, a voz de Felipe veio do corredor:

— Danilo, já deu a sua hora de dormir.

Danilo resmungou:

— Eu achei que você ia me bater.

Então entendi que Felipe tinha estado ali por perto o tempo todo.

Não era a primeira vez que Danilo me prejudicava. Mesmo quando eu era mansa, quando recuava, ele sempre dava um jeito de fazer Felipe me castigar.

No início, eu tinha culpado a falta da mãe. Eu achava que ele, por ter crescido sem ela, era sensível demais, possessivo demais, que estava só protegendo o próprio território.

Mas, vendo a reação de Felipe hoje, eu finalmente entendi que todas aquelas armadilhas contra mim tinham sido calculadas pelo próprio Danilo, mesmo tão novo. E Felipe sabia de tudo desde sempre.

Ele, para agradar o filho, simplesmente escolhia fechar os olhos.

Depois que os dois saíram, eu comecei a juntar as minhas coisas. Não havia muito o que levar, só uma pequena mala. Eu já tinha comprado a passagem de avião para dali a três dias e tinha contratado um advogado para cuidar dos papéis do divórcio por mim.

Eu tinha pensado que conseguiria passar esses três dias em paz. Mas, no dia seguinte, apareceu alguém que eu nunca teria imaginado ver ali.

— Mãe.

A minha voz saiu um pouco rouca.

Na minha lembrança, ela sempre tinha sido uma mulher dura, de poucas gentilezas.

Quando eu era criança, ela vivia dizendo que eu só servia para ser peso morto dentro de casa. Dizia que tinha esperado tantos anos por um filho e, quando finalmente conseguiu engravidar, deu à luz outra menina. Dizia que, se a família não tivesse um filho homem para herdar os negócios e continuar o sobrenome, um dia tudo ia acabar, e que a culpa seria toda minha.

Quando eu ainda era pequena, os meus pais me mandaram para o interior, bem longe. Eu só voltei para casa aos dezoito anos.

Depois que a minha irmã se casou com Felipe, a minha vida finalmente começou a ficar um pouco menos dura. Pena que essa fase não durou muito.

Eu e a minha mãe estávamos sentadas uma de frente para a outra quando ela falou, sem me poupar:

— Você quer se divorciar do Felipe? Você enlouqueceu? Depois de divorciada, quem é que vai querer uma mulher como você? Felipe deixa você ficar aqui por causa da sua irmã! Você ainda não aprendeu a ser grata!

Ela continuou, sem dar espaço para resposta:

— E, além do mais, se você simplesmente for embora agora, como é que vai ficar o Danilo? A sua irmã morreu logo depois de colocar esse menino no mundo. Você não tem medo de ver ele ser maltratado por outra pessoa no futuro? Eu acho que você devia era tratar de agradar o Felipe. Se ele estiver bem com você, todos nós vamos estar bem.

A voz estridente dela parecia um punhado de agulhas entrando no meu ouvido. O meu olhar acabou se fixando na foto pendurada bem acima da escada. Era a foto de casamento da minha irmã com Felipe.

Na foto, a minha irmã estava sorrindo, mas havia um traço de preocupação preso entre as sobrancelhas. Felipe a abraçava de forma distante, com uma expressão difícil de ler, mas com uma suavidade no rosto que eu nunca tinha visto ao vivo.

Ele não soube valorizar quando ela estava viva. Só depois da morte da minha irmã é que ela se tornou o grande arrependimento da vida dele. O que antes tinha sido motivo de implicância virou saudade. O que parecia comum, de repente, se tornou único.

Mas meus pais nunca iam entender isso.

Eu esperei a minha mãe terminar de despejar tudo o que queria dizer e só então falei:

— Nós tínhamos combinado. Nesses cinco anos, eu cuidaria do Danilo até ele crescer e, em troca, vocês manteriam a parceria com o Grupo Tavares. Eu já paguei o que eu devia para vocês.

Ela me encarou com ódio:

— Já pagou? Você é minha filha! Você tem o meu sangue! Você só gastou cinco anos da sua juventude, e acha mesmo que isso quita a sua dívida?

Ela jogou um maço de fotos na minha frente, com força.

Nas fotos, aparecia Felipe. Em uma delas, ele estava de mãos dadas com uma mulher desconhecida, levando Danilo para um parque de diversões. Os três juntos pareciam uma família perfeita.

Em outra, Felipe abraçava uma mulher quase sem roupa, os dois ficando tão próximos. Em várias outras fotos, havia mulheres diferentes ao lado dele.

A minha mãe olhou bem para mim e disse:

— Felipe nunca teve falta de mulher. Mas a que ficou mais tempo ao lado dele foi você! Você é uma exceção. Enquanto você souber agradar os dois…

O som de sapatos de couro roçando no piso interrompeu a fala dela. Na mesma hora, ela se endireitou na cadeira.

Na porta, Felipe estava parado, segurando uma sacola de papel, cheia de materiais de pintura. Ele nos encarava com o rosto completamente impassível.

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