O hálito quente de Felipe batia no meu rosto, e, por um instante de distração, eu cheguei a enxergar um traço de ternura nos olhos dele.
Felipe era um homem muito bonito, do tipo que chamava atenção por onde passava. Eu também já tinha me sentido atraída por ele um dia, mas aquele encantamento tinha passado rápido, como vento.
Ele se inclinou, tentando me beijar, e virei o rosto para fugir.
Felipe já ia perder a paciência quando falei primeiro:
— Sr. Felipe, quero ir embora.
O clima no quarto pareceu ficar mais pesado. Ele franziu a testa para mim:
— Ir embora? Você quer ir para onde?
Respondi em um tom dócil, controlado:
— O prazo de cinco anos acabou, e o Danilo já consegue se virar sozinho. Está na hora de eu deixar a família Tavares.
Felipe ficou em silêncio por um segundo. O olhar dele desceu para os meus hematomas, e ele soltou um sorriso frio:
— Você está com raiva do Danilo? Ele só tem oito anos. Você precisa mesmo se apegar a uma coisinha dessas?
Ele continuou, com um tom de quem estivesse me fazendo um favor:
— Chega. Ele afinal é seu sobrinho de sangue. O que você quer? Assinar mais um contrato de casamento por mais dez anos?
Eu balancei a cabeça:
— Eu não quero nada. O Danilo me odeia, e você também não gosta de mim. Em vez de deixar todo mundo infeliz, é melhor a gente assinar o divórcio. Vai ser melhor para todos nós.
Felipe pareceu sinceramente surpreso por um instante, como se não tivesse imaginado que eu diria isso. Segundos depois, ele soltou uma risada de desdém:
— E fora da família Tavares você tem o quê? A família Castro vai abrir os braços para você de volta? Giovana, pensa direito. Se você aceitar se comportar direitinho, não me importo de deixar você ser Sra. Tavares por mais dez anos. O que aconteceu hoje foi culpa do Danilo, eu vou conversar com ele.
O clima de antes, carregado de insinuações, se desfez por completo. Ele perdeu o interesse, virou as costas e saiu sem a menor hesitação.
Eu comecei a contar os dias. Faltavam só três. Em três dias, eu finalmente poderia ir embora.
Com o corpo pesado de cansaço, empurrei a porta do quarto e, assim que entrei, travei no lugar. O que antes era um cômodo limpo e organizado tinha sido destruído como se tivesse passado um furacão.
O meu cavalete estava caído no chão, as telas que eu tinha terminado estavam rasgadas em pedaços, e até as tintas e os pincéis tinham sido todos estragados.
Nesses cinco anos, eu tinha engolido o sarcasmo de todo mundo e vivido de forma humilde, quase invisível.
Só quando eu voltava para o meu quarto e olhava para aqueles materiais de pintura que eu mesma tinha trazido é que eu lembrava que eu ainda estava viva de verdade.
Agora, todo o meu esforço e os poucos pedaços de mundo que ainda eram meus tinham sido destruídos.
Senti uma fisgada forte no braço. Eu virei a cabeça e vi Danilo na minha frente, segurando um estilete, me observando com um sorriso divertido.
Ele riu e disse:
— Sua idiota, você quer roubar o amor do meu pai pela minha mãe, então vou destruir tudo o que você gosta!