Mundo de ficçãoIniciar sessãoFernanda Vasques
A chuva caía com vontade. Daquelas que parece que Deus tá chorando junto com você ou te jogando um balde na cara pra ver se acorda.
Eu atravessava a calçada com duas caixas empilhadas nos braços e a alma do lado de fora do corpo. O cabelo grudado na cara, a maquiagem escorrida e uma vontade absurda de gritar no meio da rua: "VOCÊ VENCEU, UNIVERSO!"
Mas me contive.
Segurei as lágrimas, o grito e a dignidade — o que restava dela.— Eu juro, Clara... — falei no telefone, equilibrando a caixa com o ombro. — Peguei os dois no flagra! ELE, pelado! E ELA, com meu robe preferido. Aquele que só uso quando tô me sentindo sexy e poderosa!
— O quê?! — gritou minha melhor amiga do outro lado. — Fernanda, eu vou MATAR esse desgraçado!
— E não bastasse isso, ainda fui demitida, acredita? "Cortes na empresa", eles disseram. Ah, claro! Cortes bem no meu pescoço, né?! Eu fiquei noites virando matéria, entregando conteúdo de última hora, passando café pra redação inteira. E agora... tchau e bênção!
A raiva me cegava. Ou melhor, me ensurdec...
— AAAAAH! — gritei quando um carro freou de repente e meu corpo foi gentilmente empurrado para cima do capô. As caixas voaram, os papéis se espalharam na calçada e eu, minha filha... fui.
Literalmente.
Fui lançada como protagonista de comercial de sabão em pó.
— MEU DEUS, VOCÊ TÁ BEM?! — ouvi a voz grave e desesperada vindo de um homem que corria na minha direção.
Levantei a cabeça devagar e... pronto.
Meu ódio pelos homens deu uma pausa de cinco segundos.
Ele era moreno, alto, barba impecável, braços fortes, maxilar afiado e olhos que pareciam saber de todos os seus segredos mais sujos.
E aquele sorriso? Meu pai amado... se ele me oferecesse o inferno de presente, eu perguntava só se vinha com laço.— Tô ótima. Só queria morrer com mais glamour — murmurei, tentando ajeitar a blusa que grudava no peito como segunda pele.
— Foi sem querer. Eu me distraí com a chuva. Quer que eu te leve pra um hospital?
— Hospital? Eu já tô morta por dentro, querido. Só preciso de uma pizza e de um tapa na cara do destino.
Ele deu uma risada baixa, sacana. Como se já tivesse entendido o nível da minha insanidade.
— Você é meio maluca?
— E você é cego? Olha o tamanho da minha bunda e me diz como não viu ela no meio da rua!
— Achei que era miragem.
Filho da...
Me levantei com a pouca dignidade que ainda restava enfiada entre as páginas das minhas matérias impressas, olhei pra ele como quem olha pra um demônio bonito demais, e fui embora. Molhada. Furiosa. E, infelizmente, estranhamente quente por dentro.
Cheguei no prédio bufando. O porteiro me olhou como se tivesse visto uma alma penada.
— Tá tudo bem, dona Fernanda?
— Não. Nada. Nem um milímetro da minha existência está bem, Seu Jorge.
— Quer ajuda com a caixa? — Só se o senhor puder também remover minha autoestima do asfalto.Subi.
Aquela cobertura era maravilhosa demais pra ser minha. E de fato não era. Era da minha tia rica, Regina, que estava passando um mês na Itália com o novo noivo — um cirurgião plástico com cara de quem cobrava até pra dar bom-dia.Ela me deixou ali pra cuidar do apartamento e do maltês dela, o Banguela. Sim, o nome do cachorro é Banguela. E sim, ele tem todos os dentes.
Larguei a caixa no chão da sala, me joguei no sofá e encarei o teto.
Foi ali, naquela cobertura temporária, que eu flagrei o idiota do meu ex transando com a minha prima. NA MINHA CAMA. COM O MEU VINHO.
— Eu odeio os homens. — falei alto pro universo ouvir. — TODOS. Um bando de idiotas, egoístas e... gostosos! Porque o que me atropelou era uma obra-prima. Isso devia ser crime.
Respirei fundo, molhada, fedendo a asfalto, coração partido e com o cabelo parecendo miojo molhado.
— Mas tudo bem. Amanhã é um novo dia... — levantei o dedo pro céu —... e se o universo tentar me ferrar de novo, EU VOU METER O PÉ NA CARA DELE.Mal sabia eu, que o universo já tava rindo da minha cara.
E o pecado sobre rodas que me atropelou... Tava prestes a virar meu vizinho.






