Mundo ficciónIniciar sesiónPOV: MARI
O e-mail estava mofando na minha caixa de entrada há quatro dias. Eu sabia o assunto de cor. Proposta de Parceria — Beatriz Moran. Já tinha lido a notificação pelo celular umas dez vezes sem abrir, usando aquela desculpa clássica de quem finge que está apenas ocupada demais para lidar com caixa de entrada. Mentira. Meu estômago embrulhava só de olhar para a tela. Eu não estava sem tempo. Eu estava apavorada com a chance real de ler e não conseguir dizer não. Abri o arquivo na terça-feira de manhã, antes de a Tati chegar. O café preto esfriando do lado do mouse. O notebook no colo, tentando manter a postura de quem estava só checando um orçamento qualquer. Não era um orçamento qualquer. Beatriz Moran comandava um fundo de venture capital focado exclusivamente em marcas femininas. Eu tinha esbarrado no nome dela uns meses atrás, trocado meia dúzia de palavras num evento corporativo e jogado a mulher na gaveta mental do "quem sabe um dia". O dia tinha acabado de chutar a minha porta. O texto era direto, corporativo e assustador: Aporte inicial de dois milhões de reais. Expansão para duas praças novas no Sudeste em seis meses. Aumento do time de três para quinze pessoas. Reposicionamento nacional da marca. Eu continuava como sócia majoritária e diretora criativa. A Beatriz entrava com a grana e uma cadeira no conselho, com direito a voto nas decisões grandes. Li uma vez. Apertei os olhos e fechei a tampa do notebook. Respirei fundo, o ar preso na garganta. Abri de novo. Reli o parágrafo que falava sobre "potencial de referência nacional" três vezes, como se a tela fosse piscar e me dizer que era pegadinha. Não era. Era a minha agência. O negócio que eu comecei sozinha, suando sangue numa sala menor que a minha cozinha atual, prestes a virar um monstro. Maior. Mais forte. Mais minha e, ao mesmo tempo, menos minha. Porque sócio é sócio. Dinheiro de fundo de investimento não é abraço de mãe; eles cobram, eles mandam, eles mudam o ritmo de tudo. Bati a tampa do notebook outra vez. O estalo seco ecoou na sala vazia. A porta abriu. Tati entrou feito um furacão, jogando a jaqueta na cadeira dela. Ela parou. Nem tinha chegado na própria mesa ainda. Me olhou de cima a baixo. — Sua cara tá péssima. O que aconteceu? — Nada. — Não fode, Mari. Você tá branca. Eu não tinha saliva pra explicar. Apenas girei o notebook na direção dela e abri a tela. Tati puxou a cadeira, sentou e começou a ler. O olho dela foi descendo pela tela. Parou. Voltou pro topo. Ela inclinou o corpo pra frente, os dedos travados na beirada da mesa. — Cacete. — Eu sei. — Dois milhões. Quinze pessoas. — Eu sei, Tati. Ela empurrou o notebook de volta pra mim, devagar. A expressão sempre debochada dela tinha sumido. Tati tava calculando, processando o peso daquela granada sem o pino. — Você vai contar pra ele? — Ela foi direto no ponto que eu estava evitando. Abri a boca pra responder. Nenhuma palavra saiu. Apertei a alça da caneca de cerâmica até meus nós dos dedos ficarem brancos. — Preciso pensar primeiro. Tati piscou, absorvendo o golpe. Ela não falou do e-mail. Ela não comentou o dinheiro. Ela apenas registrou a minha frase. Preciso pensar primeiro. Eu nunca falava isso. Meu modus operandi era decidir no instinto, bater no peito e resolver o estrago depois. Foi assim que eu sobrevivi em São Paulo. Duvidar custava tempo, e eu nunca tive tempo de sobra. Até agora. Ela não me cobrou. Apenas concordou com a cabeça e ligou o próprio computador. A noite caiu arrastada. O apartamento estava no escuro, iluminado só pela TV no mudo e pelas telas dos nossos notebooks. Eu estava encolhida num canto do sofá. Gabriel estava na outra ponta. O joelho dele encostava na minha coxa, quente, sólido. A rotina de sempre. Dois adultos trabalhando na mesma sala, dividindo o mesmo espaço e o barulho da cidade lá fora. Só que o oxigênio estava denso. Pesado. Olhei pra ele de relance por cima da borda da tela. Gabriel estava digitando, mas os ombros largos sob a camiseta cinza estavam tensos. Rígidos. O maxilar dele marcou sob a pele, aquela contração involuntária de quando o cérebro dele não conseguia resolver um problema de imediato. O toque do joelho dele na minha perna, que geralmente me acalmava, hoje parecia queimar. Eu quis perguntar. A ponta da minha língua formou a frase: O que foi? Engoli seco. Não perguntei. Porque se eu abrisse espaço pra ele falar, ia ter que falar também. Dois segundos depois, vi os olhos dele desviarem da tela pro meu rosto. Uma olhada rápida. Ele parou de digitar. O peito dele subiu devagar, uma respiração controlada. Ele tava decidindo se abria a boca. Ele não abriu. Ficamos ali. No mesmo sofá, colados um no outro, cada um escondendo um segredo que mudaria completamente o mapa da nossa vida. Estávamos fingindo que aquela era uma quinta-feira normal, quando, na verdade, era uma panela de pressão prestes a estourar, e nenhum dos dois tinha coragem de ser o primeiro a puxar o pino. O relógio digital do micro-ondas marcou dez e meia. Gabriel parou. As mãos dele saíram do teclado. Ele fechou a tampa do Mac com um baque definitivo, que fez meu coração dar um solavanco estúpido no peito. Ele virou o corpo na minha direção. O olhar escuro, insondável. — Preciso te falar uma coisa — a voz dele saiu baixa, rouca e carregada de uma urgência que me arrepiou a nuca. Fechei a minha tela. Encarei ele direto. Minha boca secou de vez, mas eu não desviei o olhar. — Eu também. Nota da Autora:Eu tô SURTANDO junto com eles no sofá! 🗣️🔥






