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(Ponto de Vista Dele)
A maioria das pessoas acorda e deixa o dia acontecer. Elas acreditam em sorte, em destino, em coincidências. Coitadas. O destino é uma força preguiçosa; se você quer que algo saia perfeito, você mesmo precisa desenhar a realidade.
E eu passei os últimos dois meses desenhando a minha. Mais especificamente, desenhando o dia de hoje.
Eram 07:42 da manhã quando estacionei a duas quadras do prédio dela. O sol já estava forte, o trânsito da cidade começava a virar aquele inferno barulhento de sempre. No banco do passageiro, havia um copo térmico com o café exatamente do jeito que ela gosta: duplo, com um toque de canela e quase nada de açúcar. Eu sabia disso porque prestei atenção nas últimas três semanas, observando-a na cafeteria perto do trabalho. Ela acha que eu nunca a vi. Mal sabe ela que eu vejo tudo.
Às 07:50, o celular no meu painel vibrou com o alerta do aplicativo de rastreamento que instalei no celular dela na semana passada, enquanto ela pegava as chaves na bolsa na balada. Ela estava saindo do elevador.
Cortei o motor do carro e esperei. Três minutos depois, ela cruzou a portaria. Estava linda, com aquele terno cinza que ressalta a postura imponente dela, o cabelo preso em um coque firme. Ela andava rápido, checando o relógio de pulso. Estava atrasada. Perfeito. Tudo conforme o combinado.
Ela apertou o controle do alarme do carro dela. As luzes piscaram. Ela puxou a maçaneta, entrou e deu a partida. Eu conseguia prever cada movimento.
Um segundo. Dois segundos. Três segundos.
A porta do motorista se abriu num solavanco. Ela saiu do carro, os ombros caídos, e andou até a parte traseira. Olhou para o pneu traseiro direito. Completamente murcho.
Eu sorri no escuro do meu carro, passando o polegar pelo canivete tático que estava no meu bolso. Eu tinha feito aquilo às quatro da madrugada, com o maior cuidado do mundo para que o ar saísse devagar, garantindo que ela só percebesse na hora de sair. Não era maldade. O carro dela estava com a pastilha de freio gasta, eu tinha visto dias atrás. Ela podia sofrer um acidente naquela avenida perigosa. Eu só estava protegendo a minha garota de si mesma. Eu era o escudo dela, ela só não sabia ainda.
Vi quando ela pegou o celular, irritada, provavelmente tentando abrir um aplicativo de corrida. Era a minha deixa.
Liguei o motor, engatei a marcha e saí da vaga. Dirigi calmamente até a frente do condomínio dela. Diminuí a velocidade bem na frente de onde ela estava, com o rosto franzido de frustração na calçada.
Abri o vidro do passageiro. O calor da rua invadiu o ar-condicionado do meu carro.
— Problemas com o pneu? — perguntei, deixando um sorriso simpático e levemente preocupado surgir no meu rosto. Eu treinei esse sorriso no espelho por dez minutos hoje de manhã. Estava impecável. O tom de voz exato de um bom samaritano.
Ela olhou para mim, surpresa, piscando os olhos castanhos que me assombravam há meses.
O esbarrão perfeito. A mentira perfeita. Nossa história estava oficialmente começando.







