Mundo de ficçãoIniciar sessão
A noite havia se instalado lentamente sobre a alcateia, como um manto silencioso envolvendo cada cabana, cada trilha e cada sentinela em descanso.
O vento soprava suave entre as árvores altas, carregando o cheiro da terra úmida e das fogueiras que já se apagavam. Ao longe, o uivo ocasional de um lobo ecoava apenas para confirmar aquilo que todos sabiam: o território estava seguro. A alcateia dormia. Mas seu Alpha não. Rennan caminhava sozinho pela borda do território, onde a floresta se tornava mais densa e o cheiro dos seus lobos começava a desaparecer. Era ali que ele gostava de ficar quando precisava pensar — longe das responsabilidades, longe das vozes, longe das expectativas que vinham com o título que carregava desde tão jovem. Ser Alpha significava nunca demonstrar fraqueza. Nunca hesitar. Nunca duvidar. E ainda assim… naquela noite, ele duvidava. A lua cheia pairava alta no céu, iluminando a floresta com um brilho prateado intenso. Rennan ergueu o olhar para ela, sentindo o peso familiar no peito. Todos já haviam encontrado seus companheiros. Um a um. Guerreiros. Caçadores. Até os mais jovens da alcateia já tinham reconhecido seus vínculos destinados. Ele havia conduzido cerimônias, protegido casais recém-unidos, testemunhado o brilho nos olhos daqueles que encontravam a própria metade. E sempre acreditou que o mesmo aconteceria com ele. Mas os anos passaram. Vinte e cinco invernos. Nenhum sinal. Nenhum chamado. Nenhuma presença que despertasse o instinto de reconhecimento. No início, ele esperou. Depois… apenas aceitou. Kael se moveu dentro dele. O grande lobo branco despertou lentamente, seus olhos vermelhos observando através da mente do Alpha. — Você está pensando nisso novamente. Rennan soltou um suspiro baixo. — Não deveria? — Um Alpha não precisa de companheira para governar. — Talvez não. Ele passou a mão pelo tronco de uma árvore antiga, sentindo a textura áspera sob os dedos. — Mas deveria existir algo além da liderança. O silêncio respondeu primeiro. O vento soprou entre as folhas, fazendo-as dançar sob a luz da lua. Kael permaneceu quieto por alguns segundos antes de falar: — Você sente falta de algo que nunca conheceu. A verdade atingiu Rennan com força. Não era solidão. Era ausência. Como se parte de sua vida estivesse destinada a existir… mas nunca tivesse chegado. Ele fechou os olhos. Por um instante, algo atravessou seu peito. Uma sensação rápida. Leve. Quase como um sussurro distante chamando por ele. Rennan abriu os olhos imediatamente. — Sentiu isso? Kael também se ergueu. Alerta. — Sim. O Alpha girou o corpo lentamente, observando a floresta escura. Nada. Nenhum invasor. Nenhuma ameaça. Mas o ar parecia… diferente. Mais vivo. Mais atento. — Algum lobo cruzou o território? — Não. — respondeu Kael. — Mas algo mudou. Rennan permaneceu imóvel, tentando identificar o motivo daquela inquietação repentina. Era como se a própria lua tivesse se movido. Como se o destino tivesse dado o primeiro passo sem pedir permissão. Ele não sabia explicar. E odiava não entender algo dentro do próprio território. Depois de alguns minutos, a sensação diminuiu. Rennan respirou fundo. — Imaginação. Kael não concordou. — Não foi. O Alpha ignorou o comentário e começou a caminhar de volta para a alcateia. O dever sempre vinha primeiro. Mas enquanto retornava, uma certeza estranha começava a nascer dentro dele: algo havia despertado naquela noite. Algo que não era ameaça. Não era guerra. Era… mudança. E ele ainda não sabia que, em algum ponto da mesma floresta… uma renegada observava a mesma lua. Sem saber… os caminhos deles já haviam começado a se aproximar.






