Capítulo 5

"Certo, sem pressa. Primeiro vou cuidar do meu trabalho. Tenho uma entrevista esta manhã", respondeu Fiorella suavemente.

"Certo, boa sorte então, estou ocupado!"

"Ok, tchau."

Quando o elevador chegou ao primeiro andar, Fiorella acenou educadamente para Julio. Ao ver Jean Carlo, ela estremeceu repentinamente, desviou o olhar e se virou para sair.

As portas do elevador se fecharam e ele continuou a descer.

Julio olhou para o chefe ao seu lado: "Essa é a mãe do menino que se perdeu ontem."

Jean Carlo respondeu seco: "O que isso tem a ver comigo?"

Julio sentiu um arrepio percorrer a espinha e disse rapidamente: "Não, está tudo bem."

Quando o carro de Jean Carlo chegou ao quartel dos bombeiros, o antigo superior de seu irmão já o aguardava do lado de fora.

Após os dois se cumprimentarem e trocarem alguns palavras, o comandante conduziu Jean Carlo até o alojamento.

"Sr. Vans, este era o quarto de Yan. Todos os pertences dele foram organizados e estão aqui."

Ao ver as coisas do irmão, o coração forte de Jean Carlo não pôde deixar de estremecer.

"Posso ficar aqui sozinho por um momento?", pediu ele ao comandante.

"Claro." O comandante compreendeu o que ele sentia e saiu imediatamente com os demais.

Julio também se retirou em silêncio.

Jean Carlo sentou-se na beira da cama, olhando ao redor do quarto limpo e arrumado, passando a mão pela colcha dobrada com perfeição militar, os olhos marejando novamente.

Havia uma caixa sobre a mesa. Jean Carlo a pegou e abriu.

Dentro havia alguns objetos pessoais, medalhas e certificados de honra.

Ele os folheou um por um, o coração ficando cada vez mais pesado a cada página.

Ao chegar ao último documento, algo chamou sua atenção.

Jean Carlo fixou os olhos na "Notificação de Qualificação para Doação de Esperma", franzindo a testa.

Quando Yan doou esperma?

Tomado de surpresa e dúvida, ele examinou o documento atentamente e descobriu que o irmão havia se tornado doador no Banco de Esperma quatro anos atrás.

Por que ele teria feito isso?

Jean Carlo ficou perplexo, mas aquilo não era o ponto principal.

O que realmente o fez parar foi a lembrança do que Julio havia dito no dia anterior: se Estefania soubesse que tinha um neto, com certeza recuperaria a vontade de viver.

Com esse pensamento, Jean Carlo se levantou, pegou os pertences do irmão e saiu do quartel.

Já dentro do carro, ligou para um amigo.

"Jean Carlo! E aí?"

"Você está no hospital? Já vou até você."

Bernardo Fascal era um renomado especialista em reprodução em San Pedro, referência no tratamento de infertilidade.

"Oi? Você vai ter um bebê?" Bernardo exclamou, surpreso.

"Não estou com humor para brincadeiras."

Ele percebeu o tom e ficou séria: "Então por que vem até mim? O problema da dona Estefania é emocional — só você, como filho, pode estar perto dela e oferecer apoio."

"Não tem nada a ver com ela. A gente conversa quando eu chegar."

Meia hora depois, Jean Carlo chegou ao hospital onde Bernardo  trabalhava.

Quando se encontraram, ela logo notou que ele havia emagrecido muito nos últimos dias e insistiu para que cuidasse melhor de si mesmo.

Jean Carlo respondeu com poucas palavras e entregou a notificação de doação de esperma do irmão.

"Veja isso."

Bernardo leu com atenção e também ficou surpresa, mas logo entendeu.

"Nos últimos anos, a taxa de infertilidade aumentou muito em San Pedro, e tem sido feita uma campanha incentivando bombeiros e universitários a doarem. Imagino que o Yan tenha respondido a esse apelo."

"Sim, fiquei sabendo agora."

Bernardo perguntou, confuso: "Então, o que você quer dizer com isso?"

Jean Carlo franziu a testa e fez uma pausa antes de responder: "A dona Estefania está inconsolável, e a saúde dela piora a cada dia. Por mais que a gente tente, nada adianta. Mas se o Yan tivesse deixado um filho para dar continuidade à família..."

"O que você está pensando!" Bernardo  o interrompeu. "A doação de esperma segue o princípio do sigilo absoluto. Mesmo que o material ainda esteja armazenado e tenha sido utilizado, as normas proíbem investigar a identidade do doador — e muito menos contatar quem quer que seja."

"Eu sei. Mas mesmo assim quero que você verifique. Se essa criança existir, mesmo que seja só uma foto para mostrar à dona Estefania, já seria o suficiente para animá-la."

"Jean Carlo, eu entendo o que você está sentindo, mas..."

Ele não tinha paciência para rodeios. Levantou-se e perguntou diretamente: "Você me ajuda ou não? Se não, vou encontrar outro jeito."

Como advogado, não seria difícil para ele conduzir uma investigação por conta própria.

Bernardo sabia que a decisão do amigo não mudaria. Suspirou e cedeu: "Tudo bem. Eu te ajudo."

Jean Carlo se virou para sair, mas Bernardo  se lembrou de algo.

"Ah, espera! Você se lembra de quando eu era estagiário e te convenci a também doar esperma?"

A expressão de Jean Carlo congelou.

Bernardo  continuou: "O que quero dizer é — se você quer que a dona Estefania tenha um motivo para seguir em frente, por que não se apressa, casa e tem filhos? Para que toda essa trabalheira de vasculhar o banco de esperma?"

"O meu filho e o filho do Yan são coisas completamente diferentes."

"Tudo bem, entendi."

Jean Carlo saiu. Bernardo  murmurou pensativo: "Quem sabe o filho dele já não tem idade para fazer recados..."

....

Fiorella conseguiu o emprego com surpreendente facilidade.

Afinal, sua competência falava por si só.

Em meio a um grupo de candidatos, ela identificou e corrigiu uma vulnerabilidade crítica num sistema com uma agilidade muito superior à de todos os outros, arrancando elogios dos recrutadores.

Além disso, era bonita — o que a tornava ainda mais rara naquele ramo — e foi contratada na hora, com início previsto para a segunda-feira seguinte.

No caminho de volta ao hospital, Fiorella estava de bom humor.

Quis ligar para os pais para compartilhar a novidade, mas assim que pegou o celular, o sorriso congelou no rosto.

Para que contar?

Com certeza o Arnaldo diria: "A essa hora, ainda procurando emprego? Não devia estar tentando salvar o seu casamento?"

Deixou o pensamento de lado e enviou a boa notícia para a Maira no Chat.

Meia hora depois, quando já estava quase chegando ao hospital, Maira respondeu com um áudio.

"Que ótimo! Eu sabia que você ia se virar bem!"

O entusiasmo genuíno da amiga a fez sorrir.

O celular tocou — era o smartwatch do Ben.

Ela atendeu na hora: "Meu amor, a mamãe está aqui embaixo comprando o seu almoço. Já já chego aí."

Do outro lado, Ben disse confuso: "Mamãe, uma moça veio aqui e trouxe um monte de coisa pra mim."

"Uma moça?" Fiorella perguntou, intrigada.

"É. Ela falou que o sobrenome dela é Bronjin."

Bronjin? Gabriela Bronjin?

A expressão de Fiorella mudou drasticamente. Sem esperar que o atendente terminasse de embalar a comida, ela se virou e subiu as escadas correndo.

No quarto do hospital, a babá Dona Rosa estava com Ben.

Ela olhou com evidente desconforto para a jovem elegantemente vestida à sua frente, que exalava um perfume forte e enjoativo.

"Ben, a titia fez esses docinhos especialmente pra você. Experimenta, são uma delícia."

Gabriela Bronjin, com suas mãos longas e bem cuidadas, segurou um doce e o estendeu para Ben.

"Não precisa, obrigado. Mamãe disse que eu não aceito nada de estranhos." Ben desviou e recusou.

"A titia não é estranha — ela é colega dos seus pais."

Gabriela insistiu em alimentá-lo.

Mas quando ela se aproximou, o perfume forte irritou o nariz sensível do menino.

Ben sentiu um formigamento, abriu a boca e espirrou com força, espalhando tudo pelo doce.

Tia  Rosa não se conteve e deu um passo à frente: "Se a criança não quer, não force. O almoço já vai chegar."

Gabriela se virou e repreendeu com frieza: "Quem perguntou a sua opinião? Fique no seu lugar."

Ela voltou a se inclinar em direção a Ben quando a porta do quarto se abriu de repente e Fiorella entrou como um furacão.

Gabriela se virou ao ouvir os passos e abriu um sorriso calculado: "Fiorella! Que bom que você veio. Fiquei sabendo que o Ben estava internado e vim te dar apoio."

Antes que ela terminasse a frase, Fiorella arrancou o doce de sua mão, segurou sua cabeça pela nuca com a outra e enfiou o doce inteiro na boca dela.

"Hum-hum!"

Gabriela foi completamente pega de surpresa. Fechou a boca por instinto e tentou cuspir.

Tinha catarro de criança nesse doce.

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