Mundo ficciónIniciar sesión"Certo, sem pressa. Primeiro vou cuidar do meu trabalho. Tenho uma entrevista de emprego esta manhã", Fiorella respondeu com suavidade através da linha.
"Perfeito, boa sorte! Estou atolada aqui, nos falamos depois!"
"Combinado, um beijo."
Assim que o elevador de alta velocidade atingiu o térreo, as portas se abriram. Fiorella dedicou um aceno educado e grato a Júlio. No entanto, ao cruzar o olhar com a figura imponente de Jean Carlo, ela sentiu um arrepio inexplicável percorrer sua espinha. Desviando os olhos imediatamente, ela apressou o passo e saiu em direção à recepção.
As portas de aço escovado se fecharam novamente, e o elevador continuou sua descida até o subsolo.
Júlio quebrou o silêncio, observando o reflexo do patrão no metal espelhado: "Chefe... aquela é a mãe do garotinho que se perdeu ontem."
Jean Carlo sequer moveu a cabeça. Sua resposta veio seca, gélida: "E o que exatamente isso tem a ver comigo?"
O assistente sentiu o peso da advertência implícita e engoliu em seco. "Nada, senhor. Esqueça."
Quando o sedã blindado de Jean Carlo estacionou diante do pátio principal do quartel dos bombeiros de Guararema, o comandante do batalhão, antigo superior de Yan, já o aguardava na calçada. Após um cumprimento formal e poucas palavras de condolências, o oficial conduziu o empresário diretamente à ala dos alojamentos.
"Sr. Vans, este era o quarto do Yan. Todos os pertences pessoais dele foram catalogados e organizados. Estão exatamente aqui."
A visão do cômodo austero fez o peito de Jean Carlo contrair-se. "Posso ficar sozinho por alguns minutos?", ele solicitou, a voz ligeiramente embargada.
"Completamente compreensível." O comandante assentiu com respeito e retirou-se com os demais oficiais. Júlio seguiu o exemplo, fechando a porta em silêncio.
Jean Carlo caminhou até a cama estreita e sentou-se na borda do colchão. Olhou ao redor do quarto impecavelmente arrumado, passando a palma da mão pela colcha dobrada com perfeição militar. Seus olhos marejaram.
Sobre a escrivaninha de metal, repousava uma caixa organizadora. Jean Carlo a puxou e removeu a tampa. Dentro, alinhavam-se medalhas de bravura, relatórios de ocorrências e certificados de honra ao mérito. Ele os folheou um a um, sentindo o fardo da perda esmagar seus ombros.
Contudo, ao alcançar o último documento no fundo da caixa, seus movimentos travaram.
Jean Carlo fixou os olhos em um papel timbrado oficial: Notificação de Qualificação para Doação de Esperma. Ele franziu o cenho, a mente disparando em dúvidas.
Quando o Yan teria feito isso?
Examinando as letras miúdas com atenção jurídica, descobriu que o irmão caçula havia se voluntariado como doador em um banco de reprodução assistida há exatos quatro anos.
O mistério por trás da decisão de Yan era intrigante, mas não era o que importava no momento. O que realmente fez o coração de Jean Carlo acelerar foi a frase dita por Júlio no dia anterior: Se a matriarca soubesse que tem um neto... ela recuperaria a vontade de viver.
Tomado por uma súbita determinação, Jean Carlo recolheu a caixa com os pertences do irmão, deixou o quartel a passos largos e entrou no carro. Mal fechou a porta e já discou um número direto.
"Jean Carlo? Que surpresa", a voz atendeu do outro lado.
"Você está no consultório? Estou indo para aí agora."
O Dr. Bernardo Meng era um dos especialistas em reprodução humana mais renomados da região, referência absoluta em tratamentos de infertilidade de alta complexidade.
"Como? Você vai ter um filho e eu não estou sabendo?", Bernardo ironizou, tentando quebrar o gelo.
"Não estou com humor para brincadeiras, Bernardo."
O médico captou a gravidade no tom do amigo e mudou a postura imediatamente: "Tudo bem. Mas o problema da Sra. Vans é puramente emocional, Jean. O que você precisa fazer é dar apoio à sua mãe."
"Não tem a ver com a saúde dela. Nos falamos em trinta minutos."
Meia hora depois, Jean Carlo cruzava a recepção da clínica de Bernardo. Ao entrarem no consultório particular, o médico notou as olheiras profundas e a perda de peso visível do empresário. "Você precisa se cuidar, Jean. Está se esgotando."
Jean Carlo ignorou a preocupação e colocou o documento de Yan sobre a mesa. "Dê uma olhada nisso."
Bernardo ajustou os óculos, leu o relatório e ergueu as sobrancelhas em choque, embora a lógica médica logo tenha feito sentido em sua mente. "Nos últimos anos, houve um declínio severo nas taxas de fertilidade na região. O governo fez uma campanha pesada incentivando bombeiros, policiais e universitários saudáveis a doarem. O Yan deve ter respondido ao chamado."
"Sim. Eu não fazia ideia." Jean Carlo inclinou-se para a frente, o olhar fixo no amigo. "Minha mãe está definhando por causa do luto. Nada do que fazemos funciona. Mas se o Yan tiver deixado um herdeiro... se houver uma continuação do sangue dele neste mundo..."
"Jean Carlo, tire essa ideia da cabeça!", Bernardo o interrompeu de forma enfática. "Os bancos de doação de sêmen operam sob a lei do sigilo absoluto. Mesmo que o material do Yan tenha sido utilizado e gerado uma vida, as normas éticas e jurídicas proíbem terminantemente revelar a identidade da família receptora. É um beco sem saída."
"Eu conheço as leis, Bernardo. Mas exijo que você verifique. Se essa criança existir, mesmo que eu consiga apenas uma fotografia para mostrar à minha mãe, já será o suficiente para salvá-la."
"Eu entendo o seu desespero, mas eu estaria arriscando minha licença...", Bernardo começou a recuar.
Jean Carlo levantou-se, abotoando o paletó com uma frieza cirúrgica. "Você vai me ajudar por dentro do sistema ou vou precisar usar meus próprios recursos como advogado para abrir uma investigação judicial? Se eu começar a vasculhar, vai fazer muito mais barulho."
Bernardo suspirou, derrotado pela obstinação do bilionário. "Tudo bem, tudo bem. Vou ver o que consigo puxar nos registros confidenciais."
Jean Carlo girou nos calcanhares para sair, mas a voz de Bernardo o deteve na porta.
"Ah, e Jean? Só para constar... você se lembra de quando estávamos na faculdade e eu te convenci a assinar aquela ficha de doador também, como um trote de veterano?"
A expressão de Jean Carlo congelou por uma fração de segundo.
Bernardo soltou um riso anasalado. "O que quero dizer é: se você quer tanto dar um neto para a Sra. Vans para fazê-la reagir, por que não se casa de uma vez e tem seus próprios filhos? Para que toda essa obsessão em revirar o banco de dados do seu irmão?"
"Um filho meu e um herdeiro do Yan são coisas completamente diferentes para a minha mãe", Jean Carlo respondeu, a voz ríspida, antes de desaparecer pelo corredor.
No consultório, Bernardo balançou a cabeça, sorrindo de canto. "Quem sabe... o seu próprio filho por aí já não tem idade até para ir à padaria sozinho e você nem sabe..."
A entrevista de emprego de Fiorella foi um sucesso incontestável. No ramo da tecnologia, sua competência falava mais alto do que qualquer indicação. Em uma dinâmica prática com dezenas de candidatos, bastaram dez minutos para que ela identificasse e corrigisse uma falha crítica de segurança no software da empresa — exibindo uma agilidade e um raciocínio lógico anos-luz à frente dos concorrentes.
Aliando seu intelecto brilhante a uma beleza sofisticada e rara na área de programação, os diretores a contrataram no ato. O início estava agendado para a segunda-feira seguinte.
No caminho de volta ao hospital, o alívio clareou o semblante de Fiorella. Tomada pelo impulso de compartilhar a vitória, ela pegou o celular para ligar para os pais, mas o sorriso murchou antes que ela pudesse discar.
Para que contar? Com certeza, o Sr. Arnaldo dispararia: "Enquanto o seu casamento está desmoronando, você perde tempo procurando emprego? Devia estar implorando o perdão do seu marido."
Engolindo a amargura, ela guardou o telefone e enviou a novidade para o b**e-papo de Maira. Meia hora depois, quando já se aproximava do hospital, a amiga respondeu com uma mensagem de voz vibrante:
"Eu sabia! Você é uma mente brilhante, Fiore! Eles teriam que ser muito estúpidos para não te contratarem!"
O entusiasmo genuíno de Maira devolveu o íveto a Fiorella. De repente, o smartwatch em seu pulso começou a apitar — era a linha direta do quarto do Ben.
Ela atendeu prontamente: "Oi, meu amor! A mamãe já está aqui embaixo comprando o seu almoço. Subo em dois minutos."
A voz do pequeno Ben veio confusa e hesitante através do alto-falante: "Mamãe... uma moça estranha entrou no meu quarto. Ela trouxe um monte de caixas e brinquedos para mim."
"Uma moça?", Fiorella franziu o cenho, o instinto materno entrando em alerta máximo. "Quem é ela, Ben?"
"Ela disse que o sobrenome dela é Bronjin."
Bronjin. Gabriela Bronjin.
O mundo de Fiorella girou em uma fração de segundo. Uma fúria cega e avassaladora tomou conta de seu corpo. Sem esperar que o atendente terminasse de embalar sua refeição, ela largou o dinheiro no balcão, girou nos calcanhares e disparou em direção às escadas do hospital, subindo os degraus de três em três.
No quarto da internação, a atmosfera estava saturada de tensão. A Sra. Rosa, babá de confiança, mantinha-se postada estrategicamente entre a cama de Ben e a mulher elegantemente vestida que exalava um perfume doce, forte e sufocante.
"Ben, meu querido, a titia preparou esses docinhos finos especialmente para você. Experimente um, é uma delícia", Gabriela Bronjin insistia, exibindo mãos longas, impecavelmente manicuradas, enquanto estendia um doce de confeitaria em direção ao menino.
"Não, obrigado. Minha mamãe me ensinou que eu não devo aceitar comida de pessoas estranhas", Ben recusou com firmeza, encolhendo-se contra o travesseiro.
Gabriela forçou uma risada melodiosa, os olhos estreitados. "Mas a titia não é uma estranha, homenzinho. Eu sou uma amiga muito... íntima dos seus pais."
Ela deu mais um passo à frente, inclinando-se sobre o leito para forçar o doce contra os lábios da criança. No entanto, a lufada de seu perfume industrial e invasivo atingiu em cheio o nariz sensível do menino, que já sofria com a imunidade instável.
Ben sentiu um formigamento abrupto. Ele abriu a boca e soltou um espirro violento, direto contra a mão de Gabriela e o doce que ela segurava.
A Sra. Rosa perdeu a paciência e interveio, empurrando sutilmente o braço da intrusa. "Se a criança já recusou, a senhora não deve insistir. O almoço da Sra. Malta já está subindo."
Gabriela endireitou o corpo, o olhar transformando-se em puro gelo ao encarar a funcionária. "Quem aqui pediu a opinião de uma empregada? Ponha-se no seu lugar e fique calada."
Ela voltou a se inclinar sobre a maca de Ben, mas a frase morreu em sua garganta quando a porta do quarto foi escancarada com um estrondo.
Fiorella Malta entrou como um furacão de fúria reprimida.
Gabriela girou sobre os saltos altos, recompondo instantaneamente sua máscara de cinismo e abrindo um sorriso calculado. "Fiorella! Que bom que você chegou. Eu soube da internação do pequeno Ben e fiz questão de vir pessoalmente trazer meu apoio e..."
Antes que a megera pudesse pronunciar a próxima sílaba, Fiorella avançou o corredor do quarto em um movimento fulminante. Com a mão esquerda, ela agarrou Gabriela pela nuca com uma força descomunal, imobilizando-a. Com a direita, arrancou o doce gosmento e coberto pelo espirro da mão da rival e, sem um milímetro de hesitação, enfiou-o com violência direto na boca de Gabriela.
"Mmph?! Hum-hum!"
Gabriela arregalou os olhos em puro pânico, sufocando com o impacto. O reflexo biológico a forçou a fechar a mandíbula, engolindo parte da substância enquanto tentava desesperadamente cuspir o resto, o rosto tornando-se vermelho de humilhação e asco.







