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Seu Arnaldo e Dona Cecília também ficaram em choque.
"Fiorella, como o Ben pode ter desenvolvido uma doença dessas? O médico tem certeza? Será que houve algum erro?" Dona Cecília repetia as perguntas sem parar.
Fiorella estava com o coração destroçado, mas manteve a expressão controlada. "Trouxe o Ben aqui para um exame mais completo. Saberemos se houve algum engano após a biópsia da medula óssea."
"Meu Deus, como isso pôde acontecer!" Seu Arnaldo ficou repetindo, sem conseguir parar.
Jackei levou um tempo para sair do choque. Olhou para Fiorella com uma expressão complexa e desolada, e não conteve: "Você deu a ele alguma coisa errada? Ele sempre foi saudável, como de repente..."
Antes que terminasse, o celular dele tocou.
Fiorella o observou enquanto ele pegava o aparelho.
"É a sua amada entrando em contato de novo? Já que ela precisa tanto de você, vamos logo finalizar os papéis do divórcio para que você possa dar a ela toda a sua atenção." O tom de Fiorella era de uma calma desconcertante.
Jackei não respondeu. Desligou a chamada.
Dona Cecília observou a expressão do genro e, desta vez, acreditou no que a filha havia dito.
Ficou agitada: "Jackei, você vai mesmo se divorciar? Essas mulheres de fora só querem seu dinheiro, você precisa acordar!"
Depois de tentar convencer o genro, virou-se para a filha: "Fiorella, é normal que os homens cedam à tentação de vez em quando. Converse com o Jackei, com jeito ele muda de ideia."
Fiorella olhou para a mãe — aquela mulher que ela considerava próxima e bem-intencionada — e sentiu, de repente, que a encarava como uma estranha.
"Mãe, se você está me dizendo isso... será que o pai passou por algo parecido algum dia e você conseguiu convencê-lo a voltar?" A pergunta saiu antes que ela pudesse segurar, carregada de uma tristeza que não conseguiu esconder.
No segundo seguinte, um estalo seco cortou o ar.
Seu Arnaldo a havia bofetado sem hesitar. "Sua atrevida! É isso que uma filha faz com o próprio pai?"
Na cama do hospital, Ben se assustou com a cena e saltou da cama rapidamente.
"Vovô! Você não pode bater na minha mãe!"
O menino correu em direção à mãe sem nem calçar os sapatos, abrindo os braços para protegê-la, o rostinho inocente voltado para os adultos à sua frente.
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Fiorella, que havia segurado as emoções por tanto tempo, finalmente as deixou transbordar ao sentir a proteção do filho.
Ajoelhou-se e o abraçou, as lágrimas descendo pelo rosto como uma represa que rompeu de uma vez.
"Não chora, mãe. Ben vai soprar para você. Fhhhhh... fhhhhh... soprei, agora não dói mais."
Ben acariciou o rosto da mãe com as mãozinhas, soprando delicadamente enquanto a consolava. Aquele gesto tão pequeno e tão imenso ao mesmo tempo derreteu o coração de Fiorella por completo.
"Jackei, que tipo de marido você é? A mamãe apanhou e você não disse uma palavra!"
Depois de confortar a mãe, Ben se virou para o pai e o repreendeu com uma seriedade que não combinava com a sua idade.
Jackei ainda estava absorto com a notícia da leucemia e não reagiu de imediato.
No fundo, para ele, ter um filho sempre havia significado garantir amparo na velhice e dar continuidade à família. Por isso insistia em ficar com Ben no divórcio — mesmo que a criança tivesse sido concebida por doação de esperma, juridicamente e socialmente era seu filho.
Mas e se esse filho estivesse gravemente doente, talvez sem cura? Qual seria o sentido, então?
"Ben, não se fala assim com o pai. É falta de respeito." Dona Cecília fez uma expressão severa e repreendeu o neto.
Ben olhou para a avó por dois segundos e declarou: "Humph! Não gosto de nenhum de vocês. Podem ir embora, não quero ver ninguém!"
Fiorella pegou o filho no colo. Os olhos ainda estavam vermelhos, mas a tempestade interior havia se acalmado.
"Ouviram? O Ben pediu para todos irem embora", disse ela com a voz rouca.
"Vocês..." Jackei finalmente recobrou os sentidos. Olhou para mãe e filho por um instante, fez uma pausa e perguntou: "Se ele for mesmo diagnosticado com leucemia, vocês ainda vão..."
Fiorella o fulminnou com o olhar — uma resposta que dispensava palavras. Então disse: "Jackei, nos encontramos no tribunal. Mudei de ideia. Se quer o divórcio, vai sair daqui sem nada."
Como ele pôde fazer uma pergunta tão cruel?
Doente ou não, Ben era seu sangue, o tesouro mais precioso que ela tinha. Como poderia não o querer?
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O clima ainda estava pesado quando o celular de Jackei tocou de novo.
Ele deu uma olhada rápida na tela, atendeu e virou-se para sair sem olhar para trás.
"Alô, Gabi..."
"Eu avisei que estudar demais não levava a nada!" Seu Arnaldo lançou um olhar furioso para a filha e foi atrás do genro. "Jackei, espera..."
Dona Cecília também virou-se para repreender a filha: "Olha o filho que você criou, sem educação nenhuma! Você só sabe criar problema e destruir uma família perfeita!"
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Quando todos saíram, Fiorella soltou um longo suspiro de alívio e abraçou o filho com força.
Só tinha ele no mundo.
"Não fica triste, mãe. Ben sempre vai estar com você."
"É, e a mãe sempre vai estar com o Ben..."
Fiorella beijou o rostinho do filho com ternura, fazendo uma promessa silenciosa a si mesma.
Não importava qual fosse o diagnóstico, não importava quanto custasse, não importava o que precisasse fazer — ela não mediria esforços para salvá-lo.
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Depois de colocar Ben para dormir, Fiorella pegou o celular para pesquisar sobre o processo de divórcio — só para ter uma noção geral.
Batidas suaves na porta.
Era Maira.
"O Ben está dormindo? Aproveitei o horário do almoço para passar aqui", ela sussurrou, espiando pela fresta da porta.
Com medo de acordar o filho, Fiorella levantou-se e fez um gesto para conversarem no corredor.
Depois de fechar a porta, Maira perguntou baixinho: "Por que o Jackei não veio? Ele não está preocupado com o Ben?"
Ele sempre pareceu gostar tanto do menino.
Desde o dia anterior até agora, Fiorella havia passado por tantas pancadas seguidas que ainda não havia tido chance de contar tudo para a amiga.
Mas não pretendia guardar segredo — no futuro, inevitavelmente precisaria da ajuda de Maira no tratamento do filho.
Reuniu os pensamentos e contou tudo, do jantar ao hospital, sem poupar detalhe.
Maira explodiu antes mesmo de Fiorella terminar.
"Que absurdo! O Jackei é um miserável de primeira! Foi ele quem correu atrás de você, e agora faz isso..."
"E os seus pais? Começo a duvidar que você seja filha biológica deles mesmo! Como podem rebaixar a própria filha enquanto bajulam o genro todos os dias?"
Fiorella esboçou um sorriso leve. Só Maira entendia de verdade a amargura que aquilo carregava.
"E agora, o que você pretende fazer?" Depois do primeiro surto de raiva, Maira se acalmou rapidamente.
"Primeiro, espero o resultado da biópsia do Ben. Se for leucemia, começo o tratamento imediatamente. Segundo, preciso voltar ao mercado de trabalho — sem renda própria, fico em desvantagem na disputa pela guarda. E terceiro, preciso contratar um bom advogado de divórcio."
Maira assentiu com força: "Essa é a Fiorella que eu conheço. Mesmo no caos, sabe exatamente o que precisa fazer."
Fiorella riu com amargura. "As circunstâncias não me deixam outra escolha."
Ela teria adorado poder desabar e não pensar em nada.
Mas a saúde do filho não podia esperar.
Dizem que a maternidade nos torna fortes — e ela entendeu isso naquele momento de forma visceral. Por mais dilacerado que estivesse seu coração, precisava se manter de pé, encontrar o caminho e atravessar todos os obstáculos que viessem.
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Maira fez uma pausa, pegou o celular e disse: "Ah, tinha algo que queria te mostrar desde cedo, mas com o Jackei aqui não quis trazer à tona. Olha isso."
Abriu a página de notícias e clicou em uma publicação. "Saiu esta manhã. Olha esse bombeiro que se sacrificou. Ele não te parece familiar?"
Entregou o celular e observou a reação da amiga.
Fiorella franziu o cenho e leu com atenção.
A notícia relatava o sacrifício heroico de um jovem bombeiro — uma história profundamente triste.
Mas o que a fez parar foi o rosto na foto.
Aquelas feições... eram estranhamente familiares.
"Os olhos dele..." Fiorella ficou boquiaberta. "São iguais aos do Ben."
"Exato! E se olhar bem, a boca também tem alguma coisa." Maira apontou para a tela.
"Que pena... ele nem tinha vinte e seis anos. Com um semblante assim, morreu salvando os companheiros." Maira suspirou. "Tão trágico."
Fiorella ficou olhando para o retrato por um longo tempo, com uma tristeza inexplicável no peito.
"Você acha que... se esse bombeiro tivesse doado esperma antes de morrer, ele poderia ser o pai biológico do Ben?" Maira lançou a pergunta pensativamente.
Fiorella balançou a cabeça: "Não pode ser coincidência assim, né? Num mundo tão grande, existem muitas pessoas parecidas."
"É verdade..."
Depois dos lamentos, a conversa voltou para o divórcio.
"Vou pedir ao meu tio que te indique um advogado de confiança", disse Maira. O tio dela era professor de direito e tinha uma rede ampla de contatos na área jurídica. "Pode deixar comigo."
"Obrigada. Não sei o que faria sem você."
"Para de ser formal comigo."
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Naquela tarde, Fiorella havia acabado de retornar ao quarto com Ben após a biópsia quando o celular tocou. Era Maira.
"Fiorella, o advogado mais renomado da cidade é Jean Carlos Vans. Ele atua principalmente em direito criminal, mas é igualmente brilhante em casos de divórcio. O problema é que meu tio diz que ele só aceita casos onde o patrimônio a ser dividido ultrapassa valores altíssimos — empresas de capital aberto, fortunas milionárias. Então..."
Fiorella entendeu antes que Maira terminasse.
Embora a empresa de Jackei tivesse crescido bem nos últimos anos, ainda não havia aberto capital. E o patrimônio acumulado durante o casamento ficava bem abaixo do patamar exigido.
"Tudo bem, vou procurar outro advogado", disse Fiorella, tentando tranquilizar a amiga.
"Não desiste não! Mesmo sendo exigente, não é impossível. Implorei ao meu tio, e ele concordou em fazer a ponte. Aguarda minhas notícias!"
Maira era leal de um jeito que poucas pessoas são.
"Obrigada, de verdade. E agradeça ao seu tio por mim também."
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Na manhã seguinte, Jean Carlos voltou ao hospital para visitar a mãe.
Ao saber que o filho havia ido ao quartel dos bombeiros buscar os pertences do irmão mais novo, a senhora foi tomada por uma onda de tristeza e chorou sem conseguir parar.
Depois de consolá-la e deixar as instruções de cuidado com a equipe médica, Jean Carlos colocou os óculos escuros — para esconder os olhos avermelhados — e levantou-se para sair.
Júlio o aguardava no corredor e o acompanhou assim que o viu sair.
"Chefe, o Professor Baldi está tentando falar com o senhor. Quer que o senhor assuma um caso de divórcio", informou Júlio em voz baixa.
Jean Carlos estava de mau humor. "Não vamos falar de trabalho hoje. Deixa para daqui a alguns dias."
"Certo."
Enquanto esperavam o elevador, Júlio pegou o celular e respondeu ao Professor Baldi com cuidado.
O elevador chegou. Os dois entraram.
No instante em que as portas estavam quase se fechando, alguém correu pelo corredor gritando: "Espera!"
Júlio estendeu o braço e segurou a porta.
Fiorella entrou ofegante e, ao se deparar com as duas figuras altas à sua frente, prendeu a respiração por um instante.
"Obrigada." Ela olhou para Júlio, que havia segurado o elevador, e acenou com a cabeça educadamente.
Júlio a reconheceu — era a mãe do menino perdido do dia anterior. Sorriu de volta.
O elevador desceu em silêncio.
Fiorella lançou um olhar discreto para Jean Carlos, que permanecia imóvel e quieto. Aquela presença tinha uma frieza e uma autoridade que se sentiam sem precisar de palavras. Os óculos escuros em ambiente fechado tornavam-no ainda mais distante e inacessível.
Ela desviou o olhar e fixou os números no painel, torcendo para chegar logo.
De repente, o celular dela tocou, quebrando o silêncio do elevador.
Ela atendeu rapidamente: "Alô, Maira."
"Fiorella, meu tio disse que vai precisar de dois dias. O advogado está resolvendo uns assuntos pessoais e tirou alguns dias de folga."