Capítulo 4

O silêncio que se seguiu à revelação da suspeita de leucemia foi sufocante. Sr. Arnaldo e Sra. Cecília congelaram, os rostos perdendo a cor instantaneamente.

"Fiorella... como o Ben pode ter desenvolvido uma doença dessas? O médico tem certeza absoluta? Será que não houve algum erro crasso nesse laboratório?" Sra. Cecília disparava as perguntas em uma sequência frenética, a voz subindo de tom a cada palavra.

Fiorella sentia o coração em pedaços, mas manteve a postura erguida e a expressão sob controle.

"Eu transferi o Ben para cá justamente para realizar uma investigação mais profunda. Só teremos uma resposta definitiva após o resultado da biópsia da medula óssea."

"Meu Deus... como uma tragédia dessas pôde acontecer com a nossa família?", Sr. Arnaldo repetia, andando de um lado para o outro, as mãos trêmulas.

Jackie levou longos segundos para se recuperar do baque. Ele fixou os olhos em Fiorella com uma mistura complexa de desolação e desconfiança, até que a soberba falou mais alto:

"Por acaso você deu alguma coisa errada para ele comer? O menino sempre foi o retrato da saúde! Como ele adoece assim, do nada?!"

Antes que Fiorella pudesse rebater o absurdo daquela acusação, o celular de Jackie vibrou no bolso do paletó manchado. Ele pescou o aparelho e olhou para a tela.

Fiorella soltou uma risada nasalada, fria e cortante.

"É a sua amada entrando em contato de novo? Já que a necessidade dela é tão urgente, sugiro que assinemos os papéis do divórcio o quanto antes. Assim, você poderá dedicar cem por cento do seu precioso tempo a ela."

Jackie tensionou a mandíbula. Sem dizer uma única palavra, ele rejeitou a chamada e guardou o telefone.

A Sra. Cecília, captando a culpa no olhar do genro, finalmente compreendeu a gravidade da situação. A ficha de que a filha dizia a verdade caiu como uma bigorna. Tomada pelo desespero de manter as aparências, ela se aproximou de Jackie, gesticulando:

"Jackie, meu querido, você enlouqueceu? Vai jogar seu casamento no lixo por causa de uma aventura? Essas mulheres que vêm do exterior só querem arrancar o seu dinheiro, você precisa acordar para a realidade!"

Sem obter resposta do genro, Cecília girou nos calcanhares e voltou-se para Fiorella, usando aquele tom que a protagonista conhecia tão bem:

"Fiorella, seja inteligente. É perfeitamente normal que os homens cedam à tentação de vez em quando no mundo dos negócios. Converse com o Jackie com jeitinho, seja compreensiva e ele vai mudar de ideia."

Fiorella encarou a própria mãe. Aquela mulher que deveria ser seu porto seguro em meio ao desabamento de sua vida parecia, naquele momento, uma completa estranha.

"Mãe...", a voz de Fiorella saiu baixa, mas carregada de uma amargura que silenciou o quarto. "Se a senhora está me dando esse conselho com tanta naturalidade... significa que o pai já passou por algo parecido e a senhora teve que engolir o orgulho para convencê-lo a voltar?"

Estalo!

O som seco cortou o ar da enfermaria.

O Sr. Arnaldo havia desferido uma bofetada no rosto de Fiorella sem o menor rastro de hesitação.

"Sua atrevida! É assim que uma filha sem caráter se dirige ao próprio pai?!"

Na cama do hospital, o pequeno Ben acordou sobressaltado com o barulho e a agressão. Seus olhinhos se arregalaram em choque e ele saltou do colchão em um piscar de olhos.

"Vovô! Você não pode bater na minha mamãe!"

O menininho correu em direção à mãe com os pezinhos descalços, postando-se rigidamente à frente dela e abrindo os braços curtos em um escudo humano. O rostinho inocente e corajoso encarava os adultos com uma determinação feroz.

Fiorella, que havia blindado suas emoções contra os ataques do marido e a indiferença dos pais, finalmente desabou ao sentir a pureza da proteção do filho.

Ela caiu de joelhos no chão da enfermaria e o envolveu em um abraço desesperado, permitindo que as lágrimas represadas quebrassem todas as suas barreiras.

"Não chora, mamãe. O Ben vai soprar para você. Fhhhhh... fhhhhh... pronto, o Ben soprou, agora a dor vai embora." O garotinho passava as mãozinhas pequenas pelas bochechas dela, soprando delicadamente onde o avô havia batido. Aquele gesto grandioso derreteu a armadura de Fiorella por completo.

Satisfeito em consolar a mãe, Ben virou o rosto na direção de Jackie, os olhos escuros faiscando com uma maturidade que não condizia com seus três anos:

"Jackie, que tipo de marido você é?! A mamãe apanhou na sua frente e você não fez nada?!"

Jackie Potter continuava paralisado, a mente ainda orbitando o peso financeiro e social de um diagnóstico de leucemia. Ele não reagiu à audácia do menino. No fundo, para um homem egoísta como ele, a paternidade sempre fora um investimento de status, uma garantia de linhagem e amparo na velhice. Por isso ele brigava tanto pela guarda de Ben na partilha — mesmo sabendo que o menino viera de um banco de doadores, perante as leis e a sociedade, o garoto era seu herdeiro.

Mas e se o herdeiro estivesse quebrado? E se a doença fosse terminal? Qual seria o retorno daquele investimento?

"Ben! Não se dirija ao seu pai desse jeito! Que falta de respeito e de educação absurda!", a Sra. Cecília interveio com severidade, apontando o dedo para o neto.

Ben sustentou o olhar da avó por dois longos segundos antes de decretar com firmeza:

"Humph! Eu não gosto de nenhum de vocês! Podem ir embora agora, eu não quero ver ninguém no meu quarto!"

Fiorella ergueu-se do chão com o filho nos braços. Os olhos ainda ardiam em um tom vermelho vivo, mas a tempestade em seu peito havia dado lugar a uma frieza cirúrgica.

"Vocês ouviram. O Ben pediu para todos irem embora", ela anunciou, a voz rouca, porém firme.

"Vocês..." Jackie finalmente recuperou a fala. Ele olhou para a esposa e para a criança por um instante, hesitou e verbalizou o pensamento mais cruel possível: "Se o diagnóstico dele for mesmo positivo para leucemia... vocês ainda pretendem levar essa disputa de guarda adiante?"

O olhar que Fiorella lançou a ele foi o suficiente para fazê-lo emudecer. Era uma resposta silenciosa e letal.

"Jackie... mudei de ideia sobre os termos amigáveis. Nos vemos no tribunal. E se prepare, porque você vai sair desse casamento sem absolutamente nada."

Como ele tinha coragem de ponderar o valor de uma vida com base em uma doença? Saudável ou enfermo, Ben era o seu mundo, o tesouro mais precioso que possuía.

A tensão no quarto foi interrompida quando o celular de Jackie tocou mais uma vez. Ele verificou o visor, atendeu imediatamente e caminhou em direção à saída sem olhar para trás.

"Alô, Gabi... estou indo."

"Eu avisei que investir em estudo para mulher não dava em nada!", o Sr. Arnaldo esbravejou, lançando um último olhar carregado de fúria para a filha antes de correr atrás do genro. "Jackie, espere! Vamos conversar com calma!"

A Sra. Cecília não perdeu a oportunidade de destilar seu último veneno antes de cruzar a porta: "Olha o monstro de filho que você está criando, sem o menor pingo de educação! Você só serve para causar problemas e destruir o que era uma família perfeita!"

Quando a porta finalmente se fechou e os passos ecoaram sumindo pelo corredor, Fiorella soltou um longo e profundo suspiro de alívio. Ela apertou Ben contra si.

No fim das contas, eles só tinham um ao outro naquele mundo hostil.

"Não fica triste, mamãe. O Ben sempre vai estar com você."

"É... e a mamãe sempre, sempre vai estar com o Ben." Ela beijou o topo da cabeça dele, selando uma promessa silenciosa no âmago de sua alma. Não importava a gravidade do diagnóstico, não importava o preço dos tratamentos ou as barreiras que o sobrenome Potter tentasse erguer — ela moveria céus e terra para salvar seu menino.

Mais tarde, após o almoço, Ben adormeceu sob o efeito dos sedativos leves para o procedimento. Fiorella aproveitou a calmaria para navegar pelo celular, pesquisando as bases legais de processos litigiosos de divórcio.

Duas batidas suaves na madeira da porta quebraram sua concentração.

Era Maira.

"O Ben conseguiu pegar no sono? Aproveitei o meu intervalo para dar uma corrida aqui", ela sussurrou, espiando pela fresta.

Temendo que o barulho despertasse o menino, Fiorella levantou-se e fez um sinal para que conversassem no corredor de isolamento. Assim que a porta foi encostada, Maira cruzou os braços, confusa: "Por que o Jackie não está aqui? Ele não dá a mínima para o estado do Ben?"

Fiorella respirou fundo. Desde a noite anterior, os eventos haviam se sucedido em um efeito dominó tão violento que ela sequer tivera tempo de atualizar a melhor amiga. Sem rodeios, ela relatou cada detalhe: a humilhação no restaurante, os termos cruéis da partilha, a intervenção omissa de seus pais e a agressão de Arnaldo.

Maira explodiu antes mesmo que Fiorella pudesse concluir a última frase.

"Mas que miserável de marca maior! O Jackie rastejou implorando pela sua atenção no início, e agora se comporta como um monstro?!" ela sibilou, tentando conter o tom de voz. "E os seus pais?! Honestamente, Fiore, eu começo a duvidar seriamente que você seja filha legítima daqueles dois! Como duas pessoas conseguem humilhar a própria carne enquanto bajulam um genro adúltero dia e noite?!"

Fiorella esboçou um sorriso melancólico. Só Maira conseguia validar a extensão daquela ferida sem julgamentos.

"E agora, Fiore? Qual é o plano?" Após o surto inicial, a postura médica e pragmática de Maira retornou.

"Primeiro, vou focar no resultado da biópsia do Ben. Se for leucemia, iniciamos o protocolo imediatamente. Segundo, preciso retornar ao mercado de tecnologia com urgência; sem uma renda robusta comprovada, o juiz me deixará em desvantagem na disputa pela guarda. E terceiro... preciso encontrar o melhor advogado de divórcio que o dinheiro puder pagar."

Maira assentiu, os olhos brilhando de orgulho. "Essa é a Fiorella Malta de verdade. Mesmo quando o mundo está desabando, você desenha a estratégia."

"As circunstâncias não me dão o luxo de desabar, Maira", Fiorella respondeu com uma risada seca. A maternidade havia injetado uma força visceral em suas veias; ela passaria por cima de qualquer obstáculo pelo filho.

Maira tateou o bolso do jaleco, puxando o celular com uma expressão intrigada. "Ah, tinha algo que eu queria te mostrar desde as primeiras horas da manhã, mas achei melhor esperar o Jackie vazar. Dá uma olhada nisso aqui."

Ela abriu um portal de notícias de grande circulação e estendeu o aparelho. "Saiu hoje cedo. É sobre o acidente do bombeiro herói que se sacrificou no incêndio da semana passada. A história é devastadora... mas preste atenção na foto dele."

Fiorella franziu o cenho, pegando o dispositivo e fixando os olhos na imagem em alta definição que ilustrava a matéria. Conforme seus olhos escaneavam os traços do jovem falecido, sua respiração travou.

Aquelas feições... eram uma cópia quase perfeita.

"Os olhos dele...", Fiorella sussurrou, boquiaberta. "São os mesmos olhos do Ben."

"Exatamente! E se você reparar bem no desenho da mandíbula e no arco das sobrancelhas, a semelhança é bizarra", Maira apontou para a tela. "Uma pena... ele mal tinha vinte e seis anos. Um rapaz tão jovem e bonito, morreu salvando o batalhão. Uma tragédia completa."

Fiorella permaneceu encarando o retrato do bombeiro por longos minutos, sentindo uma pontada inexplicável de melancolia no peito.

"Fiore... você acha que existe alguma chance remota de que... se esse rapaz tiver feito uma doação para o banco de esperma antes de falecer, ele possa ser o pai biológico do Ben?" Maira ponderou em voz alta.

Fiorella balançou a cabeça de leve, tentando afastar a ideia. "Não pode ser. O mundo é vasto demais, Maira. Coincidências de fisionomia acontecem o tempo todo entre estranhos."

"É... você tem razão." Maira guardou o aparelho e mudou o foco. "Vou ligar para o meu tio agora mesmo. Ele é professor sênior na Faculdade de Direito e conhece os tubarões da área jurídica na cidade. Vou pedir que ele nos consiga uma indicação de elite."

"Obrigada, Maira. Eu realmente estaria cega sem você aqui."

"Cale a boca e pare de formalidades comigo."

No final daquela tarde, Fiorella havia acabado de reacomodar Ben no quarto após o doloroso procedimento de biópsia quando seu celular vibrou. Era Maira, a voz saindo em um tom tenso.

"Fiore, escute com atenção. O advogado mais implacável e renomado do estado chama-se Jean Carlo Vans. Ele é conhecido por atuar em direito criminal de elite, mas quando assume casos de direito de família e divórcio, ele destrói a oposição. O grande problema é que meu tio me alertou que o Dr. Vans tem um critério rígido: ele só aceita causas onde o patrimônio em disputa envolve valores astronômicos, conglomerados de capital aberto ou fortunas de dinastias antigas. Então..."

Fiorella captou o subtexto antes que a amiga precisasse verbalizar a rejeição. Embora a empresa de software de Jackie estivesse expandindo, ela ainda era de médio porte e o patrimônio acumulado pelo casal passava longe do padrão exigido por um profissional daquele calibre.

"Tudo bem, Maira. Não se preocupe, eu vou pesquisar outros escritórios", Fiorella tentou tranquilizá-la.

"Nem pense em desistir! Ele pode ser exigente, mas não é um deus intocável. Eu fiz um escândalo com o meu tio até ele ceder e prometer que faria a ponte direta com o Dr. Vans. Aguarde minhas instruções!"

A lealdade de Maira era uma força inabalável.

"Obrigada de verdade. Transmita minha gratidão ao seu tio."

Na manhã seguinte, a atmosfera no andar da ala VIP estava pesada. Jean Carlo Vans retornou ao hospital para acompanhar de perto a evolução clínica da matriarca da família.

Ao receber os pertences pessoais que o caçula Yan havia deixado no armário do quartel dos bombeiros, a idosa entrou em um colapso de choro que a equipe médica mal conseguiu controlar. Jean Carlo passou horas ao lado do leito, confortando-a com sua presença sóbria. Ao se despedir, ele ajustou seus óculos escuros para camuflar o leve tom avermelhado de seus olhos exaustos.

Júlio o aguardava estrategicamente posicionado no corredor e emparelhou os passos com o chefe assim que a porta foi fechada.

"Sr. Vans, o Professor Baldi tentou contato direto com o nosso escritório três vezes hoje. Ele está solicitando formalmente que o senhor avalie a possibilidade de assumir um litígio de divórcio", relatou Júlio, mantendo o tom de voz profissional e baixo.

Jean Carlo continuou caminhando, o semblante rígido sob os óculos escuros. "Cancele ou postergue. Não tenho cabeça para lidar com disputas conjugais de terceiros hoje. Avise-o que responderei em alguns dias."

"Entendido."

Enquanto avançavam em direção aos elevadores VIP, Júlio sacou o celular para redigir uma resposta polida e diplomática ao Professor Baldi.

Plim.

O elevador de alta velocidade chegou ao andar. As portas de aço escovado deslizaram para as laterais e os dois homens entraram. No exato instante em que o sensor iniciava o fechamento das portas, uma voz feminina e ofegante ecoou pelo final do corredor:

"Espera! Por favor!"

Demonstrando reflexos rápidos, Júlio estendeu o braço entre as portas, forçando o sistema de segurança a reabri-las.

Fiorella cruzou a soleira metálica, tentando recuperar o fôlego após a corrida. Ao erguer os olhos e deparar-se com as duas figuras imponentes e de terno escuro que ocupavam o cubículo, ela congelou por uma fração de segundo, sentindo o ar ficar subitamente denso.

"Obrigada", ela proferiu com elegância, dedicando um aceno de cabeça cortês a Júlio.

O assistente abriu um sorriso discreto. Ele a reconheceu no mesmo instante — era a mãe do menino com feições idênticas às de Jean Carlo que havia se perdido na tarde anterior.

O elevador iniciou a descida em um silêncio sepulcral.

Pelo canto dos olhos, Fiorella avaliou o homem postado ao seu lado. Jean Carlo permanecia imóvel, a postura militar e a presença emanando uma autoridade gélida que dispensava discursos. Os óculos escuros em um ambiente fechado criavam uma barreira invisível de distanciamento e poder. Constrangida pela pressão da atmosfera, ela desviou o olhar, fixando os olhos no painel digital de andares, torcendo para que a descida terminasse logo.

De repente, a melodia estridente do celular de Fiorella cortou o silêncio do cubículo.

Ela pescou o aparelho na bolsa e atendeu de imediato, buscando uma distração: "Alô, Maira."

A voz de Maira veio em um tom urgente através do alto-falante, ecoando perfeitamente nas paredes de aço escovado do elevador:

"Fiorella, meu tio acabou de mandar mensagem! Ele disse que o Dr. Jean Carlo Vans tirou dois dias de folga para resolver assuntos pessoais complexos da família e não vai atender ninguém antes disso. Vamos ter que aguardar quarenta e oito horas para conseguir uma brecha na agenda dele!"

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