CAPÍTULO 04

EDILENA NARRANDO:

A música vibrava através das paredes do banheiro, abafando qualquer tentativa de silêncio. Marília me ajudava a colocar a camiseta encharcada sob o secador de mãos fixo na parede, mas a verdade era que eu nem ligava mais para o tecido molhado grudado em mim. Minha mente estava fervendo com as palavras daquele estranho.

Ele era diferente de tudo o que eu tinha visto até agora: alto, musculoso, com tatuagens que escapavam do colarinho e olhos verdes que pareciam atravessar qualquer defesa. E aquele sotaque... Mexicano, talvez? Sedutor demais para ser ignorado.

— O que aquele cara estava te falando? — perguntou Marília, com o tom preocupado de sempre.

— Ele quer me pagar uma bebida — respondi, tentando soar casual enquanto secava o a camiseta. — Disse que comprava outra camiseta, queria se desculpar... Enfim, o que você achou dele? Um gato, né?

Marília bufou, cruzando os braços.

— Sim, um gato. Mas, Lena, você não viu os seguranças ao redor dele? Homens armados. Ele parece perigoso, talvez até um mafioso.

Dei um sorriso de canto, ignorando o alerta dela. O som do secador de mãos preenchia o espaço, mas a ideia que passava pela minha cabeça era ainda mais barulhenta.

— Será que encontrei a pessoa perfeita? Alguém que não vai ter medo do Dmitri?

— Não seja maluca! — Marília arregalou os olhos, praticamente me sacudindo pelo braço. — Se ele for mesmo um mafioso, é melhor você ficar com o Isaac. Pelo menos ele é previsível.

Revirei os olhos.

— Nem morta! Já disse mil vezes que não vou casar com o Isaac. Dmitri pode me obrigar a muitas coisas, mas isso não está na lista. Agora... aquele loiro…

Ela suspirou, exasperada.

— Lena, espero que você não esteja pensando no que eu acho que está.

Puxei a camiseta de volta e a ajeitei no corpo. Ainda estava úmida, mas já dava para sair do banheiro.

— Ah, Marília, relaxa. Eu só volto para casa depois de encontrar o meu marido, e você vai me ajudar.

— Lena, isso é loucura! — Ela me seguiu, praticamente tropeçando nos próprios pés enquanto eu a arrastava para fora do banheiro.

Claro que era loucura. Mas Dmitri não me deixava escolha. De todos que observei naquela noite, o único que chamou minha atenção foi esse loiro misterioso... Ele era diferente. E, por algum motivo, achei que ele talvez pudesse ser a chave para minha liberdade.

Voltar para o salão da boate era como atravessar uma tempestade de sons e luzes. As batidas da música pulsavam no chão sob os meus pés, e as luzes piscavam em sincronia com o ritmo. Mesmo assim, meu foco estava no camarote superior, onde o homem loiro, estava no centro de tudo. Ele parecia comandar a festa, cercado por mulheres que riam alto e outros homens que brindavam como se fossem donos do mundo.

Puxei Marília pela mão enquanto cruzávamos o salão. Ela estava relutante, mas sabia que não ia conseguir me deter. Quando chegamos à entrada VIP, o segurança nos barrou imediatamente, cruzando os braços como se estivéssemos tentando entrar em um cofre.

— Não podem passar sem pulseira.

Antes que eu pudesse argumentar, vi Guero nos notar. Ele ergueu o copo, sorrindo de forma despreocupada, e fez um sinal com a mão. O segurança deu um passo para trás, abrindo caminho como se tivéssemos acabado de ganhar um passe mágico. Marília me lançou um olhar de alerta, mas eu apenas sorri, ajeitando a camiseta ainda ligeiramente úmida.

Quando entramos no camarote, Guero se aproximou com um sorriso fácil, os braços abertos como se fosse nos receber com um abraço. Seu perfume amadeirado, misturado ao aroma do uísque que ele segurava, era inebriante.

— Ah, você conseguiu se secar bem. Nem parece que estava molhada — ele disse, com a voz grave cortando o som ambiente enquanto os olhos verdes avaliavam cada detalhe meu.

— Bom, o cheiro de uísque ainda ficou. E a mancha também — respondi, gesticulando para minha camiseta.

Ele riu, e a risada era grave, quase musical.

— Eu prometo que vamos resolver isso. Mas aceite minhas desculpas sinceras.

Antes que eu pudesse responder, ele segurou minha mão e a beijou. Não era um beijo comum. Foi lento, controlado, como se quisesse que eu sentisse cada segundo daquele contato. Minha pele parecia pegar fogo, mas fiz o possível para não demonstrar.

— Seu nome é…? — perguntei, tentando recuperar o controle da situação.

— Pode me chamar de Guero. E você? — Ele inclinou a cabeça, com os olhos fixos nos meus como se mais nada no mundo existisse.

— Edilena. E essa é minha prima, Marília — disse, puxando Marília para a conversa.

Marília deu um sorriso tímido enquanto ele se virava para cumprimentá-la.

— Marília, muito prazer — disse ele, beijando o rosto dela com a mesma elegância calculada.

— Prazer... — Marília respondeu, desviando o olhar, claramente desconfortável.

Entramos no camarote de Guero, o espaço era maior do que eu imaginava, decorado com sofás de couro branco e uma mesa central repleta de garrafas de bebidas caras, copos de cristal e bandejas. Mas o que chamava mais atenção não eram os acessórios de luxo, e sim, sacos plásticos com maconha, comprimidos coloridos espalhados como doces e carreiras de pó branco cuidadosamente alinhadas.

Marília e eu trocamos um olhar tenso, e eu precisei respirar fundo para não deixar a expressão de desconforto transparecer. Guero, por outro lado, parecia absolutamente à vontade, como se estivesse em seu reino pessoal.

— Venham, bebam o que quiserem. Fiquem à vontade — disse ele, apontando para a mesa enquanto fazia um gesto amplo.

Seu sorriso despreocupado contrastava com o caos controlado ao nosso redor. Enquanto ele falava com um dos homens do camarote, um garçom surgiu quase instantaneamente, trazendo uma rodada de tequila.

— Vamos, um brinde! — disse Guero, entregando os copos para mim e para Marília.

O líquido dourado reluziu sob as luzes do camarote, e a energia no ar era intensa, quase palpável. Eu sabia que recusar o brinde seria estranho, então virei o copo em um único movimento, sentindo a tequila queimar minha garganta. Guero riu, claramente satisfeito, e encheu os copos novamente.

— Mais uma! Não vamos parar agora! — insistiu ele, enquanto levantava o segundo copo.

Dessa vez, virei mais devagar, sentindo o calor subir pelo meu rosto. Marília estava ao meu lado, tentando sorrir enquanto acompanhava o ritmo.

Guero, entretanto, não parava. Ele tomou dois comprimidos da mesa e os engoliu com um gole de tequila, o sorriso em seu rosto ficando mais largo e os olhos mais brilhantes. Ele parecia estar em um estado de euforia que só crescia.

— Vocês precisam experimentar. Isso aqui vai fazer a noite de vocês ficar ainda melhor — disse ele, estendendo a mão para os comprimidos.

Eu balancei a cabeça, recusando com um sorriso forçado.

— Não, obrigada. Não é a minha vibe.

Marília fez o mesmo, cruzando os braços como se quisesse reforçar sua decisão.

Guero deu de ombros, ainda sorrindo.

— Como quiserem, mas estão perdendo.

Eu conhecia ecstasy melhor do que queria. Meus irmãos eram praticamente especialistas em fabricar e distribuir aquilo na região. O dinheiro deles vinha desse tipo de coisa, mas eu sempre mantive distância, mesmo quando era tentador. Marília também sabia disso, e provavelmente sentia o mesmo desconforto que eu naquele momento.

Apesar da atmosfera de hedonismo no camarote, algo na atitude de Guero me mantinha alerta. Ele era carismático, mas havia algo perigoso por trás daquele sorriso descontraído. Talvez fosse o modo como ele parecia sempre estar no controle, ou talvez fosse o contraste entre seu comportamento leve e os seguranças que permaneciam à vista, observando cada movimento ao redor.

Naquele momento, percebi que estava fazendo uma aposta perigosa, mas Dmitri havia me forçado a entrar nesse jogo. E se Guero era a minha chance de escapar, eu precisava descobrir como usá-lo sem ser usada primeiro.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App