CAPÍTULO 03

EDILENA NARRANDO:

Estávamos na estrada há mais tempo do que eu imaginava, e minha cabeça já girava com tantas variáveis. Quem diria que escolher um marido para um casamento de fachada seria tão complicado? Dmitri sempre tinha uma carta na manga, e qualquer decisão errada seria usada contra mim.

— Acho que não vamos encontrar alguém assim na rua, Lia…

— Lena, estamos no lugar certo. O que não falta em Vegas são milionários procurando por uma esposa jovem e linda como você... só precisamos procurar no lugar certo — disse Marília, recostando-se no banco e admirando o caos luminoso que nos cercava.

— Também preciso pelo menos saber algo sobre a pessoa, afinal vou me casar, e Dmitri pode usar qualquer coisa contra mim — respondi, com os dedos firmes no volante enquanto analisava as ruas apinhadas de gente.

— Sim, por exemplo, o nome. É o ideal.

— Claro... preciso saber o nome do meu marido... e se já é casado, porque daí não vai servir de nada o meu plano — murmurei, mais para mim mesma do que para ela.

— Verdade. Também não pode ser alguém com filhos. Imagina envolver uma criança nessa situação? — disse Marília, me fazendo ponderar ainda mais sobre os detalhes.

— Com certeza... sem filhos. E também a profissão. Assim posso pensar se ele não se intimidará com a influência e o dinheiro de Dmitri.

— Isso. Além do mais, não vai ser um casamento de verdade. Você só precisa fazer parecer real para o seu irmão esquecer essa história de te casar com aquele velho — pontuou Marília, com sua voz carregada de razão.

— Exatamente. Você tem razão. Não vai ser um casamento normal — concordei, parando o carro no estacionamento de um KFC.

Meu estômago roncava de fome, e Marília parecia igualmente faminta.

Descemos do carro e entramos juntas no restaurante. O cheiro irresistível de frango frito e batatas me atingiu como uma onda. Fizemos nossos pedidos no balcão, e enquanto aguardávamos, observei o movimento ao nosso redor. Famílias com crianças, casais aproveitando refeições rápidas, e um ou outro turista distraído com seus celulares.

Quando nosso balde de frango chegou, escolhemos uma mesa perto da janela. Peguei uma batata e a mergulhei no molho. A crocância era um alívio para os nervos, mas a conversa que estávamos prestes a ter era tudo menos relaxante.

— Acho melhor a gente ir para o Palazzo. Lá podemos procurar melhor, e com alguns drinks vamos encontrar alguém que não recuse — sugeri, pegando uma coxa de frango e saboreando lentamente.

— Ficou louca? Esse cassino pertence aos mexicanos. Seu irmão te mata se souber que pisamos lá, e eu vou junto — Marília retrucou, molhando um pedaço de frango crocante no molho barbecue.

— Lia, pensa comigo. Se preciso de alguém rico, não vou encontrar procurando nas ruas e nas calçadas. Sempre tem milionários por lá. Eu já escutei o Igor dizendo. Vai por mim, o Dmitri vai querer me matar de qualquer maneira quando souber que me casei.

Marília suspirou, claramente desconfortável.

— Não tem mesmo outro jeito? Sei lá... casamento é loucura demais.

— Que outro jeito me diz? Se fujo, me encontram. Se fico, tenho que me casar com aquele velho. Não, eu vou fazer alguma coisa — respondi, firme, encarando seus olhos preocupados.

Ela hesitou, mas acabou sorrindo de leve.

— Olha, eu já disse que estou com você pra tudo. Até pra ideia meia maluca. Mas pode funcionar.

Obviamente, eu sabia que isso era uma péssima ideia. Dmitri jamais me perdoaria, mas e daí? Entre Isaac e qualquer outro, até um completo desconhecido parecia ser a opção menos dolorosa. Pelo menos, desta vez, eu escolheria meu próprio destino ou meu karma, como preferia pensar.

Depois do almoço, que Marília pagou no cartão de crédito dela para evitar qualquer chance de rastreamento, seguimos direto para o Palazzo. Dmitri odiava aquele lugar com todas as forças. O cassino e hotel era um dos maiores concorrentes do nosso pai, e pisar ali era praticamente uma traição. Mas eu não estava pensando em lealdade, apenas em sobrevivência.

Estacionei o carro em frente ao edifício, e, por um instante, hesitei. O lugar parecia algo saído de um sonho luxuoso. Ladrilhos brilhantes pavimentavam a entrada, cercada por chafarizes que lançavam jatos d’água em coreografias precisas. As luzes douradas do letreiro se refletiam nas paredes de mármore, e uma música instrumental suave vinha do hall.

Marília apertou minha mão.

— Vai dar certo, Lena. Confia.

Respirei fundo e saímos do carro. O frio na barriga era inevitável, mas a vontade de ser livre era maior.

Entramos no hall principal, e meu coração deu um salto. Tudo ali gritava riqueza: do lustre de cristal pendurado no teto abobadado ao chão impecável de mármore branco com detalhes dourados. O ar tinha um perfume sutil de rosas e baunilha, e o som discreto de moedas caindo das máquinas do cassino ecoava à distância.

Do lado direito, um corredor nos levava ao hotel, com tapetes felpudos e recepcionistas impecavelmente vestidos. À esquerda, um portal aberto revelava o cassino, iluminado por neons em tons de azul e vermelho. Mas o que mais chamou minha atenção foi o jardim central, uma obra-prima com fontes iluminadas e palmeiras altas. Do outro lado, a entrada para o bar e a boate prometia exatamente o tipo de ambiente que precisávamos.

— Vamos tomar um drink antes. Coragem líquida nunca fez mal a ninguém — sugeri, puxando Marília pelo braço.

Ela riu nervosa.

— Contanto que a gente não exagere...

O bar era tão extravagante quanto o resto do lugar. Lustres pendurados no teto criavam um jogo de luz e sombras, enquanto sofás de veludo verde esmeralda cercavam mesas de vidro. Pedimos coquetéis coloridos, e por alguns minutos, tentei convencer a mim mesma de que tudo aquilo fazia sentido.

Procurar alguém naquele ambiente, porém, era mais difícil do que pensei. Passamos horas entre o cassino e o hall do hotel, observando homens bem vestidos apostando pequenas fortunas, enquanto outras mulheres flutuavam pelo lugar com sorrisos ensaiados. Dmitri me ligou uma vez, e o som do celular me fez congelar.

Ignorá-lo parecia suicídio, mas desliguei mesmo assim. Não podia perder o foco.

Quando voltamos ao bar, o ambiente já havia se transformado. A música alta tomava conta do lugar, e as luzes piscavam em tons de roxo e vermelho. O palco central agora tinha dançarinas em pole dance, e o público ao redor parecia mais interessado em beber do que conversar.

Eu me sentia derrotada.

Olhei para Marília, que parecia tão cansada quanto eu.

— É inútil. Não vou encontrar ninguém adequado aqui. — Suspirei, jogando meu corpo no encosto da cadeira.

Ela balançou a cabeça.

— É melhor a gente ir embora. Inventamos uma desculpa para o Dmitri, e amanhã procuramos outra solução. Quem sabe pagar alguém para o papel?

— Vamos. É melhor sairmos daqui antes que eu faça alguma besteira — respondi, levantando-me rapidamente.

Marília me seguiu de perto enquanto tentávamos atravessar o salão lotado. O espaço parecia ter dobrado de tamanho com tanta gente, e cada passo era uma batalha. O som alto, as luzes piscando e o cheiro de perfume caro se misturavam em uma confusão sufocante.

No meio da confusão para atravessar a boate lotada, senti um impacto forte contra o meu corpo, seguido por um jato gelado se espalhando pela minha camiseta. Olhei para baixo, incrédula. A minha blusa branca estava ensopada, grudada na minha pele. O cheiro inconfundível de uísque preencheu meu nariz.

— Estúpido! Olha a merda que você fez! — gritei, levantando o rosto para encontrar o culpado.

Meu olhar subiu… e subiu… até alcançar o rosto de um homem alto, com ombros largos que preenchiam a camisa branca agora respingada de uísque.

Ele tinha a barba dourada bem alinhada, cabelos loiros presos em um coque, e olhos verdes que me encaravam com uma mistura de surpresa e leve deboche. Era como se ele nem tivesse notado que eu estava ali.

— O que eu fiz? — perguntou ele, com a voz grave se projetando sobre a música alta, sem nenhum sinal de culpa.

— Me molhou inteira, idiota! — retruquei, afastando a blusa do corpo encharcado.

Ele baixou os olhos lentamente, analisando minha blusa molhada com um sorriso que me fez sentir ainda mais irritada.

— Calma, mamacita. Eu compro outra pra você.

O sotaque dele, uma mistura de inglês perfeito com um toque mexicano, era hipnotizante. Mas não o suficiente para me fazer esquecer o desastre.

— Não quero outra! — respondi, cerrando os olhos.

— Lena, vamos ao banheiro, você se seca lá — Marília interveio, colocando a mão no meu braço para me puxar antes que eu explodisse mais.

Dei um passo para acompanhá-la, mas senti um aperto firme no meu braço. O toque foi decidido, mas não agressivo. Olhei para trás, pronta para gritar de novo, mas ele estava lá, com aquele olhar penetrante e as sobrancelhas arqueadas.

— É sério, pode escolher outra roupa na melhor loja aqui do hotel. Eu pago — disse ele, com os olhos verdes fixos nos meus.

Por um momento, fiquei sem resposta. As tatuagens que saíam do colarinho da camisa e subiam pelo pescoço chamaram minha atenção. O que seria aquele desenho? Não consegui parar de me perguntar. E o perfume dele… algo amadeirado e intenso que fazia meu raciocínio vacilar por um segundo.

— Não precisa. Eu vou me secar no banheiro… obrigada. — Minha voz saiu mais baixa do que eu queria, quase inebriada pelo cheiro, pela presença, pelo conjunto todo.

Me virei para ir embora, mas, mais uma vez, ele me puxou de volta, dessa vez com um sorriso que parecia ser capaz de convencer qualquer um a ficar.

— Deixa eu, pelo menos, te pagar uma bebida. — A voz dele tinha um tom rouco, quase suave, que contrastava com a sua aparência imponente.

— Já estou indo embora… — respondi rapidamente, afastando a mão dele com um toque suave, tentando disfarçar o nervosismo que começava a subir.

— Se mudar de ideia, vou estar te esperando, meu camarote é aquele ali — Apontou para o andar de cima.

Enquanto me soltava e dava as costas novamente, senti os olhos dele queimando nas minhas costas.

Não consegui evitar o arrepio que subiu pelo meu corpo.

Marília me puxou pelo braço, claramente tentando me tirar daquela situação antes que algo saísse do controle. Ainda assim, uma parte de mim não conseguia evitar de olhar para trás, só para encontrar aqueles olhos verdes brilhando na penumbra.

Eu não sabia quem ele era, mas, por um momento, pensei se sair dali seria realmente a decisão mais sensata.

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