Capítulo 6

Antes do sol nascer, fui despertado pela vibração do celular do hospital sobre a mesa de cabeceira. Afastei-me com cuidado, evitando qualquer movimento que pudesse acordar Rafaela, e atendi ainda em voz baixa.

Evelyn Parker foi direta, como sempre. Alexander e Sophia Bennett haviam dado entrada há cerca de dez minutos, com suspeita de descolamento de placenta, e o centro cirúrgico dois já estava sendo preparado. Informei que chegaria em vinte minutos e desliguei.

Por um breve instante, permaneci olhando Rafaela. Ela dormia serena, completamente alheia ao peso que já recaía sobre mim. Levantei-me em silêncio, vestindo apressadamente uma calça e uma camisa enquanto o elevador descia, e, quando cheguei ao hospital, já não havia espaço para qualquer resquício de hesitação.

Após a assepsia, entrei na sala cirúrgica. Tudo estava pronto. A equipe posicionada, aguardando.

Caminhei diretamente até Sophia.

Ela parecia menor naquela maca. A pele pálida contrastava com a imagem sempre impecável que sustentava, e a respiração curta denunciava uma fragilidade que raramente se permitia mostrar. Sophia havia vindo de Portugal meses antes para que eu acompanhasse sua gestação de perto e realizasse seu parto, mas, na obstetrícia, o tempo nunca pertence a ninguém.

Inclinei-me o suficiente para que apenas ela me ouvisse.

— Sophia.

Seus olhos se abriram devagar, encontrando os meus com uma lucidez atravessada pelo medo. Havia lágrimas contidas ali.

— Dr. Collins… não era agora…

— Eu sei — respondi com firmeza contida. — Mas seu bebê entrou em sofrimento, e precisamos agir.

Ela fechou os olhos por um instante, como se tentasse reorganizar os próprios pensamentos, ou talvez apenas conter o medo que, mesmo nas pacientes mais controladas, sempre encontrava espaço naquele momento.

— Você confia em mim, Sophia, não confia? — perguntei, sustentando o olhar dela. — Se não confiasse, não teria vindo até aqui.

Esperei apenas o suficiente para que aquela confiança se reafirmasse, mesmo sem palavras.

— Eu vou fazer o meu melhor. Vai ficar tudo bem.

Endireitei a postura e me afastei.

— Vamos começar.

A partir dali, o mundo se reduziu à precisão. Cada movimento calculado, cada comando exato. O tempo deixou de existir da forma comum, medido apenas pela necessidade de agir no momento certo.

O choro do bebê rompeu o silêncio da sala pouco tempo depois.

Ele nasceu bem e foi imediatamente encaminhado para a UTI neonatal, enquanto eu permanecia nos cuidados finais com Sophia, garantindo que ela também atravessasse aquele momento com segurança.

Somente depois, já na minha sala, o ritmo começou a desacelerar.

Pelo horário, Rafaela já deveria estar na Maison.

Havia uma mensagem de Halston no celular. Os papéis estavam prontos.

Liguei.

Chamou duas vezes. Na terceira, ela atendeu.

— Oi… — a voz veio doce, carregada de um sorriso perceptível mesmo à distância. — Achei que tinha fugido.

Sorri de leve, recostando-me na cadeira enquanto meus olhos se perdiam por um instante na paisagem de Manhattan além da parede de vidro.

— Nunca, meu amor. Tive uma emergência.

— E está tudo bem?

— Agora sim. Mas não foi só por isso que liguei. Halston me avisou que os papéis já estão prontos. Posso passar aí depois do almoço? A gente resolve isso rápido.

Ela riu baixo.

— Você é maluco… — disse, ainda sorrindo. — Te espero aqui na Maison.

Desliguei com um sorriso discreto ainda presente, voltando minha atenção aos papéis sobre a mesa.

Foi então que ouvi passos no corredor.

Firmes. Familiares demais.

Antes mesmo da porta se abrir, algo em mim já reconhecia aquela presença.

Quando ela entrou, o tempo pareceu hesitar por um segundo.

— Mamãe…

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