Mundo de ficçãoIniciar sessãoAntes do sol nascer, fui despertado pela vibração do celular do hospital sobre a mesa de cabeceira. Afastei-me com cuidado, evitando qualquer movimento que pudesse acordar Rafaela, e atendi ainda em voz baixa.
Evelyn Parker foi direta, como sempre. Alexander e Sophia Bennett haviam dado entrada há cerca de dez minutos, com suspeita de descolamento de placenta, e o centro cirúrgico dois já estava sendo preparado. Informei que chegaria em vinte minutos e desliguei. Por um breve instante, permaneci olhando Rafaela. Ela dormia serena, completamente alheia ao peso que já recaía sobre mim. Levantei-me em silêncio, vestindo apressadamente uma calça e uma camisa enquanto o elevador descia, e, quando cheguei ao hospital, já não havia espaço para qualquer resquício de hesitação. Após a assepsia, entrei na sala cirúrgica. Tudo estava pronto. A equipe posicionada, aguardando. Caminhei diretamente até Sophia. Ela parecia menor naquela maca. A pele pálida contrastava com a imagem sempre impecável que sustentava, e a respiração curta denunciava uma fragilidade que raramente se permitia mostrar. Sophia havia vindo de Portugal meses antes para que eu acompanhasse sua gestação de perto e realizasse seu parto, mas, na obstetrícia, o tempo nunca pertence a ninguém. Inclinei-me o suficiente para que apenas ela me ouvisse. — Sophia. Seus olhos se abriram devagar, encontrando os meus com uma lucidez atravessada pelo medo. Havia lágrimas contidas ali. — Dr. Collins… não era agora… — Eu sei — respondi com firmeza contida. — Mas seu bebê entrou em sofrimento, e precisamos agir. Ela fechou os olhos por um instante, como se tentasse reorganizar os próprios pensamentos, ou talvez apenas conter o medo que, mesmo nas pacientes mais controladas, sempre encontrava espaço naquele momento. — Você confia em mim, Sophia, não confia? — perguntei, sustentando o olhar dela. — Se não confiasse, não teria vindo até aqui. Esperei apenas o suficiente para que aquela confiança se reafirmasse, mesmo sem palavras. — Eu vou fazer o meu melhor. Vai ficar tudo bem. Endireitei a postura e me afastei. — Vamos começar. A partir dali, o mundo se reduziu à precisão. Cada movimento calculado, cada comando exato. O tempo deixou de existir da forma comum, medido apenas pela necessidade de agir no momento certo. O choro do bebê rompeu o silêncio da sala pouco tempo depois. Ele nasceu bem e foi imediatamente encaminhado para a UTI neonatal, enquanto eu permanecia nos cuidados finais com Sophia, garantindo que ela também atravessasse aquele momento com segurança. Somente depois, já na minha sala, o ritmo começou a desacelerar. Pelo horário, Rafaela já deveria estar na Maison. Havia uma mensagem de Halston no celular. Os papéis estavam prontos. Liguei. Chamou duas vezes. Na terceira, ela atendeu. — Oi… — a voz veio doce, carregada de um sorriso perceptível mesmo à distância. — Achei que tinha fugido. Sorri de leve, recostando-me na cadeira enquanto meus olhos se perdiam por um instante na paisagem de Manhattan além da parede de vidro. — Nunca, meu amor. Tive uma emergência. — E está tudo bem? — Agora sim. Mas não foi só por isso que liguei. Halston me avisou que os papéis já estão prontos. Posso passar aí depois do almoço? A gente resolve isso rápido. Ela riu baixo. — Você é maluco… — disse, ainda sorrindo. — Te espero aqui na Maison. Desliguei com um sorriso discreto ainda presente, voltando minha atenção aos papéis sobre a mesa. Foi então que ouvi passos no corredor. Firmes. Familiares demais. Antes mesmo da porta se abrir, algo em mim já reconhecia aquela presença. Quando ela entrou, o tempo pareceu hesitar por um segundo. — Mamãe…






