Capítulo 6

Os primeiros dez minutos de aula com Fenrys foram… surpreendentemente pacientes. Ele explicava com calma, me guiava para tentar organizar os pensamentos, criar pequenas barreiras mentais, como se fossem muros invisíveis. Eu até pensei: “Olha só, ele consegue ser paciente.”

No minuto onze, o livro acertou minha cabeça.

— AI! — reclamei, passando a mão no lugar da pancada. — Tenha mais paciência! Eu sou sobrenatural há nem um dia e você já quer que eu saiba tudo?

Cassete, ele bateu firme mesmo.

— Seus inimigos, pestinha, não terão piedade ao ver essa linda cabeçinha aberta livremente como um livro. Crie muralhas na sua mente. Faça barreiras. Não seja morta.

Não havia humor na voz dele. Pelo contrário.

— Não sabia que tinha inimigos. — resmunguei.

— Tem. E eles nem sempre vão vir com pose de vilão. Acredite em mim.

Olhei para o livro à minha frente, depois para ele. — Por que está me ajudando? Por que se importa?

Fenrys me encarou por alguns segundos antes de responder. — Seu pai era meu melhor amigo. Devo isso a ele.

Fiquei em silêncio o resto da aula.

Cheguei no quarto e caí de cara no colchão, me jogando sem cerimônia. Um murmúrio de lamentação escapou da minha boca.

— Fenrys acabou com a sua raça pelo jeito. — disse Hanna, sem tirar os olhos do livro que lia na cama dela.

— Até estou começando a simpatizar com o desgraçado. — murmurei com a voz abafada contra o colchão.

Mas, depois daquela declaração dele, percebi algumas coisas. Fenrys queria ajudar, mas não se envolver. Ele devia um favor ao amigo falecido, seja lá por quais motivos. E me peguei pensando: se fosse eu no lugar dele, se o filho fosse de Luke… eu faria o mesmo sem pensar duas vezes. Pensar em Luke fez meu peito apertar de saudade. Como eu queria ele aqui.

— Ele é um bom professor. Métodos arcaicos, mas é bom. — completou Zara, sentada ao meu lado.

Assenti com a cabeça e fui para o banheiro tomar um longo banho. Estar ali era loucura. Aquilo tudo era loucura. Todo e qualquer senso de normalidade tinha fugido da minha vida em apenas 24 horas, sem chance de análise.

Ao sair, as meninas me chamaram para jantar. Mas eu já tinha comido um bolinho que Fenrys me oferecera durante a aula. — Coma isso. Não quero ninguém desmaiando em cima dos livros. — tinha rosnado.

Sorri lembrando disso e disse às meninas que ficaria no quarto. Elas assentiram e saíram.

Sozinha, abri o armário e peguei a jaqueta marrom onde Luke havia colocado algo no bolso. De lá, saiu um diário de couro marrom, preso por uma fivela do mesmo tecido. Tinha cheiro de livro novo. Sorri ao ver aquilo e o abri. Um bilhete caiu.

Peguei com cuidado. A letra puxada de Luke dizia: "Para quando se sentir sozinha ou perdida. Amo você! — Luke"

Sorri ao ver aquilo. Mal percebi quando uma lágrima caiu sobre o diário aberto, de páginas limpas.

— Droga. — murmurei, tentando limpar a gota. Mas, por algum motivo, ela foi absorvida pelo papel.

Sentei na escrivaninha de frente para a janela, curiosa. Como mágica, palavras surgiram no diário: "O que houve?"

Aquilo era loucura demais. O diário estava… conversando comigo?

"Kallista?" — escreveu de novo.

Segurei o fôlego. Uma caneta dourada surgiu diante de mim. Olhei para ela, depois para o diário. Será que era Luke? Será que ele tinha achado um meio de se comunicar comigo?

Suspirando, peguei a caneta, meio trêmula, e escrevi: "Luke?"

As palavras foram absorvidas. Logo em seguida, voltaram em resposta: "Não. Mas sou um… velho amigo dele."

Suspirei, olhando para o bilhete que Luke havia deixado. Escrevi de novo: "Luke me deu. No bilhete dizia que era para quando eu me sentisse sozinha."

As palavras sumiram e reapareceram: "Se sente sozinha?"

Olhei para o céu. Fazia muito, muito tempo que eu vinha me sentindo assim. Peguei a caneta e escrevi sem pensar: "Já sentiu que não pertence a lugar nenhum? Nem ao que parece certo?"

Demorou um pouco, mas as palavras voltaram: "O tempo todo."

Sentada em frente a dois machos — era assim que eles se referiam no mundo sobrenatural — eu encarava os amigos de Hanna e Zara.

Rocco era um lobo. Os cabelos loiros rentes ao couro cabeludo lembravam o corte militar das terras mortais. A pele bronzeada, os olhos dóceis e divertidos contrastavam com o corpo imenso. Os ombros largos e o rosto marcado faziam a cadeira parecer pequena demais para ele. Quando se inclinava sobre a mesa, parecia um gigante.

Já Draco, o vampiro, tinha um aspecto zombeteiro. Alto, magro, olhos pretos e calmos, cabelo curto. A roupa preta da academia acentuava ainda mais sua silhueta esguia. Ambos me olhavam como se eu fosse… interessante.

— Ficar encarando não ajuda. — murmurou Hanna.

Rocco sorriu. — É só engraçado. Ela tem cheiro de lobo, mas eu sinto aquele cheiro… de ferro também.

Arqueei as sobrancelhas. Como eles conseguiam sentir aquilo? E por que eu não sentia nada? Nem ouvia a mente deles?

Draco finalmente se inclinou na mesa, abandonando a postura desinteressada. — Alguém já ameaçou te tacar na fogueira? — perguntou, sorrindo.

Zara rosnou para ele, o olhar fulminante.

— Calma aí, lobinha. Tô curtindo com a cara dela. — disse Draco, sorrindo de um jeito perigoso demais.

— Me tacar na fogueira não… mas aquela Kaya tem cada comentário ardiloso. — respondi.

Os dois bufaram.

— Kaya se gaba da linhagem perfeitamente pura dela. Para o inferno ela e a família. Todos uns babacas. — resmungou Rocco.

Sorri, olhando para ele.

— Kaya gosta de enfrentar alguém que ela sabe que é mais… vulnerável. — emendou Draco.

— Fraca. — corrigi. — Você quis dizer fraca.

Ele sorriu de lado. — Não quis ser desagradável. — murmurou.

— Você é desagradável. — retrucou Zara, brava.

Draco apenas a encarou por tempo demais para ser considerado normal.

— Kaya é uma vadia. E como toda vadia, uma hora ela vai ter a lição que merece. — disse Hanna, mexendo no conteúdo do copo de forma desinteressada.

Rocco a olhou com os olhos brilhando. — Finalmente verei a doce Hanna atacando alguém? E uma loba ainda.

Ela apertou os olhos em desafio. — Não sou nem um pouco doce.

Ele sorriu de modo diabólico. — Eu sei.

Por um instante, pensei que se não fosse o fato de Rocco ser um lobo e Hanna uma vampira, poderia suspeitar que algo rolava entre eles. Balancei a cabeça. Já tinha confusão demais para criar histórias.

Agora eu tinha aulas particulares com Fenrys e Daemon. Sempre me revezava entre os dois. Assim que terminei de comer, me despedi do quarteto e fui para a biblioteca encontrar Daemon.

Ele já estava lá, a luz do campus atravessando os vitrais das janelas. Era estranho como aquele homem me parecia… familiar demais.

Daemon se virou com elegância, os olhos azuis elétricos e intensos fixos em mim. — Olá, Kallista.

Sorri, indo até a mesa onde ele estava sentado. — Pelo menos um professor que não troca meu nome ou me chama de pestinha.

Ele riu de um modo carinhoso. — Fenrys é… um lobo peculiar.

Torci o nariz. — Fenrys é muito mal-humorado… mas até que simpatizo com ele. Não que algum dia ele vá saber disso. Se eu disser, com certeza vai rosnar e dizer: “Ainda bem que isso não é da minha conta, pestinha.”

Daemon riu com minha imitação, e acabei sorrindo ao vê-lo sorrir.

— No fundo, Fenrys se preocupa com você. Muitas pessoas se preocupam com você. — disse Daemon.

— Era amigo do meu pai também? — perguntei sem pensar.

O sorriso dele vacilou. — Sou um pouco mais novo que Fenrys. Quando entrei… pouco tempo depois ele… — deixou a frase morrer. Eu entendi. — Mas era muito amigo da sua mãe. — completou, pegando alguns livros.

Engoli em seco. Não queria perguntar, mas não consegui segurar. — Como ela era?

Daemon sorriu. — Uma força indomada da natureza. Kath… lembra muito você.

Podia jurar que havia um tom emotivo na voz dele.

— Não me pareço com nenhum dos dois. — murmurei, tentando não soar chateada.

Ele riu, negando. — Ainda não amadureceu. Não temos um híbrido há quinhentos anos. Não sabemos como você vai ficar no seu amadurecimento. — fez uma pausa. — Mas esse gênio com certeza é da sua mãe. O jeito afiado de responder, ou como se controla para não dar na cara de alguém.

Ri ao ouvir. Ele riu também.

— Talvez por isso Fenrys implique tanto com você. Ele e sua mãe viviam trocando farpas. Lembro dele a chamar de “demônio ruivo.”

Ri alto ao ouvir isso, o que fez Daemon sorrir. — Bom saber que ele é criativo desde novo com apelidos.

Ele sorriu, concordando.

— Daemon… sobre não ter híbridos no nosso reino. Isso quer dizer que há híbridos em outros reinos?

Ele me olhou, depois ao redor, e suspirou. — De verdade, não sei. Não sabemos muita coisa sobre o reino feérico. Só que é governado por um rei feérico relativamente novo, com uma corte não muito comum, mas que funciona.

Assenti, tentando entender. — Oberon, né? Luke comentou que foi enviado por ele para me proteger.

Daemon pareceu tenso, mas assentiu. — Oberon é um cargo, não um nome. No mundo feérico, não são chamados de reis ou rainhas, nem mesmo princesas. Lá, Oberon é rei, Titania é rainha e Tryamon é princesa.

Meu coração de historiadora se aqueceu. Fascinante ver aquele rolo de história se desenrolar diante de mim.

— Mas… prefiro que não comente sobre isso perto dos outros. Só comigo ou com Fenrys. Temos mais… flexibilidade para essas coisas do que os demais.

Assenti, entendendo o recado. Só os dois não eram contra eu saber o que precisava saber.

— Pois bem. Vamos lá. Você precisa decorar as leis. — concluiu Daemon, abrindo os livros diante de mim.

Esfreguei os olhos diante daquelas folhas intermináveis de leis. Como eu ia decorar tudo aquilo? A única que já estava gravada em mim era óbvia: Lei da União Proibida. Eu mesma era a lembrança constante dessa lei, filha de uma união proibida. Fechei o livro com força e olhei para trás, certificando-me de que não havia acordado Zara ou Hanna. Nenhuma delas se mexeu.

Com um suspiro, fui até a escrivaninha e puxei o diário de couro. A caneta dourada descansava ali. Fiquei batendo a ponta contra o papel, pensando no que escrever.

“Está aí?” — perguntei.

Logo a resposta surgiu: “Sim.”

Mordi os lábios, suspirei. “Você mora aqui? No mundo sobrenatural?”

As palavras sumiram. O silêncio me deixou inquieta. Quando já achava que não voltariam, surgiram de novo: “Não.”

Inclinei-me, nervosa. “Do mundo humano então?”

De novo, a resposta: “Não.”

Meu coração acelerou. Devia ter ligado os pontos. Se Luke foi mandado por Oberon, então ele era do reino feérico. Como eu ia perguntar aquilo?

“Vamos, Kallista. Sinto a pergunta na sua hesitação.”

Rapidamente escrevi: “Você é um feérico?”

A resposta veio: “Sim.”

Labaredas tomaram conta das minhas veias.

“Sei que tem perguntas, mas ainda não está pronta para as respostas.”

Apertei a caneta, irritada. “Como sabe que não estou preparada?”

E então, faltou até o ar quando li: “Só pelo jeito de apertar essa caneta, ou como se move inquieta, dá para saber que está nervosa.”

Olhei em volta, disparada. A escuridão além da janela não mostrava nada. Bem… não com minha visão humana.

As palavras surgiram de novo: “Não estou aí, Kallista. A magia vai muito além do campo limitado da visão.”

Magia. Essa palavra ecoou na minha cabeça. E depois… nos meus sonhos.

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