Capítulo 7

Clara sentiu o polegar dele roçar de leve sua pele, um gesto quase inocente que, no entanto, enviou ondas de calor por todo o seu corpo. O coração dela batia tão forte que parecia querer saltar do peito. Os olhos de Julian estavam fixos nos dela, aquele castanho esverdeado agora escurecido pela determinação e por desejo. Um desejo que ele não se dava mais ao trabalho de disfarçar completamente.

Por um segundo, o mundo ao redor desapareceu. O barulho das crianças no parque, o vento nas árvores, o som distante de carros na Avenida Pedro Álvares Cabral, tudo se dissolveu. Só existiam os dois. O polegar dele em seu queixo. A respiração dele misturando-se à dela. A boca dele tão perto que Clara conseguia sentir o calor que emanava dos lábios dele.

Ela queria dizer sim. Queria se entregar àquela promessa de proteção, àquela voz grave que fazia suas pernas tremerem, mas o medo de Gustavo era como uma corrente enferrujada presa em torno de seu pescoço.

— Julian… eu não posso simplesmente desaparecer. Ele vai surtar. Vai ligar para todo mundo que eu conheço. Vai fazer um escândalo no meu trabalho. Ele… ele sabe onde minha mãe mora.

Julian não soltou seu queixo. Em vez disso, acariciou a linha do maxilar dela com o polegar, um toque lento e deliberado que fez Clara prender a respiração. Ela sentiu os mamilos endurecerem contra o tecido do sutiã e odiou o próprio corpo por reagir assim num momento de pânico.

— Eu não estou te pedindo pra desaparecer pra sempre — murmurou ele, a voz baixa, quase íntima. — Estou te pedindo pra não voltar pra casa hoje. Meu apartamento fica no Vila Madalena. É seguro. Tem portaria 24 horas, câmera, e Gustavo não sabe quem eu sou. Você dorme no quarto de hóspedes. Eu durmo no sofá. Amanhã cedo eu te levo onde você quiser. Delegacia, casa de uma amiga, terapia… o que você precisar.

Clara engoliu em seco. Lágrimas ainda escorriam pelo seu rosto, mas agora havia algo diferente nelas. Não era só medo. Era esperança misturada com um desejo tão forte que chegava a doer entre suas pernas. Ela estava molhada. Só pelo toque no queixo. Só pela forma como ele a olhava como se ela fosse a coisa mais preciosa e mais desejável do mundo.

— Por que você está fazendo isso? — sussurrou ela. — Você mal me conhece.

Julian sorriu. Foi um sorriso pequeno, torto, com aquela covinha aparecendo na bochecha esquerda. O mesmo sorriso que tinha usado para fazê-la rir mais cedo. Mas agora havia camadas nele. Proteção. Luxúria. Algo que parecia estar crescendo rápido demais.

— Porque quando eu te vi anteontem na rua, algo dentro de mim acordou. Eu não sou o tipo de cara que se apaixona fácil, Clara, mas ver você sendo tratada daquele jeito… ver o medo nos seus olhos… mexeu comigo de um jeito que eu não consigo explicar e hoje, te vendo rir… caralho, aquele riso. Eu quero ouvir ele todo dia.

Ele soltou o queixo dela devagar, mas não se afastou. Em vez disso, pegou a mão dela, entrelaçando os dedos. O toque era firme. Seguro. E enviava faíscas direto para o centro do corpo dela.

— Vamos. Gustavo disse que está vindo pra cá. Não vamos dar esse gostinho pra ele.

Clara deixou que ele a guiasse. Caminharam rápido pelo parque, cortando caminho por trilhas menos movimentadas. Julian mantinha o corpo grande ao lado dela, quase como um escudo humano. Ela notava cada detalhe: a forma como a camiseta preta grudava nos músculos das costas dele por causa do suor seco do treino, o movimento dos ombros largos, o cheiro masculino que ainda permanecia nele. Cada vez que o braço dele roçava no dela, Clara sentia um choque.

Eles saíram do parque pela saída da Avenida República do Líbano. Julian chamou um Uber pelo aplicativo. Enquanto esperavam, ele ficou de frente para ela, bloqueando o vento e qualquer visão de quem pudesse passar.

— Me conta uma coisa boa — pediu ele, tentando aliviar a tensão. — Qualquer coisa. Um filme que você ama. Um livro. Uma comida que te faz feliz.

Clara piscou, surpresa com a mudança de tom. Ele estava sendo o palhaço de novo. O leve. O que fazia piada para desarmar o medo.

— Brigadeiro de colher — respondeu ela, a voz ainda trêmula. — Com bastante chocolate 70%. E… “Orgulho e Preconceito”. O livro, não o filme.

Julian abriu um sorriso largo.

— Ah, então você é do time do Darcy. Eu devia ter imaginado. Mulher com olhar triste sempre tem queda por homem arrogante que no fundo é um protetor. Eu sou mais o Bingley. O amigo palhaço que faz todo mundo rir enquanto o outro conquista a menina.

Clara soltou uma risada fraca. Julian aproveitou o momento, inclinando a cabeça.

— Olha… ela riu de novo. Estou melhorando minha média.

O Uber chegou. Julian abriu a porta para ela e sentou ao lado, mas deixou espaço suficiente para que Clara não se sentisse pressionada. Durante o trajeto até o Vila Madalena, ele contou histórias absurdas de suas apresentações como palhaço. Como uma vez uma criança de quatro anos havia pedido para ele “fazer mágica e sumir com o pai chato”. Como outra vez ele havia caído da cadeira durante uma apresentação e transformado o tombo em parte do show.

Clara riu. De verdade. Um riso que começou pequeno e foi crescendo até ela cobrir a boca com a mão, envergonhada. Julian olhava para ela como se aquele som fosse a coisa mais bonita que ele já tinha ouvido. Seus olhos queimavam novamente. Desciam para a boca dela, para o movimento dos seios quando ela ria, voltavam para os olhos. A tensão sexual dentro do carro era perceptivel.

Quando chegaram ao apartamento dele, um loft moderno, com paredes de tijolo aparente, equipamentos de esgrima encostados num canto e uma cozinha americana organizada, Julian cumpriu a promessa. Mostrou o quarto de hóspedes, deu a ela uma camiseta limpa dele para dormir (que cheirava deliciosamente ao sabão que ele usava) e preparou um macarrão simples com molho pesto enquanto ela tomava banho.

Eles comeram sentados no sofá. Julian colocou uma playlist leve de jazz e MPB. Não tentou nada. Não se aproximou demais. Mas cada olhar, cada sorriso, cada vez que ele esticava o braço para pegar a taça de vinho e os músculos do antebraço dele se destacavam, fazia Clara apertar as coxas uma contra a outra.

Ela dormiu pouco aquela noite. A camiseta dele era grande demais, mas o tecido macio roçava seus mamilos sensíveis. Ela ficou acordada por horas, imaginando o corpo dele sem camisa no parque, imaginando aquelas mãos grandes deslizando por sua pele, imaginando como seria sentir o peso dele sobre ela.

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