Mundo ficciónIniciar sesiónEles pararam perto de um banco de madeira meio escondido por arbustos floridos. Sentaram-se. Julian abriu o saco de doces e ofereceu um brigadeiro. Quando ela esticou a mão, os dedos dele roçaram nos dela de propósito. O toque foi breve, mas suficiente para enviar uma corrente elétrica direto para o centro do corpo dela.
— Me conta um pouco de você — pediu ele, mordendo um pão de queijo. — Não a versão triste. A versão verdadeira. O que você fazia antes dele?
Clara ficou em silêncio por quase um minuto, olhando para o lago. Os patos nadavam tranquilamente. Ela invejava a simplicidade da vida deles.
— Eu trabalhava numa livraria pequena no centro. Sonhava em ter a minha própria. Lia muito. Romance, suspense, um pouco de erótica quando ninguém estava olhando — confessou com um sorriso envergonhado. — Eu era… mais leve. Dançava sozinha no quarto. Fazia planos malucos de viajar pela América Latina de mochila.
Julian ouvia com atenção total. Não interrompia. Apenas observava. E seus olhos continuavam queimando. Cada vez que ela falava, ele inclinava o corpo um pouco mais na direção dela, como se quisesse absorver cada palavra.
— E como você conheceu o Gustavo? — perguntou ele finalmente, mantendo o tom leve, mas os olhos sérios.
Clara suspirou. Era a primeira vez que falava disso com alguém que não fosse terapeuta (e ela não ia mais à terapia porque Gustavo havia proibido).
— Ele era cliente da livraria. Bonito, educado, bem-sucedido como engenheiro. No começo era perfeito. Flores, jantares, elogios. Depois… começou devagar. Primeiro foram comentários sobre minhas roupas. Depois sobre minhas amigas. Depois sobre meu sorriso para outros homens. Em dois anos eu parei de sorrir para qualquer um. Parei de me reconhecer.
Ela contou superficialmente, sem entrar nos detalhes mais feios. Não falou das marcas no braço que ainda doíam, nem das ameaças de destruir sua reputação, nem das vezes em que ele a encurralava contra a parede e gritava até ela chorar. Mas falou o suficiente.
— Ele controla meu celular, meus horários, minhas redes sociais. Sabe onde eu estou o tempo todo.
Julian ficou em silêncio. Seus punhos se fecharam sobre as coxas musculosas. A camiseta esticou nos ombros com a tensão. Quando ele falou, a voz estava controlada, mas havia uma borda afiada por baixo.
— Ele não vai te tocar de novo, Clara. Não enquanto eu respirar. Eu não sou de prometer coisas que não posso cumprir, mas isso… isso eu posso prometer.
O olhar dele estava fixo no dela agora. Não havia mais humor. Havia desejo puro, protetor, quase selvagem. Clara sentiu o ar faltar. Ela percebeu que havia se aproximado sem notar. Seus joelhos se tocavam. O calor do corpo dele irradiava para o dela.
Julian esticou a mão lentamente e colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha dela. O polegar roçou o lóbulo da orelha. Clara estremeceu visivelmente. Ele notou.
— Você sente também, não sente? — perguntou ele, quase num sussurro. — Essa coisa que queima quando a gente se olha.
Clara assentiu, incapaz de mentir.
— Sinto. Mas eu tenho medo, Julian. Medo dele. Medo de mim. Medo do que vai acontecer se eu deixar isso crescer.
— Eu sei. Por isso não vou te pressionar. Mas também não vou fingir que não quero te beijar desde o momento em que te vi ontem na rua. Não vou fingir que não penso no seu riso, no seu cheiro, no jeito como você me olhou quando eu estava sem camisa.
As palavras pairaram no ar como fumaça. Clara sentiu o clitóris pulsar. Estava molhada. Só com palavras. Só com o olhar dele queimando sua pele. Ela olhou para a boca dele. Julian percebeu e umededeu o lábio inferior inconscientemente.
Por um segundo, pareceu que ele ia se inclinar e beijá-la. O corpo dele inclinou-se. Clara sentiu o hálito quente dele contra seus lábios.
Então o celular dela tocou.
O toque estridente quebrou o feitiço. Clara olhou para a tela e sentiu o sangue gelar.
Gustavo.
Ela atendeu com as mãos trêmulas, colocando no viva-voz sem querer de tanta pressa.
— Onde caralho você está, Clara? — A voz de Gustavo explodiu no aparelho, alta o suficiente para Julian ouvir tudo. — Eu acabei de chegar em casa e você não está aqui! O GPS do seu celular mostra que você está no Ibirapuera! Com quem você está, sua vadia? É aquele filho da puta de anteontem, não é?!
Julian ficou rígido ao lado dela. Seus olhos, que segundos atrás queimavam de desejo, agora queimavam de raiva controlada. Ele fez menção de pegar o telefone, mas Clara negou com a cabeça, desesperada.
— Eu… eu só vim caminhar, Gustavo. Sozinha. Por favor, não…
— Sozinha uma porra! Eu estou indo pra aí agora! Se eu te encontrar com aquele merda, vou matar ele na sua frente e depois cuido de você! Fica exatamente onde está!
A ligação caiu.
Clara ficou paralisada, o celular escorregando de sua mão trêmula. Lágrimas quentes desceram pelo rosto. Todo o progresso do dia, o riso, o desejo, a sensação de estar viva, se esvaiu em segundos.
Julian pegou o celular dela do chão e o entregou de volta. Sua mandíbula estava travada, os músculos do pescoço tensos. Mas quando falou com ela, a voz voltou a ser gentil, embora carregada de determinação.
— Clara, olha pra mim.
Ela obedeceu. Os olhos dele ainda queimavam, mas agora era diferente.
— Você não vai voltar pra casa hoje. Não com ele assim. Vem comigo. Meu apartamento fica a quinze minutos daqui. Você fica lá hoje, dorme no quarto de hóspedes, e amanhã a gente pensa no que fazer. Eu não vou te tocar. Não vou forçar nada, mas também não vou te deixar voltar pra aquele monstro.
Clara queria dizer sim. Queria desesperadamente. Mas o medo era maior.
— Ele vai te encontrar, Julian. Ele sempre encontra.
Julian segurou o queixo dela com delicadeza, obrigando-a a manter o olhar. O toque era quente, seguro e ao mesmo tempo, carregado de toda a tensão sexual que havia se acumulado entre eles durante a tarde inteira.
— Então que ele venha. Porque da próxima vez que eu colocar as mãos nele, não vai ser só um soco.







