Capítulo 5

Clara acordou com o coração ainda acelerado da noite anterior. O relógio marcava seis e quarenta da manhã. Ao seu lado, Gustavo dormia pesado com o hematoma no maxilar agora num tom arroxeado feio que se espalhava até a bochecha. Ela ficou imóvel por longos minutos, observando o teto rachado do quarto, revivendo cada segundo do dia anterior como um filme em looping: O soco de Julian, o corpo suado dele treinando esgrima sem camisa, o sorriso com covinha. A forma como sua própria mão havia descido entre as pernas no escuro, imaginando aquelas mãos grandes e cheias de veias tocando-a em vez das dela.

A vergonha veio forte, misturada com um desejo que ela não sentia há anos. Gustavo nunca a fizera se tocar pensando nele. Nos últimos tempos, sexo com ele era uma obrigação rápida, dolorosa e humilhante, sempre terminava com ele gozando e virando de lado, deixando-a vazia e suja. Mas Julian… só de lembrar do V profundo do abdômen dele desaparecendo na calça de moletom, Clara sentiu um latejar familiar entre as coxas novamente.

Ela se levantou com cuidado, tomou banho quente e vestiu uma blusa de manga curta, era arriscado, mas o hematoma no braço já estava amarelando e podia ser disfarçado com base. Colocou uma calça jeans confortável, calçou tênis e saiu de casa dizendo que ia caminhar no parque “para clarear as ideias”, como fazia de vez em quando. Gustavo, ainda sonolento, resmungou algo sobre “não demorar” e voltou a dormir.

O metrô pareceu mais longo hoje. Cada estação era uma batalha interna. Você não deveria voltar. Ele é perigoso. Gustavo vai descobrir. Você é casada. Mas outra voz, mais baixa e urgente, sussurrava o contrário: Pela primeira vez em anos você sentiu algo, sentiu vida, desejo, alegria e pelo amor de si mesma não fuja disso.

Quando chegou ao Ibirapuera, o relógio marcava exatas quatro e dez da tarde. O mesmo horário do dia anterior. Clara caminhou pelo mesmo caminho, coração batendo forte contra as costelas. O lago refletia o céu azul-claro com nuvens fofas. Crianças gritavam ao longe, um vendedor de pipoca passava tocando uma musiquinha irritante. Ela sentiu o cheiro de grama recém-cortada e terra úmida e então ela o viu.

Julian estava exatamente no mesmo lugar da véspera, mas hoje não treinava. Estava encostado numa árvore, braços cruzados sobre o peito largo, olhando na direção do caminho como se esperasse alguém. Vestia uma camiseta preta justa que marcava cada músculo do peitoral e dos braços, e a mesma calça de moletom cinza que parecia indecentemente baixa nos quadris. Quando a avistou, seu rosto inteiro se transformou. O sorriso lento, safado e genuíno surgiu. Aquela covinha apareceu na bochecha esquerda. Seus olhos castanhos com toques de verde brilharam.

— Eu sabia que você viria — disse ele quando ela se aproximou, a voz grave e divertida. — Mulher com olhar triste costuma voltar pro cara que a fez sorrir uma vez.

Clara parou a dois metros dele, subitamente tímida. O sol batia de lado no rosto de Julian, destacando a barba por fazer e o maxilar forte. Ele era absurdamente bonito. Não de um jeito perfeito de modelo, mas de um jeito real que fazia o corpo dela reagir antes mesmo da mente.

— Eu não tinha certeza se viria — confessou ela, a voz mais baixa do que pretendia. — Mas aqui estou.

Julian descruzou os braços e deu um passo à frente. Não invadiu o espaço dela, mas chegou perto o suficiente para que Clara sentisse o cheiro dele: sabonete, suor leve de quem havia se exercitado antes, e um toque de madeira de cedro. O mesmo cheiro do dia anterior. O cheiro que havia invadido seus sonhos molhados.

— Que bom que você está. Eu trouxe reforço hoje — disse ele, abaixando-se para pegar uma mochila atrás da árvore. Tirou de dentro dois copos de café gelado e um saco de papel com brigadeiros e pães de queijo. — Não sabia se você gostava de doce, então trouxe um pouco de tudo. Palhaço tem que estar preparado.

Clara riu. Um riso leve, quase surpreso. Julian aproveitou o momento, inclinando a cabeça como um cachorro curioso.

— Olha só… ela ri. Missão cumprida. Agora posso me aposentar como palhaço e virar só atleta gostoso.

Ela corou violentamente. Julian percebeu e seus olhos mudaram. O humor continuava ali, mas por baixo havia algo mais escuro, mais quente. Um desejo cru que ele não conseguia — ou não queria — esconder completamente. O olhar dele desceu devagar pelo rosto dela, parou por dois segundos na boca, depois desceu até o colo onde a blusa deixava à mostra a clavícula e o início dos seios. Voltou rapidamente aos olhos dela, mas o dano já estava feito.

Clara sentiu o calor subir pelo pescoço. Seus mamilos traidores endureceram contra o sutiã. Ela cruzou os braços, tentando disfarçar.

Eles caminharam devagar pela margem do lago. Julian mantinha o passo leve, descontraído, como se fosse o homem mais livre do mundo. De vez em quando ele contava uma história absurda de suas apresentações como palhaço.

— Outro dia uma criança de cinco anos me perguntou se eu era rico. Eu disse que sim, que ganhava em balas. Aí ela me pediu um milhão de balas. Tive que explicar que meu salário era mais tipo… cinquenta balas por show. Ela me chamou de palhaço pobre. Eu ri tanto que quase engoli o nariz vermelho.

Clara riu novamente, dessa vez mais alto. O som saiu livre, bonito. Julian parou de andar só para observá-la rindo. Seu olhar queimava. Não havia outra palavra. Os olhos dele pareciam carvão em brasa, fixos nos lábios entreabertos dela, na forma como o riso fazia seu pescoço inclinar ligeiramente para trás.

— Você tem um riso perigoso, Clara Mendes — murmurou ele, a voz mais rouca agora.

— Perigoso como?

— Do tipo que faz um homem querer ouvir ele todos os dias. E fazer coisas pra conseguir ouvir mais.

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