2: O Preço da Humilhação

Valentina mal conseguia se concentrar nas palavras que Laura dizia enquanto caminhavam pelo corredor do décimo segundo andar. Suas pernas ainda tremiam, e o pulso onde Luis Fernando a havia segurado latejava como se tivesse sido marcado.

— Você derramou café nele? No Luis Fernando Bracho? — Laura repetia, os olhos castanhos arregalados de puro choque. — Menina, você tem uma sorte danada de ainda estar viva. Ele já demitiu gente por muito menos.

— Eu sei... — murmurou Valentina, sentindo o estômago revirar. — Foi um acidente. O elevador deu um solavanco e... Deus, eu queria sumir.

O departamento de Marketing era amplo, moderno, com mesas organizadas em open space e grandes janelas que davam vista para a cidade. Laura a levou até uma mesa no canto, mais simples que as outras.

— Essa é a sua por enquanto. O supervisor é o senhor Ramirez. Ele é rígido, mas justo. Só... evita chamar atenção do andar de cima, tá? O Bracho tem olhos em tudo.

Valentina assentiu, tentando sorrir. Sentou-se e ligou o computador antigo que lhe foi designado. Suas mãos ainda tremiam quando abriu o e-mail de boas-vindas. Mas antes mesmo de começar a ler, o telefone da mesa tocou.

— Alô?

— Senhorita Morales? — A voz da secretária executiva era fria e profissional. — O senhor Bracho quer vê-la imediatamente na cobertura.

Valentina sentiu o sangue gelar.

— Agora?

— Imediatamente.

Laura, que ouvia ao lado, fez uma careta de compaixão.

— Boa sorte. E não chore na frente dele.

O trajeto até o elevador pareceu eterno. Quando as portas se abriram no último andar, Valentina sentiu que entrava em outro mundo. O piso era de mármore escuro, as paredes com painéis de madeira nobre e obras de arte originais. Tudo gritava poder e dinheiro.

A secretária — uma mulher elegante de uns quarenta anos — a recebeu com um olhar neutro.

— Ele está esperando.

Valentina respirou fundo e empurrou a grande porta dupla de vidro fosco.

O escritório de Luis Fernando Bracho era enorme. Atrás de uma mesa de mogno maciço, ele estava de pé, de costas para ela, olhando pela parede de vidro que ia do chão ao teto. Havia trocado a camisa manchada por uma nova, impecavelmente branca. Mesmo de costas, sua presença dominava o ambiente.

— Feche a porta — ordenou ele sem se virar.

Valentina obedeceu. O clique da porta soou como uma sentença.

Luis Fernando se virou lentamente. Seus olhos verdes a perfuraram como lâminas. Ele a analisou de cima a baixo, demorando-se um segundo a mais do que o necessário, como se estivesse avaliando uma mercadoria defeituosa.

— Valentina Morales — disse ele, pronunciando o nome como se testasse seu gosto. — Vinte e quatro anos. Formada em Publicidade com bolsa parcial. Mora com a mãe doente e um irmão adolescente em Coyoacán. Currículo medíocre, mas notas boas na faculdade.

Valentina piscou, surpresa. Ele havia pesquisado sobre ela em tão pouco tempo?

— Senhor, eu...

— Eu não permito interrupções — cortou ele, dando a volta na mesa e se aproximando. Parou a poucos passos dela. Era muito mais alto, e a diferença de altura tornava a situação ainda mais intimidante. — Você causou um problema no seu primeiro dia, senhorita Morales. E eu odeio problemas.

— Foi um acidente — repetiu ela, erguendo o queixo com toda a coragem que conseguiu reunir. — Eu já pedi desculpas. Se quiser descontar do meu salário a camisa, eu...

Luis Fernando soltou uma risada baixa, sem qualquer humor.

— Descontar do salário? Você acha que eu me importo com o dinheiro da camisa? — Ele se aproximou mais um passo. Valentina precisou inclinar a cabeça para trás para manter o contato visual. — O que eu me importo é com competência. Com controle. E você, pelo visto, não tem nenhum dos dois.

Ele estendeu a mão e, por um segundo, Valentina pensou que ele fosse tocá-la novamente. Em vez disso, ele pegou uma pasta sobre a mesa e a jogou na direção dela.

— Você não vai trabalhar no Marketing.

O coração dela disparou.

— Senhor?

— A partir de hoje, você será minha nova assistente pessoal. Até eu decidir se vale a pena mantê-la na empresa ou mandá-la embora.

Valentina sentiu o mundo girar.

— Mas... eu fui contratada para Marketing. Eu não tenho experiência como assistente executiva...

— Exatamente. — Os olhos dele brilharam com algo perigoso. — Assim você aprende a ter mais cuidado com o que derrama. Sua mesa será no ante-sala do meu escritório. Começa agora. E senhorita Morales... — Ele baixou o tom de voz, quase um sussurro. — Se errar mais uma vez, não será só o estágio que você perde. Entendido?

Valentina engoliu em seco. Queria gritar, chorar, correr. Mas pensou na mãe no hospital, nas contas empilhadas, no rosto esperançoso do irmão Carlos Daniel quando ela contou sobre o emprego.

— Entendido, senhor Bracho.

— Ótimo. Agora saia. E mande trazerem um café. Preto. Sem açúcar. E tente não derramar este.

Valentina saiu do escritório com as pernas bambas. No ante-sala, uma mesa moderna já havia sido preparada para ela. Seus poucos pertences do andar de baixo foram trazidos minutos depois.

Laura mandou uma mensagem rápida: “Ele te promoveu ou te enterrou viva?”

Valentina respondeu apenas: “Enterrou.”

O resto da manhã foi um inferno. Luis Fernando a chamou quatro vezes. Primeiro para organizar relatórios que ele nem precisava, depois para buscar documentos que poderia ter pedido por e-mail, em seguida para anotar minutas de uma reunião que ele faria à tarde. Em cada ordem, havia um tom de desprezo velado, como se ele estivesse testando até onde ela aguentaria.

Às duas da tarde, enquanto organizava uma pilha de contratos, Valentina sentiu os olhos dele sobre ela através da porta entreaberta. Quando levantou o olhar, ele a observava com aquela mesma expressão fria e calculista.

Por um instante, algo estranho aconteceu. O olhar dele desceu até os lábios dela, depois voltou para os olhos. Valentina sentiu um calor traiçoeiro subir pelo pescoço.

Ela desviou o olhar rapidamente.

“Ele é um monstro”, pensou. “Um monstro bonito, mas monstro.”

Quando o dia finalmente terminou, Valentina estava exausta. Pegou sua bolsa e caminhou até o elevador, torcendo para não encontrá-lo novamente.

Mas o destino, mais uma vez, não colaborou.

As portas se abriram e lá estava ele, sozinho dentro do elevador, olhando o celular. Luis Fernando ergueu os olhos e, por meio segundo, pareceu quase surpreso em vê-la.

Valentina hesitou, mas entrou. O espaço pareceu menor que pela manhã.

Nenhum dos dois falou durante a descida. O silêncio era denso, carregado. Quando o elevador parou no saguão, Luis Fernando saiu primeiro. Antes de se afastar, porém, virou-se parcialmente.

— Senhorita Morales.

— Sim, senhor?

— Amanhã. Sete e meia em ponto. E não traga café. Eu não confio mais no seu equilíbrio.

Ele saiu sem esperar resposta, caminhando para a saída onde um motorista segurava a porta de um Mercedes preto.

Valentina ficou parada no saguão, observando-o partir. O pulso ainda doía onde ele havia apertado mais cedo. O cheiro dele ainda parecia grudado em suas roupas.

Ela respirou fundo, sentindo uma mistura perigosa de raiva, medo... e algo que se recusava a nomear.

Aquele homem era problema.

E, por ironia do destino, agora ele era seu problema direto.

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