3: A Primeira Guerra

Valentina acordou antes do amanhecer, com o corpo dolorido de tensão acumulada. A noite anterior tinha sido quase sem sono. Toda vez que fechava os olhos, via aqueles olhos verdes frios e ouvia a voz grave de Luis Fernando Bracho repetindo suas palavras cortantes.

— Você não pode desistir no segundo dia — sussurrou para si mesma enquanto se arrumava no pequeno apartamento em Coyoacán.

A mãe, Elena, ainda dormia no quarto ao lado. O câncer havia voltado há seis meses e os remédios caros consumiam quase todo o salário que Valentina conseguia juntar. Carlos Daniel, seu irmão de dezesseis anos, já estava na cozinha preparando um café simples.

— Vai trabalhar pro diabo hoje de novo? — perguntou ele, tentando aliviar o clima com humor.

— Ele não é o diabo... é pior — respondeu ela, forçando um sorriso. — Mas é o diabo que paga as contas da mamãe.

Ela chegou à Grupo Bracho exatamente às 7h25. Queria ter tempo de se preparar antes das 7h30 que ele havia exigido. Quando entrou no ante-sala do escritório presidencial, Luis Fernando já estava lá. De pé, ao lado da mesa dela, folheando uma pasta com expressão de desagrado.

— Atrasada — disse ele sem nem levantar os olhos.

— São 7h27, senhor.

— Para mim, é atraso. — Ele jogou a pasta sobre a mesa dela. — Organize todos esses contratos por data, prioridade e risco. Quero na minha mesa em uma hora. E prepare o relatório da reunião de ontem. Sem erros.

Valentina mordeu a língua e assentiu. Sentou-se e começou a trabalhar imediatamente. Os minutos seguintes foram um verdadeiro teste de paciência. Luis Fernando a chamava a cada quinze minutos. Ora para buscar um café (o terceiro da manhã), ora para refazer uma planilha que ele mesmo havia mudado de ideia, ora simplesmente para observá-la trabalhar enquanto fingia ler documentos.

Cada vez que ela entrava no escritório dele, sentia o peso daquele olhar. Não era apenas raiva. Havia algo mais. Uma intensidade que a deixava desconfortável, como se ele estivesse dissecando cada gesto seu.

Por volta das dez horas, a porta do elevador privativo se abriu e uma mulher entrou no andar. Alta, loira, com um corpo escultural e um vestido de grife que custava mais que o aluguel de Valentina por um ano inteiro. Camila de la Fuente. Valentina a reconheceu imediatamente — fotos dela circulavam nos sites de fofoca ao lado de Luis Fernando meses atrás.

— Bom dia, querido — ronronou Camila, entrando no escritório sem bater.

Valentina tentou não olhar, mas era impossível. A voz da mulher era doce demais, artificial. Luis Fernando não se levantou para recebê-la, apenas inclinou a cabeça.

— Camila. O que você quer?

— Não posso visitar meu noivo sem motivo?

— Ex-noivo — corrigiu ele, seco.

Valentina sentiu um estranho aperto no peito. Não era alívio. Era... curiosidade? Ciúme? Ela balançou a cabeça, afastando o pensamento ridículo. Ciúme de quê? Aquele homem era um monstro.

A conversa entre os dois se elevou rapidamente. Camila reclamava de algo sobre um evento beneficente, exigindo que ele a acompanhasse. Luis Fernando respondia com frieza cortante. Em determinado momento, ele ergueu a voz:

— Já disse que não. E pare de aparecer aqui sem avisar. Tenho trabalho a fazer.

Camila saiu do escritório visivelmente irritada, batendo os saltos altos com força. Ao passar pela mesa de Valentina, parou por um segundo e a olhou de cima a baixo com desprezo.

— Nova assistente? — perguntou com um sorriso falso. — Boa sorte. Ele devora meninas como você no café da manhã.

Valentina não respondeu. Apenas baixou os olhos e continuou trabalhando.

O resto da manhã foi ainda mais tenso. Luis Fernando parecia de pior humor depois da visita de Camila. Ele a corrigia por tudo: uma vírgula fora do lugar, um arquivo mal nomeado, até o jeito como ela organizava os papéis.

— Você é sempre tão desleixada assim ou só quando está perto de mim? — questionou ele durante o almoço, quando Valentina trouxe os documentos solicitados.

Ela não aguentou.

— Eu sou estagiária de Marketing, senhor Bracho. Não secretária executiva. Se o senhor queria perfeição, deveria ter contratado alguém com experiência.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.

Luis Fernando se levantou lentamente da cadeira e contornou a mesa. Parou bem na frente dela, tão perto que Valentina podia sentir o calor do corpo dele.

— Você tem coragem, senhorita Morales. Isso eu admito. — A voz dele desceu para um tom perigoso. — Mas coragem sem competência é apenas estupidez. E eu não tolero gente estúpida na minha empresa.

Valentina ergueu o queixo, sustentando o olhar dele. Seus corações batiam forte. Por alguns segundos, o ar entre eles pareceu carregado de eletricidade. Raiva. Frustração. E algo mais quente, mais proibido.

— Então me demita — desafiou ela, quase num sussurro.

Os olhos de Luis Fernando desceram para os lábios dela por uma fração de segundo. Ele apertou o maxilar.

— Ainda não. — Ele se afastou bruscamente, como se precisasse colocar distância. — Volte ao trabalho. E traga meu almoço. Sem cebola. Sem molho. Você tem vinte minutos.

Valentina saiu do escritório com o rosto queimando. No banheiro, jogou água fria no rosto e tentou se acalmar. “Eu odeio ele. Odeio ele. Odeio ele”, repetia como um mantra.

Mas uma parte traiçoeira da sua mente não parava de lembrar da forma como ele a olhava. Da força daquela mão no pulso. Da presença sufocante que preenchia qualquer ambiente.

O resto da tarde seguiu no mesmo ritmo infernal. Às seis e meia, quando Valentina finalmente terminou todos os relatórios, Luis Fernando saiu do escritório já com o paletó nas mãos.

— Amanhã tem uma viagem para Guadalajara. Três dias. Você vai junto. Prepare-se.

— Eu... não posso. Minha mãe...

— Sua mãe vai continuar doente quer você esteja aqui ou não. — Ele parou na frente da mesa dela. — Ou você vai, ou está demitida. Escolha.

Valentina sentiu lágrimas de raiva queimarem nos olhos. Mas não deixou cair nenhuma.

— Eu vou.

Luis Fernando a observou por um longo momento. Havia algo diferente no olhar dele agora. Quase como... satisfação?

— Ótimo. Esteja pronta às seis da manhã. E senhorita Morales... — Ele se inclinou levemente sobre a mesa. — Tente não derramar nada em mim durante a viagem. Não prometo ser tão paciente da próxima vez.

Ele saiu sem esperar resposta.

Valentina desabou na cadeira, exausta, furiosa e... inexplicavelmente agitada.

Aquele homem era veneno.

E ela, contra toda a razão, já começava a sentir os primeiros efeitos.

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