3.2 Você quer que eu dance?

Dante

Ela continuava segurando a taça com as duas mãos, como se aquilo ajudasse a esconder o nervosismo, mas não escondia.

Lá fora, a música da boate ainda batia abafada pelas paredes do Privé Nero.

Então eu apoiei a taça na mesa de centro e, sem pensar muito, deixei a mão parar devagar sobre o joelho dela.

Só queria ver a reação.

Ela perguntou baixo:

— Você quer que eu dance?

Meu maxilar travou na hora.

Porque não tinha provocação na pergunta.

— Não. 

— Não? — Perguntou confusa.

Devagar, tirei a mão da perna dela.

— Relaxa, Isabella. Eu falei sério antes. Só quero conversar com você.

— Mas eu devo dançar.

Franzi a testa.

— Deve?

Ela assentiu devagar.

— Fazer o serviço.

A forma automática como ela falou aquilo me irritou mais do que devia.

Isabella abaixou os olhos antes de continuar:

— Você pagou por mim e eu não quero irritar o Viktor.

Então apoiei os cotovelos nos joelhos, inclinando um pouco o corpo pra frente.

— Ele faz você ter medo dele assim o tempo todo?

— Eu só… não quero problema.

— Isso não respondeu minha pergunta.

Ela abaixou os olhos quase na mesma hora.

Os dedos giraram a taça lentamente antes dela responder:

— Só… não reclama de mim pra ele.

A voz saiu cansada.

— Se você sair daqui irritado, ele desconta depois.

— Eu não tô irritado com você, Isabella.

Ela assentiu devagar, mas claramente ainda desconfiada.

O silêncio voltou por alguns instantes, menos pesado dessa vez.

Ela tomou mais um gole do vinho, depois outro.

E, aos poucos, comecei a perceber pequenas mudanças.

Os ombros dela já não estavam tão tensos e ela finalmente começou a olhar pra mim sem parecer que esperava uma ameaça a qualquer segundo.

A conversa mudou sem eu perceber exatamente quando.

Ela falou da mãe, do aluguel atrasado, de como odiava vinho forte.

De como quase caiu usando salto no primeiro dia da boate.

 O relógio no meu pulso marcou quase duas da manhã quando levantei do sofá.

Isabella pareceu perceber na hora.

O corpo dela ficou tenso outra vez.

— Você já vai?

Olhei pra ela por um segundo antes de pegar o paletó no encosto.

— Tenho coisas pra resolver amanhã cedo.

Ela assentiu devagar, segurando a taça perto do peito.

Ainda parecia confusa.

Como se não entendesse direito por que aquela noite tinha sido tão diferente do que esperava.

Fui até a porta da suíte, mas parei antes de abrir.

Então olhei pra ela mais uma vez.

E aquela sensação voltou.

Forte demais pra ser ignorada. 

Porque quanto mais eu olhava pra Isabella…

mais ficava claro que ela não pertencia àquele lugar.

Isabella

A porta fechou atrás dele com um clique baixo.

E eu continuei parada no mesmo lugar.

Baixei os olhos devagar pro próprio vestido, ainda esperando sentir vergonha, medo, desespero…

Mas o que vinha era confusão.

Muita confusão.

Moretti não tinha tentado me tocar.

Não tinha pedido nada.

Não tinha feito perguntas invasivas.

Nem sequer olhado pra mim daquele jeito que os outros homens olhavam.

A batida na porta me fez levantar assustada e Sofia apareceu quase imediatamente do outro lado.

Os olhos passaram rápido pelo meu rosto, pelo vestido, pelo quarto atrás de mim.

Procurando alguma coisa.

— O que aconteceu?

Demorei um segundo pra responder.

— Nada.

Ela franziu a testa na mesma hora.

— Nada?

Balancei a cabeça devagar.

— Ele só… conversou comigo.

Sofia ficou em silêncio por um instante.

Como se estivesse tentando entender também.

— E depois?

— Depois ele foi embora.

Ela me encarou por mais alguns segundos antes de entrar na suíte e fechar a porta atrás dela.

— Você tá chorando?

Passei a mão rápido no rosto.

Nem tinha percebido.

— Não.

Mas minha voz saiu falhando.

E isso piorou tudo.

Sofia se aproximou devagar.

— Isabella…

Balancei a cabeça antes que ela terminasse.

— Eu não entendi.

A garganta apertou forte dessa vez.

— Eu achei que sabia o que ia acontecer quando entrasse aqui.

Minha respiração falhou por um segundo.

— Mas ele só ficou olhando pra mim como se…

Passei a mão no rosto outra vez, tentando organizar a cabeça.

— Como se eu fosse… normal.

Ela desviou os olhos por um instante antes de suspirar.

— Você não pode se apegar nisso.

Franzi a testa.

— Eu nem conheço ele.

— Não tô falando de amor, Isabella. Tô falando de esperança.

Sofia se aproximou mais um pouco.

— Homem rico gosta de brincar de ser diferente às vezes. Faz a garota baixar a guarda, se sentir segura… depois vira igual aos outros.

Balancei a cabeça rápido.

— Ele não parecia…

— Parecia o quê?

Fiquei quieta.

Porque eu não sabia responder.

Porque parte de mim ainda conseguia sentir o jeito que ele me olhava.

Calmo, sem pressa, sem aquela fome nojenta que eu já tinha aprendido a reconhecer nos outros homens dali.  Sem aquela fome nojenta que eu já tinha aprendido a reconhecer nos outros homens dali.

E isso era exatamente o que me assustava.

Sofia segurou meu braço devagar.

— Escuta pra mim, tá?

Olhei pra ela.

— Quanto mais você acreditar que alguém aqui pode salvar você… mais esse lugar destrói tua cabeça.

A garganta queimou forte.

Olhei pra porta da suíte mais uma vez.

Ainda tentando entender por que o simples fato dele não ter me tocado parecia ter bagunçado tanto alguma coisa dentro de mim.

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