3.1 Eu Não Vou Tocar Em Você

Dante

Meus dedos batiam devagar no volante enquanto o carro avançava pela avenida quase vazia.

O vidro escuro do carro refletia minha cara de merda de volta pra mim, e isso já piorava meu humor. 

Porque eu sabia exatamente o motivo daquela inquietação.

E já estava ficando irritado com ela.

Matteo soltou uma risada baixa no banco ao lado sem nem tirar os olhos do celular.

— Tá me deixando nervoso com essa porra desse barulho.

Ignorei.

Ele abaixou o aparelho finalmente e me olhou de lado.

— Então? Vai fingir até quando que não tem nada errado?

— Por que você não dirige a porra do seu carro?.

— Touché.

Ele voltou a mexer no celular por alguns segundos antes de soltar:

— É a garota da boate?

Meu maxilar travou na hora.

— Sabia.

— Cala a boca.

Ele riu de novo.

— Dante Moretti socando cliente em área VIP por causa de mulher. Isso é novidade.

— Não foi por causa dela.

— Ah, não?

Apertei os dedos no volante.

A imagem dela sentada naquele sofá passou rápido demais pela minha cabeça.

As mãos tremendo.

O jeito que olhava pro Viktor antes de responder qualquer coisa.

A porra do braço vermelho.

Alguma coisa ali tava errada.

Muito errada.

E eu odiava quando meu instinto começava a insistir em alguma coisa.

Principalmente quando eu ainda não sabia exatamente o quê.

O letreiro iluminado apareceu alguns metros à frente.

Belladonna.

A fachada da Belladonna brilhava no meio da rua escura, bonita o suficiente pra esconder toda a sujeira lá dentro. 

Encostei o carro sem pressa.

Os seguranças já abriram caminho assim que me reconheceram.

Matteo guardou o celular no bolso e olhou pra entrada da boate.

— Então me explica uma coisa.

Desci do carro sem responder.

Ele veio logo atrás.

— Se isso não é sobre a garota… por que a gente voltou aqui de novo?

Soltei um riso curto, sem humor.

— Vai pra casa, Matteo.

— Ah, então é sério mesmo.

Olhei pra ele dessa vez.

O suficiente.

Matteo levantou as mãos na mesma hora, mas ainda sorrindo daquele jeito irritante.

— Tá bom, tá bom. Não precisa me olhar como se estivesse decidindo onde esconder meu corpo.

Voltei a andar.

Os seguranças abriram a porta da Belladonna assim que me aproximei.

Viktor apareceu rápido com aquele sorriso presunçoso e seu perfume barato.

— Signor Moretti.

Apertei a mão que ele estendeu sem vontade nenhuma.

— Viktor.

Ele fez um gesto na direção da escada da área superior.

— Já deixei tudo preparado pra você.

Não respondi.

Viktor se aproximou um pouco mais, falando baixo:

— La ragazzina vergine è pronta per lei.

Subi as escadas do Belladonna já irritado.

Dois seguranças abriram a porta do Privé Nero assim que me aproximei.

Entrei sem esperar anúncio, sem cerimônia.

E então eu vi ela.

Por um segundo, meu corpo simplesmente esqueceu como respirar direito.

Isabella estava parada perto da cama, claramente desconfortável naquele vestido preto transparente que parecia ter sido feito pra deixar qualquer homem sem raciocínio.

E funcionava.

O tecido escuro desenhava cada curva do corpo dela de um jeito quase criminoso. A renda subindo pelas pernas, a transparência deixando pele demais à mostra, o cabelo caindo pelos ombros enquanto ela tentava decidir onde colocar as mãos.

Linda.

Bonita pra caralho.

Me senti um merda…

Porque antes da minha esposa… eu nunca tinha olhado pra outra mulher daquele jeito e me odiei instantaneamente por perceber isso.

Isabella levantou os olhos devagar quando percebeu minha presença.

O nervosismo nela era tão evidente que chegava a irritar, porque ninguém naquele lugar parecia perceber.

Passei a mão devagar pela barba, tentando afastar a irritação crescente dentro do peito.

Viktor realmente era um filho da puta.

— Quem escolheu essa roupa?

Ela hesitou antes de responder.

— Mandaram eu vestir.

A voz saiu baixa.

Cautelosa.

— Relaxa.

Ela não relaxou nem um pouco.

Os dedos dela continuavam apertando o próprio vestido nervosamente enquanto tentava sustentar meu olhar.

Então eu falei a única coisa que parecia importante naquele momento.

— Eu não vou tocar em você.

Desviei os olhos dela por um instante e fui até o pequeno bar da suíte.

Peguei a garrafa de vinho e servi duas taças sem pressa.

Me sentei no sofá acolchoado perto da janela e empurrei uma das taças na direção vazia ao meu lado.

— Vem cá.

Parou antes de sentar.

— Eu realmente não costumo beber.

Apontei de novo pra taça.

— É vinho dessa vez. Não vai parecer combustível.

Isso arrancou dela uma risada fraca.

E alguma coisa dentro do meu peito apertou estranho quando ouvi aquele som.

Isabella finalmente sentou, mas deixando espaço demais entre nós.

Pegou a taça com cuidado, ainda desconfiada.

Eu apoiei o braço no encosto do sofá enquanto observava ela tentar esconder o nervosismo.

Ela girou a taça devagar entre os dedos antes de finalmente tomar um gole pequeno.

Ficou em silêncio por um segundo.

Depois mais um.

Observei quando a expressão dela mudou só um pouco, quase sem perceber.

— Não tem gosto de gasolina — murmurou.

Soltei uma risada baixa pelo nariz.

A primeira realmente sincera naquela noite.

— Não. Esse aí custou caro demais pra isso.

O canto da boca dela se mexeu de leve, quase um sorriso, antes de desaparecer rápido outra vez.

Como se tivesse lembrado onde estava.

Isabella tomou outro gole, menor dessa vez, mas já menos desconfiada.

Ela percebeu que eu tava olhando quando levantou os olhos da taça.

O corpo ficou tenso outra vez.

— O quê?

Balancei a cabeça devagar.

— Nada.

Mas definitivamente não era nada.

Ela desviou os olhos primeiro e tomou mais um gole do vinho.

— O Viktor b**e em você?

Ela congelou.

A taça parou no meio do caminho antes de voltar devagar pro colo dela.

Os olhos subiram pros meus na mesma hora.

Assustada demais pra alguém que não tinha nada pra esconder.

Ela abriu a boca.

Fechou de novo.

E aquilo respondeu por ela.

Meu maxilar travou.

Porque agora eu tinha certeza.

Aquela garota não estava ali porque queria.

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