Mundo ficciónIniciar sesiónSophie Rodrigues teve de sentar-se para não entrar em pânico ao ver a quantidade de contas que precisaria pagar, Aos vinte e três anos nunca pensou que seria mãe.
Às vezes até perguntava-se como deveria ser a sensação de gerar e criar um filho. Ela só não imaginava que era tão caro! E precisava admitir: Ser mãe solo é todo dia um grande desafio, principalmente quando as crianças são gêmeas. Ainda que fosse difícil e mesmo tendo de trancar a faculdade de arquitetura, ela não se frustrou ou se arrependeu. Seus sobrinhos precisavam dela e certamente os criaria com todo amor e dedicação como sabia que sua querida irmã Sabrina o faria. Não pode evitar as lágrimas ao recordar-se da tragédia ocorrida seis meses atrás. Acidente infeliz que levou consigo a vida de sua amada irmã e Vicente, seu cunhado. Sabrina foi muito mais do que irmã, melhor amiga para todas as horas e fazia bem o papel de mãe. No qual ambas perderam para o câncer, Sophie tinha oito anos e Sabrina doze na época. Um dos motivos que a levou prometer a si mesma que cuidaria dos seus sobrinhos custe o que custar! Eles seriam muito amados. Mas, verdade seja dita: Bem que gostaria de uma ajuda financeira, gostaria para já! Há cinco meses teve de sair do estágio numa empresa requisitada que conseguiu após de se destacar na faculdade. Não havia dúvidas de que seria efetivada ao completar o curso, porém, as crianças vinham em primeiro lugar. Não confiava em deixá-los com outras pessoas para que ela trabalhasse longe, Nicolas tinha pesadelos quase sempre que dormia e Eliza entrava em pânico quando ela não estava por perto, por essa razão decidiu reabrir a marcenaria de seu falecido pai que era localizada no lugar onde deveria ser sua garagem e voltou a fazer móveis. Ela, porém, não lucrava muito. Sabrina e o marido até abriram um seguro de vida para os filhos, mas não era o suficiente, já que começaram há dois anos e as crianças estavam com seis. Os sobrinhos estudavam no período da manhã, e voltavam para casa de van, cerca de uma da tarde, nesse tempo Sophie preparava o almoço e as atividades de entretenimento. Não era atoa que não conseguia lucrar, não tinha tempo para trabalhar e isso já estava deixando-lhe a flor da pele. O que por Deus ela iria fazer? Decidiu então, dar aulas de inglês e francês algumas tardes em sua casa o difícil era encontrar alunos! O almoço seria preparado à noite logo após os pequenos dormirem. Ela trabalharia todas as manhãs com a marcenaria, porém, naquele dia em especial tomou fôlego para ir até a casa da irmã. Durante todo esse tempo não pisou os pés nem mesmo na rua mais próxima e não levou as crianças, não sabia se por sua dor ou por querer proteger eles do sofrimento da ausência. Ao entrar, foi impossível conter as lágrimas, tinha o cheiro de Sabrina por todo o lugar e estava tudo do mesmo jeitinho apesar da poeira já que não abriru a casa por meses. Era uma residência bonita, moderna e aconchegante, mas não luxuosa. A louça lavada no escorredor foi a última que sua irmã lavou, duas canecas usadas e uma garrafa térmica sobre a mesa. Sophie tocou e notou que ainda tinha café, o último que eles beberam. Tentando bloquear os pensamentos foi direto ao quarto da irmã, a cama estava impecável, o que não era novidade, não se culpou por mexer nas coisas dela, cheirar e ver as fotos. Percebeu que chorava amargamente quando um soluço esganiçado deixou sua garganta. Mexeu nas coisas do cunhado no guarda-roupas e achou uma caixa de madeira rústica que lhe chamou a atenção por conta dos cavalos esculpidos nas laterais, dentro tinha desenhos coloridos que as crianças fizeram e algumas fotos dos bebês recém-nascidos Sophie sorriu. Fotos de Sabrina e Vicente fazendo caretas e fotos deles na Dinamarca. Sophie se recordou de quase ter surtado em seus 17 anos, sua irmã disse que faria uma viagem sozinha para a Dinamarca, na época o pai delas estava se recuperando na clínica de reabilitação e como Sophie estudava igual uma condenada para conseguir entrar na universidade além de trabalhar numa loja e não ter dinheiro sobrando, muito menos passaporte não podia se dar ao luxo de acompanhar Sabrina. Imaginou que a irmã houvesse utilizado de suas economias para a viagem. Não sabia que a sempre prudente e responsável Sabrina Rodrigues cruzou o continente para conhecer um rapaz que há seis meses namorava escondido pelas redes sociais! Foi a maior insanidade e irresponsabilidade que sua irmã fez em vida! Quem aceita uma pessoa que pode muito bem não existir ou ser um psicopata pagar por toda uma viagem internacional e ir SOZINHA sem dizer a VERDADE para sua família? É claro que depois ficou furiosa quando quinze dias depois sua irmã contou toda a história, incluindo o fato de não ter sido aceita pela família endinheirada do namorado. Um ano mais tarde Sabrina teve dois bebês, e meses após isso o pai delas faleceu. Foi difícil para Sophie enfrentar tudo sozinha. Sabrina e Vicente com muito esforço conseguiram vir para o Brasil. Ficou feliz pela irmã, por ter conhecido uma pessoa maravilhosa que a amava de verdade... Sophie balançou a cabeça, afastando tais lembranças e focando no presente. Achou uma foto mal batida e manchada pelo sol, um adolescente loiro que abraçava um jovem. O adolescente era Vicente, já o outro identificável pela imagem embasada devia ser o irmão esnobe dele. Atrás da foto havia um nome ilegível, mas o sobrenome Larsen que ela reconhecia bem. Um E-mail e número de telefone internacional só então lhe ocorreu que a família dinamarquesa dele provavelmente não soube de sua morte! Não que ela se importasse com eles, já que os infelizes fizeram questão de humilhar sua irmã de todas as maneiras possíveis e deixar claro o quanto a família "Santos Rodrigues" não valiam absolutamente nada para ousar pensar em fazer parte da família "Larsen", mas, eles mereciam saber que Vicente faleceu há seis meses, já que ele carregava o sangue deles nas veias. E só por essa razão Sophie inventou de entrar em contato com o irmão dele. Apenas uma cortesia, mas de boas intenções o inferno está cheio. O infeliz Henrique estava prostrado na porta da casa dela com o rosto cínico de um traidor se auto inocentando. Sophie estava sensível com a visita a casa de Sabrina, tudo o que não queria era ter de lidar com seu ex namorado. Ela o ignorou. — Sosô, vamos conversar? — Ele pediu, Sophie interrompeu o movimento de destrancar o portão, respirou fundo e ergueu os ombros numa postura ereta de bailarina. — Não tenho nada para falar com você. — Respondeu seca. — Já se passaram seis meses, eu entendo que você precisava de um tempo, dei o meu melhor para respeitar você em cada segundo dos meus dias.... eu só, veja bem, serei promovido e meu salário vai aumentar... eu... eu sinto tanto a sua falta, eu amo você Sophie e quero ficar ao seu lado, me deixa cuidar de você e das crianças? — A hipocrisia era tão grande que ela começou a rir. — Acontece Henrique, que eu não acredito mais no amor, então, suma daqui e me deixe em paz! — O que eu fiz para você me odiar tanto? Sinto muito que tenha sido eu a pessoa a ter te dado a notícia da morte daqueles dois, mas isso não é motivo para você simplesmente terminar tudo comigo! nossa história não significou nada para VOCÊ? — Antes que percebesse a mão dela havia estralado no lado direito do rosto dele. Ele era tão mentiroso que a enjoava. Henrique a olhou embasbacado. —Você é nojento, infeliz, traidor ... como você se atreve a falar da nossa história depois de me trair no momento que eu mais precisei do seu apoio? — Berrou. A expressão de inocência e incompreensão dele era demais para ela suportar. — E-eu não sei do que você está falando, ou o m-mo... você me bateu?. — Disse o homem em sua defesa. Sophie sabia que seria perda de tempo, ele nunca admitiria, mas, não conseguiu ignorar a fúria que cresceu dentro dela. — Me diga, onde você estava quando eu precisei reconhecer os corpos queimados de S-sabrina e Vi-Vicente? ONDE! onde você estava quando Eu enterrei eles? ONDE! Onde você estava quando eu precisei do apoio para consolar as crianças? — Ele apertava o maxilar com força. — Eu... eu sou um militar Sophie, agora fui promovido a segundo tenente... Você não esperava que eu abandonasse minha carreira só porque você estava com problemas! — Exclamou abrindo os braços. Sophie ria desgostosa enquanto as lágrimas rolavam furiosas pelo rosto dela. Problemas? ele se referiu ao seu luto como mero problema? Começou a bater no próprio peito, tentando se acalmar. — É claro... você sempre foi um egoísta desprezível, Vicente tinha razão, quem dera eu tivesse lhe dado ouvidos.... se é tão inocente quanto alega Henrique, se não fez nada de errado, ótimo, viva bem, feliz e longe de mim. só.... desaparece e me deixe em paz. — Respondeu e em seguida, entrou apressada pelo portão surrado de ferro e o trancou. Ignorando as batidas e lamúrias vindas do homem fardado. Correu até o banheiro, ligou o chuveiro e se desmanchou em lágrimas, enquanto a água fria escorria sobre sua cabeça. Será que algum dia esse inferno teria fim? Precisava se recompor depressa, logo as crianças chegariam, tinha de vestir sua máscara habitual... um iluminado sorriso no rosto.






