3

Natália ouvia as risadas e os murmúrios vindos da sala. Parecia-lhe incrível que, depois de tudo o que acabara de acontecer, houvesse algo para comemorar.

Ela desceu as escadas lentamente, ainda carregando o peso da humilhação, mas sentindo uma determinação crescente.

Ao chegar, viu a mãe de Simão e a tia Cristina, ambas cercando Isabella com sorrisos radiantes, como se tivessem recebido uma estrela de cinema.

Todas riam e conversavam alegremente, mas quando perceberam a presença de Natália, seus sorrisos desapareceram na hora.

—Olhem só quem decidiu aparecer —disse a mãe de Simão com um sorriso venenoso—. A descarada da Natália.

—A descarada aqui não sou eu —respondeu Natália, sua voz trêmula, mas firme—. É aquela mulher —apontou para Isabella—, a amante do meu marido. Como podem tê-la aqui como se fosse uma convidada de honra?

A mãe de Simão bufou, cruzando os braços, enquanto a tia assentia com uma expressão severa.

—A única sem vergonha és tu —replicou Nelly, a mãe de Simão, com tom gélido—. Casaste-te com o meu filho à base de mentiras e enganos. Isabella jamais teria deixado você tomar o lugar dela no altar se você não a tivesse traído daquela forma tão horrível.

Natália sentiu uma raiva crescente que lhe queimava o peito.

Ela já estava cansada de repetir a mesma história, uma que ninguém parecia querer acreditar. Isabella havia orquestrado tudo, pedindo ajuda e depois traindo-a. Mas, como sempre, Natália ficou com a fama de vilã.

—Até quando continuarão acreditando nas mentiras dela? —exclamou Natália, frustrada—. Foi a Isabella quem me pediu ajuda porque queria fugir com um antigo amor. Foi tudo uma armadilha!

—Cala a boca! —a voz de Simão trovejou da porta, onde ele estava encostado, observando-a com desdém—. Volte para o seu quarto, Natália. Não quero ver você aqui embaixo.

—O quê? —Natália olhou para ele, incrédula—. Agora você também vai me expulsar da minha própria casa?

Simão deu um passo à frente, com o rosto sombrio.

—Eu avisei que não queria você aqui —sibilou irritado, cerrando os punhos—. Se insistires em ficar, vou te jogar na rua como um cão sarnento. Não me obrigues a fazer isso.

Natália sentiu um arrepio percorrer suas costas. Era inverno, e estava fazendo muito frio. Ele não se importava se ela congelasse?

—Está nevando, Simão... —respondeu ela, tentando controlar o tremor na voz—. Você não pode fazer isso comigo.

—Isso não é problema meu —respondeu friamente—. Se comporte ou vá embora. E não se esqueça de pedir desculpas à Isabella por ter quebrado o nariz dela.

Natália soltou um suspiro de incredulidade.

—Pedir desculpas àquela cadela mentirosa? —resmungou, cerrando os punhos.

O tapa de Simão foi tão rápido que ela não teve tempo de reagir. O golpe ressoou na sala, e a humilhação ardeu mais do que a dor.

Natália ficou paralisada por um segundo, sentindo os olhares de todos sobre ela, mas então, algo mudou dentro de seu peito. O nó na garganta se desfez e, em seu lugar, uma onda de determinação a inundou.

—Tudo bem, Simão —disse ela, erguendo a cabeça, com a bochecha ainda ardendo—. Você não precisa mais se preocupar. Amanhã mesmo vamos nos divorciar.

Um silêncio sepulcral tomou conta da sala. As bocas abertas e os olhares incrédulos enchiam o espaço.

Todos sabiam o quanto Natália havia amado Simão durante anos, como ela havia suportado cada humilhação esperando que algum dia ele a visse de verdade. Mas agora, esse amor estava se esvaindo.

Simão olhou para ela com uma mistura de surpresa e desprezo.

—Tem certeza do que está dizendo? —perguntou ele com um sibilo ameaçador—. Porque quando estivermos no tribunal, não haverá volta.

—Nunca voltaria para você —respondeu Natália, com uma firmeza que nunca antes havia sentido—. Você já não é digno disso.

Ela deu meia-volta e dirigiu-se para a porta, com a cabeça erguida e a dignidade restaurada. Justamente quando estava prestes a sair para o jardim para respirar um pouco de ar frio, ouviu Simão resmungando entre dentes.

—Tudo bem. Espero que você não se arrependa depois!

Natália não respondeu. Ela sabia, com cada fibra de seu ser, que nunca se arrependeria de deixá-lo.

Natália deixou-se cair no banco do jardim, sentindo como o vento frio de inverno cortava suas bochechas ainda avermelhadas pela bofetada. Apesar da coragem que havia demonstrado diante de todos, agora que estava sozinha, não conseguiu impedir que as lágrimas escorressem.

Ela se mantivera forte, mas a realidade a atingia com toda a sua força: há anos amava Simão, um amor que agora precisava arrancar do coração.

“Como superar um amor de tantos anos?”, pensou, cobrindo o rosto com as mãos.

As lágrimas caíam sobre suas palmas trêmulas, e cada soluço a fazia sentir-se mais vulnerável.

Como seguir em frente quando tudo o que você sonhou desmorona diante de você?

Ela havia suportado dois anos de maus-tratos, de humilhações, na esperança de que ele mudasse, de que algum dia a olhasse com amor. Mas esse dia nunca chegou.

“Por que fui tão estúpida?”, repreendia-se repetidamente. “Eu deveria ter ido embora antes, deveria ter deixado tudo para trás quando ainda tinha um pouco de dignidade.”

Agora, a dor a esmagava e, embora tivesse dado um passo corajoso em direção ao divórcio, não conseguia evitar sentir o vazio que restava em seu peito.

Simão tinha sido sua vida, sua esperança, e agora, ao decidir deixá-lo, sentia que havia perdido uma parte de si mesma.

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