Capítulo 7 Acompanhante

O cheiro de café fresco se misturava ao das torradas, criando aquele clima acolhedor que só as manhãs de folga proporcionam. Amélia observava a filha, Lizzy, que tentava equilibrar uma rodela de banana sobre a panqueca com uma concentração digna de uma cirurgiã.

— Animada?, perguntou Amélia, dando um gole em sua caneca favorita.

Lizzy levantou os olhos, que brilharam instantaneamente.

— Muito! Mãe, você acha que a Emma já cresceu desde o mês passado? A Tia Bel mandou um vídeo dela e ela parecia... maior. E mais bochechuda.

Amélia riu, lembrando-se da mensagem que recebera da amiga na noite anterior.

— Com certeza cresceu, filha. Bebês mudam em questão de dias. Quando voltarem de viagem ela deverá estar um pouquinho diferente.

— Ela é muito fofa.

- Não se esqueça, hoje a mamãe tem um jantar beneficente, vou chegar tarde, obedeça a Audrey.

O café da manhã seguiu entre risadas e planos. Para Amélia, ver a expectativa de Lizzy era tão doce quanto o mel sobre as panquecas.

Assim que deixou Lizzy na escola, seguiu para a galeria, hoje receberia um cliente muito importante e não podia se atrasar.

No passado, Amélia enfrentou a família para estudar arte, eles a expulsaram de casa, apenas a amizade de Isabel e Connor foram seu suporte durante os anos de estudo e quando tudo ficou difícil, o senhor Montenegro a ajudou. Ensinou o trabalho na galeria, a negociação, os artistas, como criar um portfólio.

Teve muita força de vontade, mas reconhecia a gentileza e paciência do chefe ao contratar alguém sem experiência e ainda ensinar tudo do zero.

Mas desde que o dono da galeria anunciou sua aposentadoria, o Sr. Montenegro, trouxe o filho dele para assumir o cargo de administrador. Era de conhecimento geral no meio artístico que Dante Montenegro era conhecido por sua falta de visão e um temperamento instável. A ideia de que a Aura Art Gallery, um dos maiores nomes do mercado, estaria nas mãos de um homem tão incompetente, era um desperdício.

O Sr. Montenegro, anos atrás, a chamou em sua sala, a elogiou por seu trabalho, e deixou no ar que ela seria a próxima a tomar conta da galeria. Por um momento, Amélia acreditou. No entanto, o senhor Montenegro nunca se comprometeu. Se dedicou àquela galeria, dando o seu melhor, trabalhando incansavelmente, acreditando que um dia tomaria conta da galeria. Mas o seu chefe, a apresentou o seu filho, um garoto mimado, com uma pose arrogante e um olhar maldoso. Foi um choque e uma decepção. No entanto, ela precisava do emprego. Engolindo o orgulho, seguiu trabalhando como sempre, mas estava cada vez mais difícil conviver com esse homem asqueroso.

- Que bom encontrar você por aqui...

A voz de Dante veio de trás de Amélia. Ela contou mentalmente e tento reprimir o asco que sentia, seus instintos gritando para se afastar.

- Eu quero trocar uma palavra com você.

Dante parou próximo e inclinou-se um pouco mais, o cheiro de um perfume caro e amadeirado preenchendo o espaço entre eles.

— A partir de hoje, meu pai não virá mais à galeria. Ele está oficialmente aposentado por... enfim, eu sou o novo administrador. Tudo, absolutamente tudo, passa por mim agora.

Ele estendeu a mão e, com as costas dos dedos, tocou levemente o braço do blazer de Amélia.

— Espero que você se lembre da gratidão ao meu pai .... e possamos trabalhar... muito próximos. Uma mulher com o seu talento e... beleza... não deve ser desperdiçada.

Amélia sentiu o estômago revirar. Havia algo errado na forma como ele olhava para ela, algo predador que a lembrava de sombras que ela lutava para esquecer. O que antes era uma insinuação agora se tornava um avanço físico deliberado. Ele aproximando-se com uma confiança invasiva que fez o ar na sala parecer rarefeito.

Agindo por puro instinto, afastou-se abruptamente, tentando manter uma distância segura.

— Sr. Montenegro, acredito que meu cliente está chegando, ela disse, a voz firme, embora seu coração estivesse começando a martelar contra as costelas.

— Se me der licença.

- Entendo. Mas... tem mais uma coisa...

- Sim...

- A apresentação no jantar hoje, eu vou conduzir pessoalmente.

Amélia sempre conduziu a apresentação nos jantares beneficentes organizados pela galeria durante os últimos anos, além de trabalhar pessoalmente na organização de todos os detalhes. Inferno! Esse homem é um lixo. Talvez seja a hora de encontrar um novo trabalho.

— Srta. Harrison? — a voz de Amber, veio de trás.

Amélia correu com uma urgência que quase derrubou Amber. Seu rosto estava pálido, e uma fina camada de suor frio brilhava em sua têmpora.

— Sim. Eu já estava indo.

Sem olhar para trás, caminhou em direção ao salão principal. Deixou Amber parada no corredor, confusa com a saída abrupta de Amélia.

Dante Montenegro, no entanto, não parecia nem um pouco abalado. Ele se encostou no batente da porta, ajustando os punhos da camisa de seda, e fixou seus olhos em Amber. Um sorriso lento e predatório surgiu em seus lábios.

— Amber, não é? — ele perguntou, sua voz voltando ao tom sedutor e macio.

— Entre um momento. Feche a porta, por favor.

A jovem, lisonjeada pela atenção do novo herdeiro, obedeceu prontamente.

— Diga-me, há quanto tempo você trabalha na Aura?

— Faz um ano agora em janeiro, Sr. Montenegro, Amber respondeu com um brilho de inocência nos olhos, lisonjeada pela pergunta.

Dante sentou-se na cadeira que pertencia ao pai, acomodando-se como um rei em seu novo trono. Ele indicou a cadeira à frente.

— Sente-se, por favor. Quero conhecer melhor quem faz esta galeria funcionar.

Amber acomodou-se, cruzando as pernas e ajeitando a saia, sentindo-se importante.

— Pretendo fazer com que as pessoas que realmente gostam daqui se sintam... recompensadas. Você gostaria de ser minha acompanhante esta noite?

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