Mundo ficciónIniciar sesiónParte 6...
Miran
Istambul – Dez anos depois
— Mas o que você pensa em fazer? — Kemal me questionou pela segunda vez em poucos minutos.
— Eu não sei bem ainda. Estou pensando — entrei na área de estacionamento — Você também poderia me ajudar a encontrar uma saída.
— Eu? E o que eu posso fazer sobre isso? A regra não foi inventada por mim.
Torci a boca, seguindo pelo caminho que o controlador de acesso me indicava.
— Eu tive que inventar desculpas como se fosse um idiota — apontou para o lado — É ali a vaga.
Parei de vez, quase atropelando um casal que surgiu do nada na frente do carro.
— Que gente desatenta — balancei a cabeça.
— Não se estressa com isso agora. Temos que pensar no que vamos dizer ao Aras. Sabe como ele é.
E como sabia. Aras Yalçin era um nome grande no meio dos negócios ligados a turismo, mas era um homem como antigamente, muito ligado à família.
Descemos e olhei na direção da entrada do salão. Muitas pessoas estavam entrando e o casal que passou na minha frente, me chamou atenção.
Na verdade foi a mulher que me puxou o olhar. Fazia muito tempo que eu não via aquela cor de cabelo. Castanho escuro, quase um chocolate de alta qualidade, com brilho, longo e espesso. Caía por suas costas nuas, em um decote grande.
Depois foi impossível não notar o resto.
Ela andava de mão dada com o homem ao lado, quase dançando. Os quadris se moviam com graça e o vestido acompanhava cada passo.
As pernas longas, a cintura marcada, a curva dos ombros aparecendo com as alças finas. E no ombro esquerdo tinha uma tatuagem. Eu não conseguia ver bem daqui, mas me parecia ser uma borboleta.
— Ei... o que está olhando? — fiz um gesto com a cabeça e ele seguiu — Ah! Entendi. — mexeu a cabeça assentindo — Que corpo, hein! Mashallah!
Fomos andando devagar. Não sei porque, mas senti uma energia diferente. Subimos os degraus, vimos alguns conhecidos e paramos para falar com eles.
Meus olhos buscaram a mulher no meio das pessoas, mas ela já tinha desaparecido para dentro do salão.
***** *****
Zeynep
— Parece que você captou exatamente a ideia que eles queriam, minha linda.
— Obrigada — sorri me sentindo orgulhosa — Deu muito trabalho, mas a equipe foi muito cuidadosa no trabalho. Ainda bem que eu tenho a Derya para organizar isso comigo — suspirei — Não sei se daria conta de tudo sozinha.
— Não tem que ser humilde, querida — Kaan passou a mão por minha cintura — Você é maravilhosa, tem ideias incríveis. — me deu um beijo de leve. — Por isso que eu te amo — piscou o olho.
— Hum... — torci o nariz de brincadeira — Então você está interessado nos meus dotes financeiros, não é?
— Mas é claro... preciso me casar com uma mulher que possa me dar boa vida.
Ele riu. Eu sei que é brincadeira, mas no fundo ele está falando sério. Kaan já me pediu em casamento antes, porém eu não aceitei.
Poderia aceitar, mas ainda não consigo dizer sim para a proposta dele. Kaan era uma pessoa especial para mim, muito especial mesmo. Mas não o suficiente para que eu dissesse sim. E isso me incomodava um pouco.
— Zeynep!
Olhei para o lado. Derya vinha agitando as mãos, com um sorriso enorme. Atrás dela vinha Firat. Os dois eram presença constante em minha vida, desde que tudo aconteceu e eu fui obrigada a aceitar ajuda de estranhos. Mas esses dois estranhos se tornaram importantes e mudaram minha vida.
Elif e Mert. Naquela noite horrorosa, eles me deram a mão e um tempo depois, me deram um caminho.
— Está atrasada! — Derya me abraçou.
— Não estou. Chegamos no horário marcado. É que o estacionamento lá fora está lotado.
— Sim... muita gente veio — bateu palminhas — Já estou prevendo contatos.
Eu ri e a abracei de novo. Derya era uma formiguinha para trabalhar. Tinha uma facilidade enorme para atrair pessoas que queriam experimentar nossos serviços e isso só fazia aumentar nossa empresa que começou de modo tímido, mas que agora tem um nome reconhecido.
— Derya, você tem que deixar minha futura esposa tirar uma folga — Kaan me puxou de volta para ele — Ainda estou tentando convencê-la a viajar comigo.
Derya me olhou. Temos um olhar só nosso, que só a gente entende.
— Ainda não posso fazer isso, Kaan. Preciso muito da minha amiga para dar continuidade aos contratos.
— É bom vocês correrem então, porque eu tenho planos para minha Zeynep.
Eu sorri, mas confesso que ainda não consigo me animar. Mudei de assunto.
— Vamos começar a interagir, então?
— Vamos... vem comigo — ela pegou minha mão — Eu devolvo já, a sua querida, está bem?
— Agradeço — Kaan fez um gesto com a cabeça.
Saímos para o lado oposto e escolhemos um canto perto do jardim onde ela começou a me contar como foi a conversa com os clientes da semana e o mais importante, Derya queria me falar como foi a conversa com Aras Yalçin, o cliente desse evento e que nós estamos tentando manter um contrato mais longo com ele.
— Bem, eu acho que dessa vez é possível pegar um contrato maior com ele, só que temos que esperar até a semana que vem para a reunião.
— Seria fantástico. Já imaginou o que isso traria para a nossa marca? — joguei o cabelo para trás — Nossa, está ventando muito aqui... vamos entrar? Já estamos fofocando a uns quinze minutos.
— Antes me diz uma coisa... que conversa é essa de casamento?
— Ai... — suspirei — Pois é... eu não sei o que fazer — olhei para dentro, mas já tinha mais gente, então não consegui ver os dois — Kaan voltou com essa ideia desde ontem à tarde — torci o nariz — Daqui a pouco vai ser difícil falar com ele.
— Amiga... — ela segurou meu braço — Tem certeza de que você não pode dar esse passo? Quer dizer... vocês se conhecem há quatro anos e estão juntos a quase um... talvez devesse tentar.
— Tentar? — neguei com o dedo — Não... casamento é coisa séria, eu não posso ficar testando.
— Mas não pode ficar solteira a vida toda — ela se inclinou para mim — Pensando no tal...
— Derya... por favor — fiz um gesto com a mão para que parasse de falar — Esse assunto é morto pra mim. Você sabe disso muito bem.
— Eu sei, mas parece que você não foi de todo honesta com o Kaan... já contou a ele seu trauma?
— E por que contaria? Eu pago um terapeuta e ainda tenho você pra fofocar — dei uma risadinha.
— Amiga, sabe que eu amo você como se fosse uma irmã — apertou os lábios — Mas acho que seu noivo merece saber da verdade.
— Ele sabe da verdade.
— Não sabe de toda verdade — ergueu as sobrancelhas — Eu nem entendo como ele aceita esse tipo de namoro... deve te amar muito — abaixou a voz — Um homem que aceita namorar uma mulher como você e não transam... é quase um milagre.
— Se ele não aceitasse, não teria namoro — mexi o ombro — Eu fui bem sincera com ele no começo, quando me disse que gostava de mim mais do que uma amiga.
— Eu sei, eu sei... mas é sério que vocês não transam?
— Fala baixo, Derya — olhei em volta — Não quero que alguém saiba.
— Vem cá... o Kaan por acaso é gay enrustido? — deu risada — Porque isso explicaria bem.
— Meu Deus, criatura — eu ri também — Não tem nada disso... ele é bem homem, tá... só que ele me respeita.
— Amiga, então ele é um santo — gargalhou e eu lhe dei um beliscão — Ai!...
— Você é muito bocuda, sabia? Nosso namoro é bem normal.
— Se é normal, por que não transam? Os casais fazem isso quando se gostam e estão juntos.
— Derya, o que eu quero falar é sobre nosso trabalho e não ficar colocando minha vida pessoal na mesa.
— Está bem. Vamos até os fundos para falar com a equipe e saber se tudo está de acordo como organizamos.
— Vamos sim.
Me virei para sair e o vento soprou meu cabelo em meu rosto e por um segundo fechei os olhos, enquanto puxava com os dedos e acabei esbarrando em uma pessoa.
— Ai! Meu Deus, eu não te vi. Me desculpe.
Minhas mãos foram direto para os braços da pessoa, buscando um apoio para não cair e ergui o rosto.
E o mundo parou.







