Mundo ficciónIniciar sesiónParte 2...
Zeynep
Quando cheguei ao coreto, subi os degraus e me virei para o jardim. Meu coração estava tão acelerado que precisei colocar a mão sobre o peito. Miran viria. Eu só precisava esperar.
O vento frio tocou minhas pernas descobertas e me arrepiei. Puxei discretamente a saia do vestido para cobrir a perna que a fenda deixava à mostra. Eu não gostava daquela roupa, mas Yarin havia dito que eu precisava parecer diferente. Que Miran precisava me enxergar.
Passei a mão pela testa. Me sinto um pouco quente.
— Esse vestido... — puxei de novo — Está me apertando... — soprei o ar — Miran, só por você eu faço isso...
Ouvi passos e meu corpo inteiro ficou tenso. Miran apareceu no caminho. Por um instante, esqueci tudo o que pretendia dizer.
Ele parou assim que me viu. Não sorriu. Seu olhar passou pelo meu rosto e desceu pelo vestido vermelho. A expressão dele se fechou.
— Zeynep?
— Eh... Oi.
Ele não respondeu e continuou olhando para mim. Senti a confiança que eu havia reunido durante toda a tarde começar a desaparecer.
— O que faz aqui... vestida desse jeito? — apontou para o vestido.
— Você não gostou?
— Não é uma questão de gostar. — a voz dele era baixa e subiu um degrau — O que faz aqui sozinha?
— Não estou sozinha — endireitei as costas — Estou com você.
— O que você quer aqui? — se aproximou, mas com a expressão fechada.
— Eu... eh... eu vim para te falar uma coisa — molhei os lábios com a ponta da língua.
— Não estou de bom humor hoje, Zeynep. Volte para o salão. Aproveite e chame sua prima para irem embora.
— Não quero ir embora — dei um passo adiante.
Miran olhou para trás e passou a mão no cabelo, depois olhou em volta. Com o coração acelerado, recordei as palavras de Yarin.
“Não perca mais tempo, se declare... diga que você o ama... Homens como Miran gostam de mulheres que elogiem, que digam o quanto são importante.”
Estiquei a mão e toquei seu braço. Ele olhou para minha mão e depois ergueu os olhos para os meus, mas eu não consegui entender o que ele pensava. Sua expressão estava diferente.
— Você está esquisita... por acaso estava bebendo?
— Eu precisava de coragem. — respondi baixinho.
Ele me olhou durante alguns segundos.
— Para quê?
Eu tinha imaginado aquele momento tantas vezes. Em nenhum dos meus sonhos, porém, Miran parecia tão sério. Voltei a me sentir trêmula. Apertei as mãos.
— Coragem... para falar com você.
— Então fale logo e depois vá para o salão — olhou para trás de novo — Vou mandar alguém te levar em casa.
— Não quero ir, Miran. — toquei seu rosto e ele se afastou, inclinando o corpo para trás — Quero falar com você.
— Agora não tenho tempo para isso, Zeynep. Deixe para amanhã.
— Não posso... tem que ser agora...
— Não me agrada esse modo estranho que você está agindo... nunca a vi desse jeito.
— Eu sei... — sorri meio sem jeito — Eu gosto de você.. não... eu mais que gosto... — engoli seco, minha coragem não estava tão certa agora, com o olhar que ele me deu — Eu...
— Cuidado com o que vai dizer, Zeynep.
Miran não se moveu, mas sua expressão me fez duvidar do que estava fazendo. Meu coração começou a bater ainda mais depressa.
— Eu... eu... — não conseguia articular a frase. Me senti estranha e levei a mão à testa.
— Está se sentindo bem?
Ele esticou a mão e me segurou pelo braço. A mão dele estava quente contra minha pele e por um instante eu não me importei que me olhasse feio, sério.
Minha respiração ficou presa, baixei os olhos para sua mão e dei um passo para trás, mas meu salto prendeu entre as madeiras do piso e antes de cair, me joguei em cima dele para buscar apoio.
Foi a primeira vez que o abracei dessa forma. Suas mãos vieram para meus braços e ergui o rosto. Parei o olhar em sua boca e molhei os lábios com a ponta da língua.
Eu já tinha esperado demais.
— Eu amo você, Miran.
Nem sei como isso saiu de minha boca, mas me senti aliviada quando expressei o que sinto. Miran desviou o olhar apenas por um instante. Meu coração se encheu de esperança.
— Você ouviu o que eu disse? — tentei tocar seu rosto, mas ele afastou — Miran...
— Que ridículo... você está bêbada — sua voz saiu rouca, em um tom pesado — Parece uma qualquer, vestida desse modo.
Arregalei os olhos. Aquela não era a resposta que eu tinha sonhado ouvir. A expressão dele era fria novamente.
— Miran... eu...
Não sabia o que fazer. Olhei para sua boca de novo e por impulso fiquei na ponta dos pés, jogando meus braços por seu pescoço, colando minha boca na dele.
A música que vinha do salão desapareceu. Até minha vergonha desapareceu. Só conseguia sentir a boca dele contra a minha. Meu coração batia tão forte que parecia ter subido para a garganta.
Eu estava beijando Miran. Miran. O homem que eu amava desde que conseguia me lembrar. Eu tinha conseguido. Ele finalmente estava me beijando.
Então senti seu corpo ficar rígido. As mãos dele seguraram meus braços e me afastou de vez. Abri os olhos e Miran me encarava.
— Você ficou maluca, garota?
Engoli tão pesado que tive que tossir. Foi mais que um balde de água fria, foi todo um iceberg em cima de mim. Minhas pernas tremeram com o modo como ele me olhava.
— Miran... eu só queria que...
— Você perdeu a noção das coisas? — ele me deu uma sacudida forte. Apertei os lábios — Eu vou me casar na semana que vem, Zeynep!
Pra mim foi como levar um tapa, um soco e um chute ao mesmo tempo. Não sei onde doeu mais. Fiquei tão chocada com o que ele disse que não conseguia abrir a boca, só tremer.
— Está agindo como uma moleca mal – criada, irresponsável... inconsequente — me sacudiu novamente e dessa vez eu até gemi de susto e minha cabeça girou — O que seus pais vão dizer quando souberem dessa palhaçada?
Ele falava alto, seco, e seus dedos apertavam minha carne. Por um momento minha cabeça ficou vazia, não conseguia pensar em nada. Abri e fechei a boca duas vezes, tentando formar uma frase, quando ouvi uma voz ao lado.
— Que diabos está fazendo, Miran?
Viramos o rosto ao mesmo tempo na direção da voz e não foi só eu quem ficou surpresa. Ele também.
— Fala... que merda é essa, Miran? — a loira alta, magra e vestida de forma elegante e muito mais sexy do que eu jamais poderia ser na vida, apontou pra mim — Que porra essa gorda, feia, está grudada em você? Explique!
Miran apertou os lábios, olhando para mim de novo e seus olhos tinham um brilho estranho agora. Então abaixou a cabeça e falou entre os dentes.
— Inferno!







