Mundo de ficçãoIniciar sessãoParte 3...
Zeynep
Eu não entendi o que estava acontecendo, minha cabeça girava e me apoiei nele. Os olhos da mulher seguiram meu gesto e vi quando encheu o peito de ar, colocando as mãos na cintura.
— Miran! — bateu o pé — É sério que você está me traindo com essa garota... — franziu o nariz ao me olhar — E faltando poucos dias para o casamento? Com isso?
Me senti mal. Da bebida, da vergonha e do modo como ela falava de mim, como se eu fosse uma coisa qualquer.
— Eu vou te falar Nehir, abaixe a voz, por favor.
— Solta ela! — bateu o pé — Quem é ela?
— Zeynep — ele olhou pra mim e apertou meu braço.
— Não perguntei o nome dessa gorda!
Eu engoli seco. Olhei para o vestido e puxei o tecido para cobrir minha perna.
— Não é o que parece, Nehir... não precisa falar assim.
— Ah... você então ainda a defende? — soltou uma risada curta — Quem é essa ridícula? Por que ela estava beijando você?
Cada palavra que ela dizia me feria mais.
— Por acaso você está me traindo... — a risada além de amarga, foi fria — Com essa coisa pequena? Ela parece mais uma anã... meu Deus... que ridículo você, Miran...
— Não precisa falar dessa forma — ele deu um passo em direção dela — É você quem está sendo ridícula e infantil agora. Vamos conversar.
— Não tem nada que conversar, Miran — a raiva dela estava clara no modo como olhava para ele — Eu vou contar tudo para meu pai e...
— Cala a boca, Nehir! Só cala a boca — Miran ergueu a mão — Ela não está bem... bebeu demais e acabou fazendo uma bobagem de menina.
Menina. Essa palavra foi bem forte. Era engraçado porque da forma como ele falava, me parecia uma ofensa também. Tanto quanto ela me chamar de gorda de um jeito tão pejorativo.
— Uma bobagem? Mesmo? — ergueu a sobrancelha, me olhando de baixo para cima — Por acaso você acha que é quem... para tentar agarrar o meu noivo? — cruzou os braços — Não sabe que ele vai se casar em poucos dias? Que vulgaridade é essa?
Casar? Miran vai se casar.
Senti minha garganta arder e meu estômago embrulhar. Respirei fundo duas vezes e olhei para ele.
— Você... vai se casar? — senti meus olhos encherem de lágrimas — Por que não me contou, Miran?
— E por que ele deveria contar?
Eu teria caído se não fosse por Miran ter me segurado pela cintura, quando ela me deu um empurrão.
— Nehir!
— Eu vi... eu vi tudo, Miran — gritei quando ela agarrou meu cabelo e puxou — Essa vaquinha pulou em cima de você... vagabunda!
Fechei os olhos quando vi sua mão erguida e em seguida, a dor que se espalhou por minha bochecha e o calor ardente na pele.
— NEHIR! Ficou maluca?
Abri os olhos quando senti suas mãos em meu rosto e o encarei, mas infelizmente, não consegui deter as lágrimas que seguiram. Meu rosto queimava.
— Não a defenda, Miran!
A mulher gritava de uma forma que até doía meus ouvidos. Eu só conseguia olhar pra ele, mas no fundo, queria que um buraco se abrisse ali mesmo sob meus pés e eu desaparecesse dentro dele.
— Não pode agredir as pessoas dessa forma... não tem noção do que faz? — a voz dele se elevou e ficou rouca.
— Quem não tem noção é essa coisa — apontou para mim — Isso não vai ficar assim, Miran... não vai!
Ela se virou e saiu gritando coisas que eu não entendi. Meu corpo estava ali, mas minha cabeça estava voando para longe. Meu coração estava apertado e eu simplesmente não conseguia me mexer.
— Você está bem, Zeynep? — ele segurou meus braços. — Que ideia absurda foi essa? Olha o que você fez?
Franzi a testa. O que eu fiz? Olhei de um lado para outro, parecendo até que iria achar uma porta mágica que me faria sair dali imediatamente.
— O que eu fiz? — repeti em voz baixa — O que você fez? — ergui os olhos para ele — Eu amo você, Miran — a confissão saiu de uma forma que eu nem esperava — E você vai se casar? — engoli pesado. Tinha um bolo na garganta.
— É claro que vou me casar — ele me sacudiu — Que ideia imbecil foi essa? Por que infernos você bebeu? Por que fez isso, Zeynep? Por que?
Acho que por um instante, eu parei de respirar. Sentia dor no corpo que nem sabia porque doía. Me senti esmagada. Minhas pernas estavam pesadas.
— Porque... — meu queixo tremeu — Porque eu te amo... e eu pensei... — uma lágrima desceu por minha bochecha que ainda queimava do tapa — Eu pensei que você... também me amava.
— Você é doida, garota? — dessa vez quando ele me sacudiu eu gritei e me agarrei em seus braços. Fiquei tonta e com vontade de vomitar — Pelo amor de Deus... você é uma criança, só tem quinze anos... eu tenho vinte e seis...
Eu fiquei olhando para o chão. Não me lembro de ter sentido tanta vergonha assim na vida. Em todos esses anos eu sempre achei que ele também me amasse. Achei que se eu mostrasse que não era mais uma criança, ele teria coragem de se confessar.
— Quem sabia do seu casamento? — nem olhei para ele, só queria descobrir — Minha família sabia?
— É claro que sim — ele passou a mão pelo rosto e soltou um palavrão — Por que acha que fiquei fora duas semanas? — abriu os braços.
— Eu... pensei que você estava viajando a negócios.
— Exato! Eu estava fazendo negócios... acertando minha vida, a vida de centenas de pessoas... — bateu uma mão na outra — Eu tenho responsabilidades, Zeynep!
Não entendi. Olhei na direção por onde a noiva dele saiu. Noiva. Ele tem uma noiva e eu decidi fazer o papel mais ridículo de minha vida justo agora.
— Yarin sabia também?
— O que isso tem a ver? — ele franziu a testa — Não venha querer colocar a culpa dessa palhaçada em cima dela. Não estou vendo sua prima aqui. Você... é você quem está aqui — apertou os lábios e puxou o ar fundo — Bêbada... vestida dessa forma — ele passou o polegar com força em minha boca — Com esse batom vermelho... parece uma...
Eu ergui o rosto. Foi difícil pra mim. Nunca Miran me olhou dessa forma. Me senti pequena de verdade. Dei um passo para trás e estremeci.
Me dei um abraço, senti minha pele fria. Eu não estava bem, mas não sabia como sair dali.
— Vamos... — esticou a mão — Eu vou te levar para casa. Mas antes, você vai entrar naquele banheiro e lavar o rosto, tirar essa maquiagem ridícula.
Comecei a chorar. Não sei de onde, consegui força para me mover e passei por ele, desci os degraus do coreto segurando o vestido para não cair e comecei a correr de volta para o salão.
Passei pelos convidados sem parar, esbarrando em algumas pessoas, mas nem pedi desculpas. Só queria sumir daquele lugar. Não olhei para trás, mas ainda ouvi quando ele chamou meu nome.
Já ia entrar no banheiro quando Yarin surgiu ao lado da amiga de braços dados. As duas tinham um sorriso malicioso.







