Abri os olhos para você

Parte 5...

Zeynep

Acordei com a porta do meu quarto praticamente explodindo pra dentro. Levantei de vez e minha cabeça doeu. Meus ouvidos zumbiram.

— Troque de roupa — meu pai apontava o dedo — Eu quero você lá embaixo agora... Levante!

Meu coração estava batendo forte. Acordar com um susto desse, depois da noite ruim que tive, quase me fez ter um infarto.

Não entendi o que tinha acontecido. Corri para o banheiro, mesmo com a cabeça meio tonta e até me bati quando entrei. Lavei o rosto, passei a escova rápido no cabelo e escovei os dentes de qualquer jeito.

Enfiei os pés nos chinelos e desci logo, mas queria não ter descido. Travei quando cheguei na sala. Miran estava sentado ao lado dos pais, minha mãe com cara de choro do outro lado e meu pai andando de um lado para outro.

— Entra... vem aqui — ele apertava os lábios — Quero que me explique o que é isso?

— O que? — evitei olhar para Miran, mas eu sentia seus olhos em cima de mim.

— Esta palhaçada — me puxou com força pelo pulso e empurrou em cima de mim um jornal — Você perdeu o juízo?

Engoli pesado. Doeu minha garganta. Segurei o jornal e li a primeira notícia, bem chamativa por sinal. Meu coração deu um pulo e o jornal tremeu em minhas mãos.

Duas fotos lado a lado. A primeira eu estava agarrada a Miran, ponta dos pés, o beijando. Na segunda foto, a noiva dele, segurando meu braço e apontando para mim.

Embaixo estava escrito: Escândalo em famílias tradicionais. Zeynep Kaya tenta seduzir Miran Karahan e é flagrada pela herdeira da família Demirhan.... Zeynep, bêbada e vestida de maneira inadequada, teria protagonizado uma cena ridícula, a poucos dias do casamento de Miran Karahan... O episódio mostra o desrespeito às tradições, à educação e valores...

Não continuei a ler. Era coisa demais e isso só fazia eu me sentir mal.

Senti uma dor fina na nuca e um amargo na garganta. De novo engoli seco. Ergui o rosto. Meu pai estava ao meu lado, expressão fechada, respirando pesado.

— Você mentiu para sua mãe — apertou meu braço e me deu um puxão — Disse que ficaria na casa de seus tios... e saiu escondida... e para quê? — me sacudiu com força e eu gritei de dor — Para agir como uma qualquer...

Fechei os olhos quando vi meu pai erguer a mão. Esperei. Nada aconteceu. Quando voltei a abrir, Miran segurava sua mão no alto e os dois se encaravam.

— Não posso permitir que faça isso, senhor Emir. — olhou pra mim — Me dê um minuto para falar com sua filha.

Eu não sabia o que fazer. Abaixei o rosto e deixei as lágrimas molharem meu rosto. Miran segurou meu braço e me guiou para o escritório de meu pai. Fechou a porta.

Minhas pernas tremiam tanto que eu precisava me sentar. Me deixei cair na poltrona de meu pai enquanto ele andava de um lado para outro, esfregando o queixo.

— Miran... — seu nome saiu quase que um murmúrio.

Ele veio até mim e puxou o banquinho de couro, sentando em minha frente.

— Por que fez isso, Zeynep? — suspirou — Não entendo... você nunca se comportou dessa forma.

Olhei para ele. Agora já não me importava se era vergonhoso ou não, se era certo ou errado. Tudo já tinha acontecido, não havia volta.

— Eu... — apertei as mãos no colo — Eu amo você, Miran — ele abaixou a cabeça e passou os dedos pelo cabelo — Eu queria que você soubesse...

— Zeynep... você é muito valiosa pra mim — respirou fundo — Mas as coisas não são como a gente quer... pelo menos não agora... — outra lágrima me escapou — Você não entende... eu não podia te contar... não era algo que eu pudesse escolher e...

— Por que vai se casar, Miran? — solucei.

— Não faça isso... está bem? Eu tenho responsabilidades — tocou meu joelho. — Eu tenho pessoas para cuidar...

— E eu? — segurei sua mão — E eu, Miran?

— Não... — apertou os olhos e abaixou a cabeça de novo — Não faça isso comigo.

— E eu? — engoli seco e funguei — Sabe quanto tempo eu te esperei? — limpei o rosto com as mãos — Eu abri os olhos e amei você... quando disse minha primeira palavra... foi o seu nome que eu chamei... — um novo soluço escapou e ele virou o rosto, mas acho que vi lágrimas em seus olhos.

— Você não entende, Zeynep — sua voz ficou rouca.

— Eu sempre esperei no portão quando eu sabia que você estava chegando do trabalho — chorei mais, não queria, mas foi mais forte do que eu — Eu esperava ter idade para ficar com você, Miran...

Ele me olhou de novo e confirmei. Ele também tinha lágrimas nos olhos.

— Eu esperei que chegasse o dia em que você também me amasse.

— Mas eu amo você, pequena — passou a mão por meu cabelo e segurou meu rosto — Você sempre foi minha irmãzinha... minha boneca linda...

Fechei os olhos por um momento. Minha garganta doía mais. Sentei mais na ponta da poltrona e segurei suas mãos.

— Eu não sou sua irmã... — balancei a cabeça — Não sou, Miran.

— Eu queria que tivesse algo que pudesse fazer — apertou os lábios — Mas não há... preciso consertar essa bagunça...

Meu pai entrou no escritório parecendo um furacão.

— Já chega! Vem aqui — gritei quando ele me puxou pelo cabelo — Você queria jogar o nome da família na lama? Queria ser uma vagabunda, se oferecendo para um homem comprometido?

— Senhor Emir...

— Não se meta... com você eu falo depois.

Saí sendo arrastada pelo cabelo. Foi outro momento de vergonha que eu nunca vou esquecer. Quando chegamos na sala de novo, tive outra surpresa. Um susto, na verdade.

Além dos pais de Miran, agora também estavam a noiva dele e pelo modo como estavam juntos, os pais dela. Todos me olharam como se eu tivesse alguma doença contagiosa.

— É ela?

— Sim, ela mesma, papai — Nehir disse com um tom de voz choroso — Foi ela quem me fez passar toda essa vergonha... ela quer tirar Miran de mim.

— Nehir, o que está fazendo aqui? — Miran entrou na sala e também ficou surpreso em ver todos ali.

— Você não fale com minha filha — o homem apontou para ele — Não pense que essa vergonha vai ficar assim.

— Eu falo com calma depois, senhor Yamam... por favor, vão para casa, eu passo depois e podemos...

— Não tem depois. Isso vai ser resolvido agora — ele se aproximou de Miran — Não vai haver mais casamento nenhum, os acordos estão cancelados e você — apontou para meu pai — Vai ter que limpar a sujeira que sua filha fez.

— Todos estão comentando sobre esse escândalo — a esposa falou, abraçada a Nehir — Já nos ligaram para saber o que houve... tem fofocas nos jornais locais, tem gente na internet falando sobre isso... é muita humilhação.

— Tenham calma, nós já estamos resolvendo isso — o pai de Miran tentou intervir — Foi tudo um mal entendido.

— Mal entendido? — ele gargalhou — O que vai ficar mal aqui serão vocês — gesticulou com irritação — Quem machuca minha filha, está me atacando diretamente — olhou pra Miran — E essa vergonha será cobrada com juros. — me encarou — Você é uma garota vulgar... uma mulher que se j**a nos braços de um homem que está praticamente casado — estalou a língua — Sua educação foi falha.

— Olhe aqui, Yamam — meu pai me soltou e eu quase caí — Você está em minha casa. Tenha cuidado com suas palavras.

— Quem precisa ter cuidado são vocês — ele apertou os punhos — Pode ter certeza de que isso vai sair caro. O nome de minha família não vai ser prejudicado por culpa de uma adolescente no cio.

Minha mãe cobriu a boca com a mão e arregalou os olhos quando ele disse isso. Olhou para meu pai que estava vermelho e antes que ele desse uma resposta, ela desmaiou.

Nem sei quem começou a briga. Quando vi, meu pai já estava dando um soco no pai de Miran, a mãe dele gritou e segurou o marido, Miran tentava separar os dois e enquanto isso, minha mãe estava caída no chão.

Corri para ela e toquei seu rosto. Estava fria. Dei alguns tapinhas de leve para que voltasse a si e quando ergui a cabeça, recebi o olhar mais frio de alguém.

Infelizmente, era Miran.

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