Mundo de ficçãoIniciar sessãoParte 4...
Zeybep
— E então? Como foi? — a amiga dela questionou e me empurrou para dentro do banheiro, fechando a porta — Se declarou para ele?
Eu olhei para Yarin. O sorriso dela era tão frio, tão estranho. Me deu um frio na barriga. Então eu entendi.
— Você fez isso de propósito.
— Sim — ela estalou a língua.
— E ainda assim me fez passar por isso? — o bolo na minha garganta queria sair. Estava me segurando — Você é minha prima... como pôde fazer isso comigo?
— Ah, não seja tão ridícula, Zeynep — empurrou meu ombro — Devia me agradecer, eu te fiz um favor.
Pisquei várias vezes. A risada delas me doía.
— Eu fui humilhada... aquela mulher... — comecei a chorar de novo e me encostei na pia — A noiva dele... — minha voz saiu baixa e rouca — Ela me disse um monte de coisas... me xingou...
— Tome isso como uma grande ajuda — a amiga de Yarin passou o braço por meus ombros — Agora você entendeu quem realmente é o Miran. Ele não vale seu amor.
Eu olhei pra ela sem entender.
— E me dá um descanso também — Yarin gargalhou, cruzando os braços — Eu já não aguentava mais ouvir você falar dele — começou a gesticular me imitando — Ai, Miran... Ai, eu acho Miran tão inteligente... Miran é tão lindo... Miran isso... Miran aquilo... — bateu o pé — Agora você sabe que ele é só mais um, como qualquer outro, não tem nada de especial.
— Se pensava dessa forma, porque apenas não me falou? Precisava me fazer passar por isso — solucei.
— Zeynep, você é muito mimada. Para de chorar — foi para a frente do espelho, mexendo no rosto — Eu sabia que ele ia se casar, mas se eu tivesse contado, você iria só ficar chorando e enchendo meus ouvidos com suas bobagens — virou para mim — Eu te fiz um favor. Me agradeça.
— Pois é... não seja tão infantil.
— E você? — fui pra cima da amiga dela — Quem é você pra me ajudar em alguma coisa?
— Oi? — ela ergueu as mãos e riu — Não vem descontar em cima de mim, não. Quem mandou ser burra? Estava na cara que Miran nunca gostou de você de verdade.
Meu queixo tremeu. Respirei fundo várias vezes e corri para a cabine, batendo a porta. Quase não tive tempo de levantar a tampa e vomitei tudo de vez. Queria que essa noite também saísse junto com o vômito e aí eu só tinha que dar descarga e apagar essa vergonha.
— Zeynep... — Yarin bateu na porta — Sai daí... deixa de frescura. Vamos aproveitar o resto do evento — não respondi — Vem... vamos andar pelo salão e falar com alguns homens interessantes de verdade.
Dei descarga, puxei um monte de papel higiênico e limpei a boca. Fechei os olhos, encostada na parede, respirando fundo. Comecei a suar. Eu tinha que ir embora.
— Zeynep, abre logo!
Ouvi as risadas do outro lado e tapei a boca, tentando abafar o choro. Eu tinha vindo para o evento com Yarin, mas não queria ficar nem um minuto a mais perto dela.
Mas se eu ligasse para minha mãe, ela ficaria preocupada comigo e com certeza viria me buscar junto com meu pai.
— Olha, a gente vai te dar um tempo... depois que lavar a cara, vem encontrar com a gente. Estou com fome.
Esperei um pouco e abri a porta devagar. Realmente elas não estavam. Meu reflexo no espelho até me assustou. A maquiagem borrada do choro, o cabelo assanhado. Não estava nada bom o que eu via.
Me assustei quando a porta abriu de vez, mas não era nenhuma das duas. A mulher também se assustou comigo e parou, me analisando.
— Desculpe... você está bem? — franziu levemente os olhos — Está passando mal?
Eu só neguei com a cabeça. Ela entrou em uma das cabines e eu fiquei parada me encarando pelo espelho. Quando ela saiu, parou ao meu lado e lavou as mãos, mas sempre me olhando. Baixei a cabeça.
— Tem certeza que está bem? Não me parece.
— Eu... bebi demais — respondi baixinho.
— Isso já me passou também — sorriu — Eu tenho um remédio aqui comigo. Você quer? — olhei pra ela — É só um comprimido para enjoo — abriu a bolsa — Pode tomar, não é nada ilegal — mostrou o envelope — Está vendo?
Ela esticou o envelope pra mim e eu peguei com a mão tremendo. Coloquei a mão embaixo da torneira e enchi a boca de água, empurrando o comprimido.
— Obrigada — devolvi o envelope.
— Você está com seus pais? — fiz que não — Veio com um namorado?
— Vim com... — quase disse que tinha vindo com uma prima, mas parei — Eu vim sozinha.
— Sozinha? — franziu a testa — Mas você me parece ser tão novinha. — inclinou a cabeça — Olha, se não quiser minha ajuda, pelo menos me deixe chamar um táxi pra você.
— Eu esqueci minha bolsa... — fiquei vermelha — Na casa de minha prima.
Ela estalou a língua e puxou o ar, soltando de vez.
— Eu estou com meu namorado. Podemos te levar em casa — tocou meu braço.
Me senti tão envergonhada que comecei a chorar de novo. Ela alisou meu braço.
— Qual seu nome?
— Zeynep.
— Muito prazer — esticou a mão — Eu me chamo Elif.
— Não quero te incomodar, vou achar um meio de ir pra casa — passei a mão no rosto.
— Não quer chamar seus pais? — cruzou os braços. Desviei o olhar — Tudo bem. Eu já fui adolescente também — deu uma risadinha — Não parece, mas fui... vem comigo.
Ela andou até a porta e parou. Me chamou com a mão. Mesmo hesitando eu dei o primeiro passo. Quando ela abriu a porta, o som da música e o barulho de conversas entrou. Eu travei de novo.
— Tem alguém aqui que você quer avisar? — neguei com a cabeça — Então vamos. Não vai ficar sozinha aqui desse jeito.
Ela pegou minha mão e saiu me puxando entre as pessoas. Evitei o tempo todo levantar a cabeça. Não queria ver Miran e menos ainda a noiva dele. Paramos em uma mesa, ela se inclinou e falou ao ouvido de um dos homens.
Ele me olhou e me encolhi, mas ela apertou minha mão e o apresentou a mim. Era seu namorado. Me pareceu ser uma pessoa boa também. Levantou e se despediu do grupo e saímos. Continuei andando sem olhar em volta.
***** *****
— É aqui que você mora?
O namorado de Elif abriu a porta do carro para mim.
— Mert... — ela mexeu as sobrancelhas e balançou a cabeça — É claro que é aqui. Vem, eu vou com você até o portão. Tem certeza que não quer que eu fale com seus pais?
— Melhor não, obrigada — suspirei — Me desculpe por ter tirado vocês da festa.
— Não por isso — abanou a mão — Eu já estou cansada desse tipo de coisa mesmo — riu baixinho — Entra, vamos ficar aqui até você passar o portão.
Agradeci novamente e passei pela guarita da entrada, falei com o funcionário e acenei para eles. Elif entrou no carro e eles saíram. Olhei para o cartão que ela tinha me dado e andei até a casa.
Abri a porta devagar, mas não adiantou muito. Quando passei pelo corredor, minha mãe me chamou. Eu parei, mas não olhei para trás.
— Já chegou, querida? Vem aqui.
— Hã... eu vou ao banheiro rapidinho, mãe... — respirei fundo e dei uma corridinha para a escada — Já desço.
— Onde está sua prima?
— Ela foi para casa — gritei da escada, quase chegando no piso de cima. Entrei e fechei a porta, me encostando. Meu coração tinha acelerado de novo. — O que eu vou dizer? E se ela ligar para Yarin? — mordi o lábio.
Eu tinha deixado meu celular na bolsa, que estava com Yarin, então não podia ligar pra ela. E nem sei se quero ligar.
— Não, eu não vou ligar.
Tirei o vestido com movimentos desajeitados e joguei sobre a cama. Vesti uma calça larga e uma blusa simples. Depois escovei os dentes duas vezes. Dava pra parecer que eu era a mesma Zeynep.
— Ainda bem que o comprimido funcionou — coloquei a mão no estômago. Respirei fundo e soprei o ar duas vezes e desci pra falar com minha mãe.







