Mundo de ficçãoIniciar sessãoPela milésima vez no dia, olho o visor do celular na esperança de que haja alguma resposta da mensagem que enviei para ele. Mas não. Como das outras vezes, Rodri simplesmente ignorou a mensagem que enviei sem nem se dar ao trabalho de perguntar de quem se trata.
Irritada, deixo o celular de lado e releio mais algumas das inúmeras besteiras que escrevi no meu diário nas últimas semanas. Em cada linha, falo algo bobo sobre ele, inclusive sobre a última vez que o vi, um dia antes de embarcar para Nova Iorque. Rodri estava resolvendo alguns assuntos com meu pai no escritório aqui em casa. Seria impossível esquecer as sensações que tive quando nos trombamos na porta. Aquele toque grosseiro, o olhar de mar revolto, o cheiro almiscarado que aflorou todos os meus sentidos. Suspiro fundo, sem conseguir controlar o mix de emoções que aquele homem vem despertando em mim, ano após ano. Agora, tudo está mais intenso, cada dia mais difícil de ser ignorado. Impaciente, deixo o diário de lado e levanto-me da cama. Meu coração b**e forte no peito com uma mistura gritante de medo e ansiedade. Caminho até a janela do quarto, que dá acesso à área da piscina, e coloco algumas mechas do meu cabelo atrás da orelha. Enquanto observo, imagino se algum dia conseguirei fazer com que ele me olhe como uma mulher, e não como uma garota mimada, a filha do seu amigo advogado, e nada mais. Meus pensamentos voam até a semana anterior, quando papai fez um churrasco e convidou alguns amigos. Como sempre, Rodri estava entre os convidados, já que ele e meu pai são amigos antigos e geralmente estão presentes em todos os eventos das duas famílias. Vê-lo dentro daquela sunga preta, que moldava perfeitamente o volume entre as pernas musculosas, levou-me à loucura, definitivamente. Minha vontade era de agarrá-lo na piscina e escalar aquele abdômen trincado. Contudo, eu nem sequer pude ter um segundo da sua atenção, já que ele estava ocupado demais na companhia de uma loira aguada que o estava acompanhando. Tenho vontade de gritar de raiva só de me lembrar daquela mulher irritante. Bom, talvez para os outros ela não seja tão irritante assim, mas para mim, é. Só de estar perto dele com aquele decote saliente, os seios quase saltando para fora do biquíni. Desencosto da janela e sigo até em frente ao espelho. Observo meus cabelos castanhos e desgrenhados que ainda não viram pente hoje e bufo, esmorecida. Dou alguns passos para trás, ajeito o pijama das meninas superpoderosas no meu corpo e empino a bunda, esperançosa de já ter aumentado alguns centímetros após a sessão de agachamento que fiz ontem com Gemma e Paul, meus melhores amigos e colegas da faculdade. Mordisco o lábio, desanimada quando me lembro das mulheres experientes e de corpos esculturais com quem o Rodri costuma sair. Definitivamente, minhas chances de conquistá-lo são iguais ou menores que zero. Talvez elas aumentem daqui a alguns anos. Quem sabe quando eu não for mais uma menina, e sim uma mulher forte e decidida? Porém, até lá, já terei morrido de raiva, ciúmes e vontade de tê-lo. Estou perdida nos meus pensamentos quando ouço a voz eletrizante da Ariana Grande invadindo o quarto. É o toque do meu celular. Pego o aparelho com toda pressa do mundo e olho o visor, imaginando ser ele o autor da ligação, porém, nunca estive tão enganada. Deito-me largada na cama, de costas, e atendo à chamada. — Oi, Gemma. — Alba, já está pronta? O Paul vai passar aí em dez minutos — diz ela. Recordo-me que havíamos combinado de pegar uma praia agora pela manhã, e eu nem sequer me lembrei de arrumar minhas coisas. Que droga! — Não sei se irei, Gemma, não estou tão animada assim — respondo, completamente sem ânimo. — Caramba, Alba, o que deu em você? — questiona, aparentemente irritada. — Já havíamos combinado há semanas. — Eu sei. — Gemo frustrada e mordisco o lábio. Pondero se falo o motivo que me deixou entristecida. Após alguns segundos, pensativa, decido que devo me abrir com alguém. — Ele não me respondeu, Gemma. Mais uma vez, ignorou a mensagem que enviei. Ouço o suspiro impaciente dela do outro lado da linha e me preparo para ouvir outro sermão. Minha amiga colocou na cabeça que devo me declarar para ele de uma vez por todas ou esquecer essa história, porque essas mensagens anônimas não irão dar em nada. — Alba… Já conversamos sobre isso. Ou você vai à luta, ou esquece esse homem. Ele não vai simplesmente acordar no dia seguinte e pôr na cabeça que quer pegar a filha do amigo. Muito pelo contrário. — Eu sei, mas o que você quer que eu faça? Que eu chegue nele e fale que o amo desde os meus quinze anos? Esquece! Bom, talvez seja melhor do que ficar mandando mensagens anônimas. Ele vai continuar ignorando como fez das outras vezes. Com o coração martelando o meu peito, viro-me na cama, fico de bruços e respondo: — Eu não sei o que fazer. Todas as vezes que estou perto dele, fico trêmula. Meu cérebro parece se transformar em geleia, porque não sai nada que preste. Gemma gargalha do outro lado da linha. — Ai, amiga … Então se você quer mesmo aquele homem, vai ter que descer do salto e pôr a mão na massa. Você sabe o que quero dizer, não é? O Rodri não é um garoto, é um homem feito e tem necessidades. Você está pronta para satisfazê-lo em todos os sentidos? — Pelo amor, Gemma, você fala como se fosse a dona de um bordel. — Reviro os olhos e sorrio. Gemma, apesar de ser um pouco mais velha do que eu, nunca se importou em esperar o cara certo para perder a virgindade. Já eu? Além de ter um pai ciumento que nem sequer deixa os meninos se aproximarem, ainda passei parte da minha adolescência apaixonada por um homem que não me nota. Definitivamente, não sou a número um em quesitos de sorte. — Você sabe que tenho razão. Já saí com alguns homens mais velhos e posso dizer que tenho experiência o suficiente para te ajudar a conquistar um homem como ele. Com certeza passear de mãos dadas no parque não é a atividade favorita deles. — Certo. Vamos supor que você tenha razão sobre o sexo. Antes de tudo, preciso fazer com que ele me note. Enquanto eu for invisível, não terá nem passeios de mãos dadas no parque, imagina outra coisa. Volto a me virar na cama e coloco o celular no outro ouvido. — Vou pensar em algo para te ajudar. Mas só se você for à praia com a gente. Promete? — Tudo bem. Prometo. Desligo a chamada e coloco um sorriso forçado no rosto. A verdade é que eu queria passar todo o dia na cama, mas é provável que logo minha mãe bata na porta ou Gemma e Paul apareçam aqui para me obrigar a ir com eles. Sem escolhas, sigo até o banheiro, tomo um rápido banho e, após escovar os dentes, me troco. Quando Paul chega, já estou vestida com uma bela saída de praia preta e tenho todas as coisas que irei precisar dentro da bolsa. Desço as escadas e o vejo conversando sobre futebol com meu pai na sala. Apesar de ser um homem, ele é o único com quem papai não implica quando se aproxima de mim, talvez porque sejamos amigos desde crianças e definitivamente não haja a mínima possibilidade de rolar algo entre nós. Digamos que Paul não faz o meu tipo, já que tenho atração por homens mais velhos. — Bom dia — cumprimento-os. — Bom dia, filha — responde papai e, logo depois, Paul. — Bom dia, preguiçosa — provoca e sorri. Balanço a cabeça e também sorrio com sua provocação barata. O sorriso se expande em seu rosto claro, quase chegando à orelha. Os olhos castanhos brilham ao me fitar, deixam-me um pouco desconcertada e, por um segundo, tenho a impressão de ter visto algo parecido com fascínio em seu olhar. Ignoro essa besteira e pigarreio. — E então, vamos? Gemma já deve estar louca à nossa espera. Paul desvia o olhar do meu rosto, passa as mãos nos cabelos pretos um pouco compridos e fita o chão por breves segundos. — Vamos, sim — responde. Dá meia volta, acena para papai e segue na direção da porta. Meu pai, que estava distraído olhando o celular, caminha na minha direção com o aparelho na mão e coloca-o no ouvido. — Tchau, querida. Comporte-se. — Ele deposita um beijo na minha testa e se afasta. Ouço-o atender ao celular e lhe dou as costas. Contudo, viro-me na sua direção no momento em que o escuto falar o nome Andrés. Meu coração dispara. Antes que Paul retorne até onde estou e me puxe para a porta de saída, ainda ouço papai perguntar se o Rodri irá passar aqui amanhã após o desembarque. Engulo em seco só em imaginar que poderei vê-lo, mesmo que de longe. Ou talvez não tão longe assim. Respiro fundo quando coloco os meus pés para fora de casa, fecho os meus olhos e aprecio a brisa refrescante que balança os meus cabelos. Não posso mais conviver com isso. Com este sentimento sufocante. Talvez eu deva jogar um jogo arriscado, testando os seus limites e os meus. Olho para a frente, decidida. Enquanto aperto a bolsa no meu tronco, digo a mim mesma que irei conquistá-lo, custe o que custar.






