1 ‐ RODRIGO ANDRÉS

O som do toque do meu celular soa fraco sobre o criado-mudo, ao lado da cabeceira da cama onde estou deitado, relaxado. Pego o telefone, sem prestar atenção no visor. Olho para o lado e vejo que a ruiva ainda dorme enrolada no lençol branco.

Antes de atender à chamada, retiro rapidamente o pano que cobre a sua bunda e deslizo minha mão pela pele macia e muito clara. Passo meus dedos pelas curvas do seu traseiro e acerto um tapa, deixando o local avermelhado.

— Alô. — Levanto-me da cama, pelado, atendo à chamada, e sigo até as vidraças.

— Bom dia, Rodrigo! — cumprimenta Richard com a voz seca — Que merda foi aquela ontem na minha casa? — questiona, indo direto ao ponto.

Franzo a testa e suspiro. Para falar a verdade, nem eu mesmo sei por que me meti justamente com a noiva e, pior, filha de um antigo amigo da minha família. Contudo, ser desafiado me instiga, principalmente porque nunca tive quaisquer problemas para ficar com alguma mulher. Aquela gracinha de olhos verdes tentadores fez justamente o contrário: me ignorou. O problema é que não imaginei que o pitbull do marido fosse me flagrar.

— Peço desculpas pela indiscrição, Richard. Acabei confundindo a sua filha com… — Pauso por alguns segundos, pensando em alguma desculpa qualquer. — Com outra mulher que conheci esses dias. Elas têm o mesmo perfil — minto.

— Não tente me fazer de bobo, Rodrigo. Te conheço há anos. Conheço a sua fama também — diz, austero.

Gargalho, sem conseguir me conter. Realmente, conheço Richard há muitos anos, fomos apresentados pelo meu pai em uma das nossas muitas viagens a Nova Iorque. Apesar de ser um federal rigoroso e respeitado, ele é também frequentador de grandes eventos importantes entre as pessoas mais requisitadas do país.

— Vamos esquecer o passado e focar no presente, parceiro — sugiro. — Que tal um drink mais tarde? Pegarei o voo daqui a algumas horas e não tenho muito o que fazer durante este tempo.

Paro de observar o circular de pessoas no Central Park pelos vidros da suíte, e me viro na direção da cama. A ruivinha, que acabou de acordar, me olha sonolenta e sorri. Algumas mechas avermelhadas de cabelo deslizam pela sua testa, emoldurando o rosto bem desenhado, salpicado de minúsculas sardas.

— Hoje não posso, estou morto depois da noite de ontem, mas podemos marcar algo daqui a uma semana no Espanha. Pegarei alguns dias de férias e pretendo fazer um passeio em família. Aproveito para fazer uma visita ao seu pai.

— diz, um pouco mais calmo.

— Sem problemas — respondo, analisando o corpo nu da mulher na cama. — Tenha um bom dia, Richard — digo e caminho na direção dela.

Deixo o celular sobre o criado-mudo e me aproximo mais. Apesar de a noite ter sido suada e deliciosa, está chegando a parte menos interessante do dia. A parte em que dispenso a mulher sem deixar tão evidente que eu só queria comê-la e nada mais. Essa tática serve para evitar possíveis ataques logo pela manhã, coisa que não tenho muita paciência para aturar.

Fico de frente para ela e pisco descaradamente, como somente eu sei fazer. A moça praticamente se derrete, enquanto me analisa dos pés até o último fio de cabelo, focando no meu pau que ainda exibe a ereção matinal. Ela deve estar pensando em quanta sorte teve noite passada, mas não posso tirar sua razão. Não é qualquer homem que tem pique para dar a uma mulher dois orgasmos seguidos, e isso porque ela nem imagina a extensão da minha conta bancária.

— Dormiu bem, querida? — pergunto assim que ela sai da cama e me agarra pelo pescoço, colando o seu corpo ao meu.

— Maravilhosamente bem — responde, animada, com um sorriso estampado no rosto.

— Ótimo. Então apronte-se, está na hora de ir embora.

Seu sorriso morre instantaneamente, dando lugar a uma expressão de incredulidade.

— Como assim? Pensei que… Não sei… Que fôssemos nos divertir um pouco

mais.

Encaro a mulher com seriedade e seguro seu pulso com certa firmeza, sem comprimir demasiadamente, apenas o suficiente para que ela entenda que não estou lhe dando liberdade para me tocar desta maneira. Em seguida, retiro suas mãos do meu pescoço e afasto-a.

— É uma pena. Mas tenho muito o que fazer, então você precisa ir.

— Mas hoje é sábado. Podemos fazer tantas coisas — diz, desapontada.

Toco o seu queixo de leve e faço com que ela me encare. Sorrio com cinismo, já impaciente.

— Tão linda, mas tão ingênua — digo e me viro. Cato as minhas roupas espalhadas pelo chão e começo a me vestir. — O que foi? — questiono ao ver que a moça segura o lençol com força contra o seu corpo esguio. Ela me encara com frieza no olhar, a testa franzida de raiva.

— Eu já conheci homens imbecis, mas você certamente ganhou o título de honra — diz sarcástica.

— Fico feliz que você tenha compreendido o recado… — Termino de vestir a camisa e paro, pensativo, tentando relembrar o nome dela. Contudo, é em vão. Não me lembro nem se ela tinha me dito. — Como se chama mesmo? — pergunto na cara de pau.

A mulher arregala os olhos e abre a boca, incrédula, mas eu apenas dou de ombros, até porque aqui não tem nenhuma criança. Somos dois adultos que estavam com tesão, só isso.

— Vou embora e espero nunca mais precisar olhar para essa sua cara, ridículo!

— rebate.

— Obrigado! — Sorrio e respondo calmamente. Ela está me poupando de uma enorme dor de cabeça.

Já vestido, encosto-me na parede e, sem que ela se dê conta, observo-a se vestir, irritada. Apesar da indiferença, me delicio com a visão do corpo nu, no qual fiz um banquete a noite inteira.

Quando ela termina, pega a bolsa e passa por mim, soltando fogo pelas ventas, fazendo questão de empinar o nariz.

— Adeus, querida. Foi um prazer comer você! — provoco ainda mais.

A mulher parece transformar-se em um felino raivoso, pois dá meia volta e marcha na minha direção.

— Querida é sua vó, seu imbecil. — Levanta o braço e faz menção a me acertar com um tapa no rosto, mas, para seu azar, sou mais rápido. Seguro sua mão com força e a impeço.

— Não ouse levantar a mão para mim. Agora, saia! — ordeno, cerrando os dentes.

— Seu maldito… — vocifera com o olhar cheio de ódio. — Algum dia você vai se arrepender por tratar uma mulher desta maneira, seu grosso.

Balanço a cabeça e sorrio ainda mais, quase que gargalhando. Ah… Se ela soubesse que esse dia nunca irá chegar, com certeza não estaria me fazendo perder tempo. Já gastei a minha cota de trouxa para nunca mais repetir. Para falar a verdade, tenho pena da criatura que tentar entrar no meu caminho com terceiras intenções que não sejam apenas me dar a boceta. Não tenho pena de pisar nos cacos dos pobres corações feridos, afinal, não tenho culpa delas serem tão vulgares e descaradas. Além disso, não sou responsável por suas ilusões infantis, nunca ofereço mais do que sexo.

Lembrar de vulgaridade faz meus pensamentos voarem para anos atrás, e isso faz uma ira insana despertar em mim. Fecho os meus punhos, ainda mais irritado.

Assim que a mulher sai da suíte, batendo a porta com ira, sigo até o bar e sirvo-me de uma dose de uísque. Ainda que esteja cedo e o sol mal tenha acabado de raiar, sinto a necessidade de relaxar um pouco antes de embarcar de volta para o Espanha. Lá, deixarei a pose de conquistador irresistível e voltarei à velha e boa rotina como o CEO respeitado que sou, dentro do meu império na Ferrer Engenharia.

Tomo o líquido amargo e coloco o copo sobre a bancada. Vou ao banheiro e faço uma breve higiene pessoal. Pego minha carteira, o celular e me preparo para sair. Contudo, assim que sigo até a porta, lembro de olhar o meu W******p para conferir se há algum recado importante.

Respondo a algumas mensagens da minha secretária particular e outras de Ignacio, meu advogado e melhor amigo. Quando estou prestes a bloquear o visor, vejo que há uma mensagem de alguém que não está nos meus contatos.

>> Saudades de você, meu amor. Quando retorna?

Analiso o número de telefone, confirmando que é do Espanha e que se trata da mesma pessoa que vem me atormentando durante toda a semana com mensagens descabidas e bobas como essas. Franzo a testa, impaciente com esse joguinho adolescente, e simplesmente ignoro, como das outras vezes. Se houver mais alguma mensagem dessas, precisarei bloquear o número.

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