Capítulo 6 — Ela Não É Minha Mulher!

O concierge sorriu na calçada do hotel.

— Bom dia, senhor e senhora Grant. Bem-vindos ao Solara.

— Ela não é minha mulher!

Bastou meio segundo para Michael derrubar o sorriso do funcionário. O homem voltou-se para mim com as pupilas de quem acabara de cutucar uma vespa.

As margaridas naturais davam um charme perfumado ao lobby. Enquanto esperávamos no sofá, Paul concluía o check-in na recepção. A longa espera me permitiu observar o saguão. Malas iam e vinham dos elevadores. Hóspedes pelas escadas. O concierge fazia vênias para os casais de mãos dadas. Esposas, noivas, namoradas desfilavam tão felizes. Suspirei.

— Algum problema? — a voz do senhor Grant me puxou das profundezas da inveja.

— Cansaço.

— Não se preocupe. Terá o resto do dia para descansar, conforme o cronograma.

— O cronograma?

Ele parou de balançar o pé. — Constava no e-mail. Não leu?

— O e-mail... Ah, sim. Uma pena. Na correria, não consegui abrir.

— Estou impressionado com a sua habilidade para a desorganização, senhorita. Primeiro as malas, agora o e-mail. O que mais deixou para trás?

Um marido. Mas você nunca, jamais saberá.

— Como não há o que fazer, pedirei ao Paul que lhe entregue o cronograma, para evitar atrasos. Mas saiba, Laura, que existem apenas duas coisas que eu não tolero. Irresponsabilidade é uma delas.

— Qual é a segunda coisa?

— Mentiras. — Ele nem hesitou. — Eu não suporto mentirosos.

As carnes da minha vergonha na cara tremeram. Meus dedos se enrolaram nas alças da bolsa. Sorrir era um sinal clássico de incômodo. Discordar, uma mentira. Ficar calada era praticamente assumir a culpa. Juro que quase beijei Paul quando ele se aproximou com as chaves dos quartos.

— Já não era sem tempo! — O senhor Grant se levantou do sofá. Ele, em pessoa, chamou o elevador.

A quietude do elevador espelhado do Solara amplificava cada respiração. Eu evitava os espelhos, porque o destino tem mania de cruzar os olhares. E eu não estava disposta.

Nunca uma chave girando na fechadura soou tão reconfortante. Empurrei a maçaneta com pressa. Tão ansiosa, não notei o sorriso que escapou na direção do senhor Grant, parado ali, na porta ao lado. Um daqueles momentos ridículos em que os olhos só param e não enxergam.

Perguntas pairaram no ar entre nós. "Será que ele acha que estou flertando?” "Por que essa mulher sorriu para mim?" Nós dois empurramos as portas e entramos em nossos quartos ao mesmo tempo.

Não sei quanto ao meu vizinho, mas eu logo me esqueci do constrangimento para correr até as janelas e fechá-las. Eu tranquei tudo. Todas as brechas das cortinas. Só então me permiti respirar. Pela primeira vez em dois anos, um pouco de controle da minha vida.

No banheiro, me despi do resto, pretendendo ficar debaixo do chuveiro pela próxima meia hora. Tirar não apenas a lama do corpo. Da alma. Remover os vestígios do Juan. Expulsá-lo de mim através da espuma do sabonete no ralo.

Enquanto a água caía em jatos mornos sobre meus ombros, o sibilo constante das gotas isolava o exterior, mas me arrastava de volta à semana passada.

Naquela noite, o espelho redondo da penteadeira me encarava e a escova se perdia puxando e repuxando a franja. De repente, Juan entrou.

— Laura, você está grávida?

A escova caiu no meu colo. — O que?

— Está ou não? Responda se agora espera o meu herdeiro.

— Não, você não vai ser pai, Juan.

— Maldição! — Seu pé deu um chute na cama. — Por que não engravida, ham? Qual é o seu defeito?

— Sou uma mulher perfeitamente saudável.

— Saudável é uma esposa continuar a linhagem do marido. Mas você, Laura... ah, Laura.

— Se Deus quiser nos dar um filho...

— Deus nada! Já que, do método natural você é inútil, vou tomar uma providência. Já está decidido. Há um ótimo especialista na Suíça. Andei me informando.

— Jamais. Eu não aceito.

Seus punhos vieram, me agarraram e me ergueram com força.

— Escute bem, Laura. Fará a maldita inseminação. Por bem ou por mal! E só voltaremos da Suíça quando estiver com o meu herdeiro aí dentro. Entendeu?

— Vá para o inferno!

— Não, minha querida. Nós vamos para o Lhardy. Agora termine de se arrumar. — Fui jogada de volta na cadeira. — Não vou deixar meus amigos esperando no restaurante por seus caprichos.

Mesmo agora, dentro de um banheiro de hotel a milhares de quilômetros, eu ainda conseguia ouvir seu ego ferido batendo a porta. Podia sentir outra vez o desejo de desaparecer. E, até que enfim, o gostinho da liberdade. Tive pena de encerrar o banho, mas o estômago roncava. Não nego que me sentia em paz de roupão. Uma pena que essa paz evaporou com as batidas na porta.

— Laura? Sou eu, Paul. Abra, por favor.

— Pois não?

— Oi. Uau! Eu não sabia que estava no banho. Volto mais tarde.

— Eu já terminei. O que deseja?

— O que eu desejo? — Ele coçou o cavanhaque. — Uma mulher bonita só de roupão na minha frente... como é que eu vou explicar?

— Quem sabe consiga, se manter o foco no meu rosto.

— Toma, são para você. — Duas sacolas grandes foram erguidas na altura do meu queixo.

— O que é isso?

— Michael pediu que te entregasse. Disse que ia precisar.

— Sim, ele mencionou o cronograma, mas essas sacolas...

— São roupas e um celular.

— Roupas? — Franzi a testa. — Ele comprou roupas pra mim?

— Tecnicamente, só deu o cartão. Fui eu quem fez as compras. O recado é que essas roupas fazem parte do seu contrato de trabalho. Portanto, deve aceitá-las.

— E por que o celular?

— O cronograma do evento está na agenda. Todos os horários e contatos. Só, por favor, não se atrase. Ah, e só mais uma coisa. — Ele segurou a maçaneta. — Quer tomar café comigo?

— Que pena. Não estou com fome.

Dentro do quarto e livre do gavião, eu encarava as sacolas em cima da cama. Um celular, eu dizia. Eu precisava de um novo. O antigo não passava de caquinhos no lixo, junto com os cartões de crédito. Roupas. Uma necessidade feminina básica. Não podia ficar zanzando só de roupão.

— Quer saber? É só um trabalho de mentira. Quem é que liga? Vai ver essas roupas nem cabem em mim. Aposto.

A caixa do celular apareceu na primeira. Um flip da Motorola, configurado, do jeito que Paul informou. Dentro da segunda, algumas blusas, vestidos e o choque.

— Lingerie? — Renda preta e rosa. — Aquele maluco comprou calcinha e sutiã sexy pra mim?

Para coroar, de tamanhos certos.

No fundo da última sacola, um vestido preto, longo, de fenda nas costas. Ao lado, uma máscara cor púrpura. Embaixo dela o seguinte convite:

ABERTURA DO 5° SCALIBURSHINE – Tema da noite do sábado: Duas Caras. Prezada Senhorita Laura, use este vestido e máscara, e esteja no Ballroom às 20h. Sem atrasos. Michael Grant, CEO.

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