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Capítulo 6 — Ela Não É Minha Mulher!

LONDRES, FEVEREIRO DE 1997

A cama desfeita exibia o mapa do prazer recente enquanto os dois recuperavam o fôlego.

Os cachos loiros de Rachel se espalhavam pelo peito nu de Michael, e ele acariciava o braço da esposa sem pressa, sorrindo ao sentir cada arrepio na pele dela. Por fora, parecia presente. Por dentro, imaginava o futuro que cultivava em segredo.

— Você está tão quieto... — Rachel sussurrou, a voz rouca vibrando contra o torso do marido. — No que está pensando?

— Só estou aproveitando o momento — ele mentiu, antes de beijar o topo da cabeça dela.

Rachel ergueu o rosto devagar, com os olhos verdes encontrando os dele na penumbra.

— Amor, eu conheço esse olhar. O que foi?

Ele sabia que aquele assunto era um campo minado. Ainda assim, arriscou.

— Eu estava pensando na gente. — A mão dele continuou viajando pelo braço macio da esposa. — Nesta casa grande demais só para nós dois. Talvez esteja na hora de termos um filho.

O efeito foi imediato. Rachel puxou o lençol e se sentou. — De novo?

Ele também se sentou. As cobertas deslizaram do peito e se amontoaram ao redor da cintura.

— Nós temos tudo, Rachel. Estabilidade, amor... Desejo construir algo além da Scalibur. Eu quero uma família.

— Não! Já disse que não vou ser mãe!

— Eu adoro crianças. Sempre foi o meu sonho ser pai.

— Muito lindo. Pena que não é o meu. E você sabia disso quando casou comigo.

— Achei que talvez mudasse de ideia com o tempo.

— Então você se casou esperando que eu mudasse?

— Não foi o que eu disse.

A discussão escalou rapidamente. O clima de intimidade de minutos atrás virou um cabo de guerra.

— Chega! — Rachel saiu da cama. — Eu não vou ficar aqui ouvindo você insistir nessa bobagem.

— Aonde vai?

— Dormir em outro quarto. Não venha atrás de mim.

— Rachel, amor... espera.

Ele correu e a seguiu pelo corredor, enrolado apenas no lençol.

— Volta para o quarto. Vamos conversar direito.

A única resposta foi a porta do quarto de hóspedes batendo com força. Michael parou diante da madeira escura, ainda ofegante. O lençol começava a afrouxar na cintura enquanto ele forçava a maçaneta.

— Rachel? Por favor, abre a porta. Eu retiro o que disse. Me desculpa. Eu não falo mais sobre filhos. Eu juro. Só não quero dormir brigados.

ILHA DE FORMENTERA, 1999

O concierge sorriu para nós atrás do balcão da recepção.

— Bom dia, senhor e senhora Grant. Bem-vindos ao Solara.

— Ela não é minha mulher!

Bastou meio segundo para Michael derrubar o sorriso do funcionário. O rapaz apenas assentiu e atendeu o telefone.

As margaridas naturais perfumavam o lobby. Eu observava as flores, as malas, os hóspedes, os casais de mãos dadas. Esposas e namoradas pareciam tão felizes que meu peito apertou num suspiro de inveja.

— Algum problema? — Michael perguntou.

— Cansaço.

— Não se preocupe. Você terá o restante do dia para descansar, conforme o cronograma.

Franzi a testa. — O cronograma?

— Constava no e-mail. Não leu?

— O e-mail... ah, sim. — Forcei um sorriso. — Na correria, não consegui abrir.

— Sua habilidade para a desorganização continua me impressionando, senhorita. Primeiro as malas, agora o e-mail. O que mais deixou para trás?

"Um marido. Mas você jamais saberá".

— Laura, existem apenas duas coisas que eu não tolero. Irresponsabilidade é uma delas.

— E qual é a segunda?

— Mentiras. — Ele nem piscou. — Eu não suporto mentirosos.

Meus dedos se enrolaram nas alças da bolsa. Sorrir denunciaria nervosismo. Discordar levantaria suspeitas. Ficar calada seria praticamente uma confissão. Juro que quase beijei Paul Hill quando ele apareceu com as chaves dos quartos.

Nunca uma chave girando na fechadura soou tão reconfortante. No alívio do momento, não percebi o sorriso que escapou na direção de Michael, parado diante da porta ao lado. Um daqueles momentos ridículos em que os olhos param em alguém antes de vê-lo realmente.

“Será que ele acha que estou flertando?” “Por que essa mulher sorriu para mim?” Nós dois abrimos as portas ao mesmo tempo e desaparecemos nos quartos.

Logo corri para fechar as janelas. Só então me permiti respirar. Pela primeira vez em dois anos, um fragmento de controle sobre a própria vida. No banheiro, deixei minha roupa cair no chão, decidida a permanecer debaixo do chuveiro pela próxima meia hora. Queria tirar não apenas a lama do corpo, mas da alma, como se água quente e sabonete fossem capazes de apagar o Juan da minha pele.

O sibilo constante da água morna abafava o mundo lá fora, mas arrastava minha mente de volta à semana passada.

Naquela noite, o espelho redondo da penteadeira parecia me observar passando a escova pela franja sem atenção alguma. Refletiu meu susto quando Juan entrou no quarto de repente.

— Você está grávida?

A escova caiu no meu colo. — O quê?

— Finalmente espera o meu herdeiro?

Neguei em silêncio.

— Maldição! — Ele atirou o celular contra a parede. — Por que não engravida, ham? Qual é o seu defeito?

— Se Deus quiser nos dar um filho...

— Deus nada! Já que do método natural você é inútil, já me informei sobre um especialista na Suíça.

— Jamais!

Os punhos dele vieram, me agarraram e me ergueram da cadeira com ira.

— Escuta bem, Laura. Você vai fazer a maldita inseminação. Por bem ou por mal. E nós só voltamos da Suíça quando estiver carregando o meu herdeiro. Entendeu?

Mesmo agora, dentro de um banheiro de hotel a milhares de quilômetros, eu ainda conseguia ouvir seus gritos. Motivada outra vez pelo desejo da liberdade. Tive pena de encerrar o banho, mas o estômago roncava. Não nego que me sentia em paz de roupão. Uma pena que essa paz evaporou com as batidas na porta.

— Laura? Sou eu, Paul Hill.

“Esses ingleses não têm coisa melhor para fazer além de bater na porta dos outros?”

— Laura?

— Pois não?

— Oi... Uau! — O olhar dele vacilou para minhas pernas. — Eu não sabia que estava no banho.

— Já terminei. O que deseja?

— Pergunta difícil? — Ele riu sem jeito. — Uma mulher bonita só de roupão na minha frente...

— Talvez consiga, se mantiver o foco no meu rosto.

— Toma. São para você. — Duas sacolas grandes foram erguidas.

— O que é isso?

— Roupas e um celular. Michael pediu que te entregasse. Disse que você ia precisar.

— Roupas? Ele comprou roupas para mim?

— Tecnicamente, só deu o cartão. Fui eu quem fez as compras. O recado é que essas roupas fazem parte do seu contrato de trabalho. Portanto, deve aceitá-las.

— E o celular?

— Contato. O chefe odeia atrasos. Ah, e mais uma coisa. — Ele segurou a maçaneta. — Quer tomar café comigo?

— Que pena. Não estou com fome. — Bati a porta na cara safada.

Dentro do quarto, eu encarava as sacolas em cima da cama. Um celular. Eu precisava de um novo. O antigo não passava de caquinhos no lixo, junto com os cartões de crédito. Quanto às roupas, eu não podia ficar por aí só de roupão.

— Vai ver nem cabem em mim. Aposto.

Abri a sacola e encontrei blusas, vestidos e o choque.

— Renda preta e rosa? — Franzi a testa. — Aquele homem comprou lingerie para mim?

Havia também um vestido longo, preto, com fenda nas costas e uma máscara púrpura. Achei o seguinte cartão branco em letras douradas:

5° SCALIBURSHINE – Tema do sábado: Duas Caras. Prezada Senhorita Durán, ponha este vestido e máscara. Estarei esperando às 20h. Sem atrasos. Michael Grant, CEO.

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