O jatinho tocou o solo de Ibiza às cinco da manhã. O novo dia invadiu a cabine assim que a escotilha se abriu, jogando a brisa salgada da costa espanhola bem na nossa cara.
Paul desceu primeiro. O senhor Grant logo em seguida, sem pressa. Enquanto ele parecia saborear cada degrau, eu desconfiava até das sombras. Meu rosto girava em todas as direções, tentando a todo custo parecer apenas uma passageira interessada e não uma esposa caçada.
À frente, um Rolls-Royce Silver Seraph preto nos aguardava. O motorista nos cumprimentou e abriu a porta. De novo, Paul foi o primeiro a se acomodar. Já o senhor Grant me cedeu a vez.
O veículo partiu devagar, silencioso, com meus olhos acompanhando os arredores do aeroporto. A certo ponto, a estrada começou a serpentear entre colinas. Não se ouvia um suspiro dentro do Rolls-Royce. Há muito tempo que eu não sentia tanta paz. E essa paz embalou meu sono, fazendo minha cabeça cambalear várias vezes e cair no ombro do senhor Grant.
Michael não respirou, desceu os olhos para o topo da minha cabeça contra seu queixo, para meus cabelos espalhados em seu peito e o cachecol frouxo.
— Ela está cansada — sussurrou, sua garganta vibrando na minha franja.
— Escolheu um ótimo travesseiro.
— O que eu faço? Acordo ela?
— Não se atreva. Deixa a moça dormir.
— Mas, no meu ombro, é antiético. Sou o chefe dela.
— Por um final de semana. — Paul mostrou os dedos. — Dois dias.
Aqueles “dois dias” ficaram retumbando na cabeça de Michael, e piorou quando eu me mexi, procurando uma melhor posição na clavícula.
— Santo Deus. — O peito dele virou uma rocha. Deu formigas embaixo das duas pernas e dentro das costas. O sangue pinicava nas veias. Ele abriu a gola e puxou a gravata, enquanto Paul mordia os beiços.
— Você está adorando, não é?
— Parece que a minha praga pegou.
— Ficou louco? Eu mal conheço essa mulher. Além disso, tinha lama nos sapatos dela. La-ma!
— Mas você bem que cedeu seu lenço favorito para enxugar as lágrimas da donzela.
— Chega! Eu vou acordá-la.
Na verdade, eu já estava acordada. É difícil dormir com duas gralhas debatendo sua ética profissional ao pé do ouvido. Nem ele me acordou, nem tive que continuar fingindo. O carro parando diante do cais nos livrou do vexame.
— Chegamos? — Ergui a cabeça. O senhor Grant, nada sutil, escondeu o ombro.
Era sim, um belo amanhecer. O cheiro entranhado e salobro do mar, o vento nas velas e o bater das ondas. Nossa lancha esperava balançando suave. O comandante fez um aceno de boas-vindas, enquanto dois marinheiros subiam com as malas pela ponte de madeira que levava ao convés.
Dentro da lancha, Michael se comportou ainda mais contido atrás da gola levantada. A brisa sobrava contra o rosto alvo e os cabelos quase pretos. A minha opinião sobre sua beleza não diminuiu em nada. Agora analisava a sua aura misteriosa, o olhar de safira de quem esconde um segredo, nada medonho quanto o meu.
Meu palpite? Uma ferida profunda de amor, daquelas que sangram na alma. Qual foi a mulher desalmada que partiu seu coração, Michael Grant? Eu queria saber.
Passava das cinco e meia da manhã quando a lancha partiu, abrindo um sulco branco sobre o azul enegrecido do Mediterrâneo. Eu, na proa, observava a linha esguia da majestosa ilha de Formentera surgindo aos poucos no horizonte. A lancha atracou na praia com o dia claro. Nós tivemos que esperar a corda ser lançada e presa no píer. O balanço das marés diminuiu, mesmo assim o senhor Grant estendeu a mão para me ajudar a descer.
— Pode se apoiar em mim. Eu te ajudo.
Seu braço se manteve rijo enquanto eu me equilibrava, e esperou até minhas botas estarem firmes na ponte para então me soltar. Lado a lado, seguimos num silêncio formal. O tipo de silêncio comum entre dois perfeitos estranhos, nunca menos que um metro um do outro.
— Desculpe, mas eu preciso perguntar. Onde estão suas malas, senhorita Laura? Eu não vi sua bagagem.
— A minha... bagagem?
— Não disse que conhecia os detalhes do contrato? É um evento de um final de semana. Eu me pergunto: onde estão as suas roupas?
— A agência me ligou em cima da hora e eu não queria me atrasar. Depois eu compro alguma roupa por aqui. Deve ter uma loja no hotel.
— Huh.
Huh o quê? O que ele quis dizer com aquele mugido? Estava me chamando de mentirosa? Desconfiado? Com preguiça de falar? Desinteressado?
De repente, ouvimos os gritos de um homem. Meu Deus, meu marido já me encontrou? Só deu tempo de pensar e o senhor Grant saiu correndo, cheio de uma bravura que eu só entendi depois.
Um menininho brincava sozinho com as conchas na areia. A criança não tinha mais que quatro anos. Foi por ela que Michael correu. Para salvá-la de um Chow Chow que se soltou e disparou com foco no garotinho. O senhor Grant foi o primeiro que previu o ataque.
Seus braços alcançaram o menino e o ergueu contra o peito, enquanto girava o próprio corpo para livrá-lo da mordida. O cachorro avançou com os dentes à mostra, pronto para abocanhar a perninha.
— Meu Deus! — Eu fechei os olhos. Paul correu para ajudar.
Foram cinco minutos de puro terror. Só teve fim quando o tutor colocou de volta a coleira.
— Lo siento mucho.
— Seu irresponsável! — O senhor Grant partiu para cima do homem. — controle seu cão!
— Michael, não. — Paul se meteu na frente.
— Me solta, Paul. — O coitado foi empurrado. — Uma criança poderia ter se machucado hoje. Morrido.
O dedo do senhor Grant não baixava.
— ¡Señor, manténgase tranquilo! — Um policial também brotou no meio da confusão, enquanto eu me aproximava de olhos arregalados.
— Michael, por favor — Paul insistia. — Deixa o policial cuidar disso. Você já salvou a criança, agora vamos para o hotel.
Esses dois olhos que já viram muito, apesar dos 29 anos, testemunharam quando o senhor Grant bufou e cerrou os punhos, encarando o policial escoltar o dono do cão. Aos poucos, o pequeno círculo de curiosos se dissipou.
— ¡Señor, muchísimas gracias por haber salvado a mi hijo!
— Perdoe-me, senhora, mas eu não entendo o seu idioma.
— Ela está te agradecendo por ter salvado o filho dela — traduzi.
Michael, que até então ignorava a minha presença, olhou para mim.
— Por favor, Laura, diga que ela não precisa me agradecer. Que a vida de uma criança não tem preço.
Passei o recado como me foi pedido, palavra por palavra, e aqueles pais voltaram para o hotel agradecidos. Mas as emoções não terminaram por aí, pois havia mais alguém com sede de vingança, doido para retribuir o empurrão nos peitos.
Paul meteu-lhe nos bíceps do senhor Grant, com gosto.
— Mas que bela entrada triunfal, hein!
— O soco doeu, seu maluco.
— O meu tórax também, Superman.
— O senhor está bem?
— Estou, Laura. Só irritado.
— Que bom! — disse Paul. — Agora vamos, antes que caia uma chuva de meteoro, porque é só o que falta. — E disparou na nossa frente. Foi-se dizendo que precisava de uma massagem.
— Quer dizer que o senhor gosta de criança.
— É importante estar atento. Acidentes acontecem.
— Já tem filhos?
— Basta de conversa fiada!
Michael apertou o passo; as pontas e as tiras do seu casaco voavam para trás como palmeiras na tempestade. Uma coisa eu tinha como certa: minha cabeça jamais entenderia o coração daquele homem. Mas também para que o esforço, se eu ia fugir da ilha no meio da noite e nunca mais vê-lo?