Contrariando as minhas expectativas, o jatinho particular de Michael Grant tocou o solo de Ibiza às cinco da manhã. Só descobri o destino daquela viagem quando sobrevoamos as Ilhas Baleares.
O novo dia invadiu a cabine assim que a escotilha se abriu, jogando a brisa salgada da costa espanhola bem na nossa cara.
Ainda a Espanha. Eu queria Grécia ou Itália, mas continuava no país, entrando no carro de dois ingleses que mal conhecia há cinco horas.
Um Rolls-Royce Silver Seraph preto nos esperava para levar ao porto. De lá, uma lancha nos conduziria até a paradisíaca ilha de Formentera, o local onde — até onde eu sabia — seria realizado o evento da Scalibur, a empresa da família Grant. Eram as únicas informações que eu tinha sobre o trabalho. E tanto faz. Eu nem me importava com ele. Só fingi ser a tradutora de espanhol para sair de Madri. Continuar fugindo ainda era o plano.
Por enquanto, me acomodei no banco traseiro entre Michael Grant e Paul Hill, aguardando o momento perfeito para seguir meu caminho sozinha.
“Só vou até o cais. Depois dou um jeito de não entrar na lancha e volto para o aeroporto. Preciso chegar à Grécia ainda hoje.”
O veículo partiu em silêncio, com meus olhos percorrendo e analisando os arredores. Aos poucos, a estrada começou a serpentear entre colinas e o silêncio se tornou cada vez mais profundo. Eu brigava para manter os olhos cansados abertos, mas fazia muito tempo que não sentia tanta paz. Essa paz embalou meu sono, e minha cabeça tombou várias vezes antes de cair no ombro de Michael.
O corpo dele enrijeceu no mesmo instante. O ombro se contraiu sob minha bochecha como se tivesse tomado um choque. Michael cerrou os punhos, os lábios pressionados numa linha fina e séria.
— Senhorita Durán?
— Não se atreva a acordá-la — Paul o repreendeu. — A moça está cansada. Deixa dormir.
— No meu ombro é antiético. Sou o chefe dela.
— Por um final de semana — Paul mostrou os dedos. — Dois dias.
Aqueles “dois dias” ficaram retumbando na cabeça de Michael, e a situação piorou quando me mexi em busca de uma melhor posição em seu peito.
— Quando foi que eu virei o travesseiro de funcionárias? — resmungou.
Seus olhos se estreitaram em clara irritação, lutando contra o impulso de me empurrar para longe a cada respiração sobre a gravata.
— Ela dorme como um anjo — disse Paul, rindo.
— Você está adorando, não é?
— Parece que a minha praga pegou. Será esta a mulher que vai bagunçar sua rotina intocável?
— Está louco? Eu mal conheço essa... Além disso, tinha lama nos sapatos dela. La-ma.
— Mas você bem que cedeu seu lenço favorito para enxugar as lágrimas da donzela.
— Chega! Eu vou acordá-la.
Quem disse que eu estava dormindo? É difícil com duas gralhas debatendo sua ética profissional ao pé do ouvido. Nem ele me acordou, nem tive que continuar fingindo. O carro parando na frente do porto nos livrou do vexame.
Era um belo amanhecer, apesar de tudo. O cheiro entranhado e salobro do mar, o vento nas velas e a lancha atracada balançando suave.
O comandante fez um aceno de boas-vindas, enquanto alguns rapazes subiam com as malas pela ponte de madeira que levava ao convés. Ainda tentei deixar os dois passarem na minha frente, na esperança de conseguir me afastar discretamente e desaparecer entre os barcos. No entanto, o tiro saiu pela culatra. Justo naquele momento, o homem que não me queria dormindo em seu ombro resolveu bancar o lorde e insistiu para que eu passasse primeiro.
— Por favor.
— Obrigada — respondi com um sorriso educado, quando meu desejo era atirá-lo no mar de terno e sapato.
E foi assim que embarquei na lancha. Vinte minutos depois, atracamos na Ilha de Formentera com o dia claro. Alguns turistas já nadavam nas águas cristalinas. Eu tentava me equilibrar, esperando a corda ser amarrada no píer, quando Michael estendeu a mão:
— Eu te ajudo a descer.
Ele esperou minhas botas estarem firmes na ponte para então me soltar. Seguimos lado a lado num silêncio formal, o tipo de silêncio comum entre dois perfeitos estranhos, nunca a menos de um metro um do outro.
— Desculpe, mas preciso perguntar. Onde estão suas malas, senhorita Durán? Não vi nenhuma bagagem sua.
— A minha... bagagem?
— É um evento de um final de semana. Eu me pergunto: onde estão as suas roupas?
— A agência me ligou em cima da hora e eu não quis me atrasar. Depois eu compro alguma coisa por aqui. Deve ter loja no hotel.
— Huh.
Huh o quê? O que ele quis dizer com aquele resmungo? Estava me chamando de mentirosa? Desconfiado?
De repente, ouvimos gritos desesperados. Por um segundo terrível, pensei que meu marido havia me encontrado.
— Fica aqui, Laura.
— Aonde o senhor vai?
Não respondeu. Disparou em direção à areia sem calcular.
Um menininho de no máximo quatro anos brincava sozinho de castelo. Michael correu para salvá-lo de um Chow Chow soltou da coleira. Bem rápido, ele agarrou a criança, ergueu-a contra o peito e girou o próprio corpo para livrá-la da mordida. O cachorro avançou com os dentes à mostra, pronto para abocanhar a perninha.
— Meu Deus! — Fechei os olhos para não ver.
Foram trinta segundos de puro terror. Terminou quando o tutor colocou de volta a coleira no cachorro.
— Lo siento mucho — disse o homem. Mas Michael Grant não quis saber de desculpas. Agarrou-o pela gola.
— Seu irresponsável! Controle seu cão!
— Michael, não! — Paul jogou a pasta de couro e se meteu na frente.
— Me solta, Paul. Uma criança poderia ter se machucado hoje. Morrido.
— ¡Señor, manténgase tranquilo! — Um policial surgiu no meio da confusão.
— Michael, por favor — insistia Paul. — Deixa o policial resolver isso. Você já salvou a criança, agora vamos para o hotel.
A expressão de fúria no rosto de Michael diminuiu aos poucos depois que o policial escoltou o dono do cão até a viatura. O círculo de curiosos se dispersou, deixando apenas os pais da criança e nós três ali.
— ¡Señor, muchísimas gracias por haber salvado a mi hijo!
— Perdoe-me, senhora, mas eu não entendo o seu idioma.
— Ela está te agradecendo por ter salvado o filho dela — traduzi.
— Por favor, Laura, diga que ela não precisa me agradecer. Que a vida de uma criança não tem preço.
Passei o recado como me pediu, palavra por palavra. Os pais agradeceram e voltaram para o hotel aliviados.
— Mas que bela entrada triunfal, hein! — exclamou Paul, impaciente. — Precisava mesmo desse show?
— O senhor está bem?
— Estou, Laura. Foi só um susto.
— Que bom! — Paul recolheu seus pertences do chão. — Agora vamos, antes que caia uma chuva de meteoros, porque é só o que falta. — E saiu disparado na nossa frente, dizendo que precisava de uma massagem nos pés.
Michael e eu ficamos sozinhos outra vez, com as ondas quebrando na praia e gaivotas planando baixo.
— Quer dizer que o senhor gosta de crianças.
— É importante estar atento. Acidentes acontecem.
— Já tem filhos?
— Basta de conversa fiada!
Michael apertou o passo, me largando para trás de boca aberta. As pontas do casaco dele esvoaçavam como palmeiras na tempestade.
— Mas o que foi que eu disse?
Era inútil tentar desvendá-lo. Qualquer uma ficaria louca tentando. Para quê desperdiçar tempo? Naquela noite mesmo eu escaparia da ilha.
— Vai sozinho — murmurei pelas costas largas dele. — Eu não preciso de você. Só da sua lancha, seu bloco de gelo.