Meu pânico progrediu. Viaturas da segurança do aeroporto cercaram o avião. Vultos saltaram para fora dos sedãs, homens de preto agrupados na pista com armas na mão.
— O que é todo esse circo? Um filme?
— Senhor Grant, o empresário espanhol pede a colaboração de todas as aeronaves.
A voz do piloto secou minha garganta. Apertei o tecido do meu vestido com tanta força que duas pontas de unha arrebitaram.
— Diga que não concedo autorização. Estamos atrasados. Este avião já deveria estar no ar.
— Senhor, seguimos o protocolo.
— Michael, ouça o piloto. Quanto mais você resistir, mais tempo perdido.
Eu queria me jogar aos pés dele e implorar que não ouvisse os conselhos de Paul. Pedir a sua proteção. Mas tudo o que eu fiz foi cravar mais fundo as unhas no vestido.
— Senhor, qual é a sua resposta? Eles insistem.
— Maldição, homem! — Michael esfregou a têmpora. — Está bem. Deixe que suba. Apenas o tal do Juan. Não quero um bando de estranhos bagunçando meu avião.
— Sim, senhor.
Os próximos minutos selariam o meu destino. Não havia tempo nem refúgio para mim. Apenas mais uma derrota.
— Laura, tudo bem?
Por mais genuína que fosse a sua preocupação, o senhor Grant não poderia fazer uma pergunta mais absurda. E eu, mentir de forma mais deslavada.
— Sim, estou.
As lágrimas ardendo no fundo dos meus olhos diziam o contrário.
— O que foi? Está pálida?
— É só um pouco de dor de cabeça. — Dizer essas palavras e baixar o meu rosto foi o tempo de uma lágrima despencar das bochechas.
— Tome. Acho que agora precisará disso. — Michael enterrou de forma sutil seu lenço entre meus dedos, me encorajando a ir me recompor no banheiro.
Se a morte me esperava no fim daquela noite, o gesto do senhor Grant seria a última gentileza da minha vida.
— Obrigada. Com licença. — Eu me levantei daquela poltrona para o banheiro de pernas bambas.
— Não era o seu lenço favorito?
— Não seja indiscreto, Paul.
— Mulher esquisita. Você viu? Ela estava chorando.
— Ah, Deus, que noite, que noite! Parece que tudo de errado desmorona ao mesmo tempo. E cadê esse bendito espanhol? O que ele quer? Que eu vá buscá-lo pela mão?
Michael nem terminara de reclamar, passos foram ouvidos no topo da escada. Eram do Juan. Ele entrou.
— ¡Buenas noches!
Seus olhos de mel capturaram os azuis do Michael, que pediu a conversa em inglês.
— Claro. No seu idioma.
— Senhor Montoya, que honra inesperada. Sabia que o senhor está agitando o aeroporto?
— Nunca foi minha intenção.
— Ainda assim, o seu pequeno agito atrasou o meu voo.
— Lamento de verdade.
— E eu acredito.
Ali estavam dois homens poderosos, frente a frente, provando que os opostos não se atraem. Se toleram.
— Vejo que também é um homem bastante ocupado. Portanto, serei breve. Perdi algo de extremo valor esta noite e quero de volta.
— Do que se trata? Deve ser algo muito importante para bloquear toda a pista.
Eu vomitei quando Michael lançou essa pergunta. Ajoelhada e com a cabeça enfiada na privada, só faltava sair a alma.
— Responda-me, senhor Montoya: o que exatamente foi perdido?
— Gosta de cachorro, senhor Grant? A minha preciosa poodle fugiu de mim. E a verdade é que eu não posso viajar e deixá-la para trás. Eu morreria de coração partido.
— Entendo. Mas garanto que não há nenhum cão a bordo.
— Um animal pequeno e assustado poderia facilmente entrar sem ser notado. Creio que não se importará se eu fizer uma busca rápida... por precaução.
Michael apenas moveu a cabeça, disse sim com o rigor analítico do seu olhar. Atrás da porta, eu procurava reduzir o barulho do ar. Mas, a cada segundo, o cubo do banheiro encolhia.
A busca começou pelo cockpit: nada. A cozinha: limpa. Os dormitórios: vazios. O primeiro banheiro: ninguém. Chegou então mais perto de mim, centímetro a centímetro.
— Já olhou tudo. Não há mais lugar neste avião para um cachorro se esconder. — A voz de Michael foi um martelo de tribunal. — Chega de busca!
— Ainda não olhamos aquele banheiro.
Agora estou perdida, pensei, enquanto os passos do meu marido pararam diante do banheiro, sua respiração quente bufando do outro lado, a mão suspensa, pronta para empurrar a porta.
— Já disse que basta! Esta aeronave não é nenhum canil, senhor Montoya. Perdeu algo? Procure no seu próprio avião.
Juan não recuou de imediato. Seu rosto se voltou apenas e bem devagar para Michael por cima do ombro.
— Eu insisto que ainda falta esse cômodo.
— Saia, por favor. Não atrase ainda mais os meus compromissos.
— O senhor tem muita pressa. Pressa demais, às vezes, leva os homens à ruína.
— E teimosia demais ao ridículo. Agora vá. E boa sorte na sua busca. Tomara que encontre o seu pet.
— Eu vou encontrá-la. Sou paciente.
Juan abriu um sorriso mudo, longe de ser um sinal de fracasso. Saiu como entrou: exalando uma arrogância inabalável. Não olhou para trás, pois seria humilhante; deixou suspenso apenas um rastro de perfume ácido que servia como um ultimato: “Querida Laura, volte. Não se esconderá de mim por muito tempo.”
— Que sinistro! — Paul enfiou as mãos no bolso. —Tive a impressão de que aquele homem te ameaçou, Michael?
— Já estou acostumado com essa laia. E quer saber? Estou cansado demais. Vamos decolar e esquecer o patife. No que depender de mim, eu nunca mais tornarei a vê-lo.
O couro preto da poltrona cedeu quando Michael afundou nela, o rosto sério, o uísque já esquecido ao lado. Uma comissária ofereceu-lhe outra bebida. Um martini. Ele aceitou.
Finalmente a porta do avião se fechou, e eu voltei à cabine como quem emerge de um mergulho nas brasas. Inspirei fundo, endireitei os ombros e deixei que a máscara da tradutora substituta cobrisse as marcas da minha tristeza, certa de que aqueles dois ingleses eram apenas um trecho da minha jornada.
— A sua dor de cabeça passou?
— Está passando, senhor Grant. Obrigada por perguntar.
— Estive preocupado. Minha tradutora ficou muito tempo no banheiro.
— Enxaqueca é um mal terrível — respondi.
— É. — Ele estalou o polegar. — Enxaqueca.
— Laura, se você precisar de remédio, as comissárias podem providenciar. Basta pedir.
— Obrigada, senhor Paul. Eu já me sinto melhor.
— Senhor Paul, não. Só Paul. O velho aqui é o vovô Michael.
O senhor Grant já não participava mais da nossa conversa. Voltara toda a sua alma para a janela, tão concentrado quanto um pintor diante de uma tela. Eu pagaria para ouvir seus pensamentos.
— Atenção, tripulação, recebemos autorização da torre. Preparar para a decolagem.
O jato vibrou com mais força, deixando o hangar para trás e tomando posição na pista 36R. Em segundos, ganhamos o céu, a madrugada passando veloz pela minha janela enquanto as luzes de Barajas se tornavam pontos distantes e amarelos.
Adeus, Juan. Até nunca mais!