Meu marido esperou a autorização do Michael lá fora, no primeiro degrau da escada do jatinho particular. Ao seu lado, três viaturas da segurança do aeroporto e mais um sedã preto com quatro capangas armados.
— O que é todo esse circo? James Bond? — Michael olhou pela janela.
— Senhor Grant, o empresário espanhol pede a colaboração de todas as aeronaves.
— Diga que não concedo autorização. Estamos atrasados. Este avião já deveria estar no ar.
— Senhor, seguimos o protocolo.
— Michael, ouça o piloto. Quanto mais você resistir, mais tempo perdido.
Eu queria me jogar aos pés dele e implorar que não ouvisse os conselhos de Paul. Pedir a sua proteção. Mas tudo o que eu fiz foi cravar as unhas na saia do vestido.
— Senhor, qual é a sua resposta? Eles insistem.
— Maldição, homem! — Michael esfregou a têmpora. — Está bem. Deixe que suba. Apenas o tal do Juan. Não quero um bando de estranhos bagunçando meu avião.
Os próximos minutos selariam o meu destino. Não havia tempo nem refúgio para mim. Apenas mais uma derrota. O senhor Grant percebeu a palidez da minha pele.
— Laura, tudo bem?
Por mais genuína que fosse a sua preocupação, ele não poderia fazer uma pergunta mais absurda.
— Sim, estou.
As lágrimas ardendo no fundo dos meus olhos diziam o contrário.
— É só um pouco de dor de cabeça.
Dizer essas palavras e baixar o meu rosto foi o tempo de uma lágrima rolar pela bochecha.
— Tome. Acho que agora precisará disso.
Michael enterrou de forma sutil seu lenço entre meus dedos, me encorajando a ir me recompor no banheiro. Se a morte me esperava no fim daquela madrugada, o gesto do senhor Grant seria a última gentileza da minha vida.
Se eu revelasse a verdade para ele, será que ele iria me proteger? Não. Só colocaria a sua vida em risco. Michael até poderia ter muito dinheiro, mas estava longe do seu país. Estávamos na Espanha, o território do Juan e dos seus aliados poderosos. Isso já dizia tudo.
— Com licença. — Eu me levantei daquela poltrona para o banheiro de pernas bambas.
— Não era o seu lenço favorito?
— Não seja indiscreto, Paul.
— Mulher esquisita. Você viu? Ela estava chorando.
— Ah, Deus, que noite, que noite! Parece que tudo de errado desmorona ao mesmo tempo. E cadê esse bendito espanhol? O que ele quer? Que eu vá buscá-lo pela mão?
Michael nem terminara de reclamar, passos foram ouvidos no topo da escada. Eram do Juan. Ele entrou.
— ¡Buenas noches!
Seus olhos âmbar capturaram os azuis do Michael, que exigiu a conversa em inglês.
— Claro. No seu idioma.
— Senhor Montoya, que honra inesperada. Sabia que o senhor está agitando o aeroporto?
— Nunca foi minha intenção.
— Ainda assim, o seu pequeno agito atrasou o meu voo.
Ali estavam duas personalidades fortes. Dois leões provando que os opostos não se atraem. Se caçam. E aquela era apenas a primeira vez que eles se enfrentavam. Os dois ainda travariam uma ferrenha antipatia e rivalidade por minha causa.
— Vejo que também é um homem bastante ocupado. Portanto, serei breve. Perdi algo que me pertence e quero de volta.
— Deve ser muito importante para bloquear toda a pista. Responda-me, senhor Montoya: o que exatamente foi perdido?
Eu vomitei quando Michael lançou essa pergunta. Meu estômago se contorcia.
— Gosta de cachorro, senhor Grant? A minha preciosa poodle fugiu de mim. E a verdade é que eu não posso viajar e deixá-la para trás. Eu morreria de coração partido.
— Entendo. Mas garanto que não há nenhum cão a bordo.
— Uma cadela pequena e assustada poderia facilmente entrar sem ser notada. Creio que não se importará se eu fizer uma busca rápida, por precaução.
Michael apenas moveu a cabeça, disse sim com o rigor analítico do seu olhar. Atrás da porta, eu procurava reduzir o barulho do ar. Mas, a cada segundo, o cubo do banheiro encolhia.
A busca começou pelo cockpit: nada. A cozinha: limpa. Os dormitórios: vazios. O primeiro banheiro: ninguém. Chegou então mais perto de mim, centímetro a centímetro.
— Já olhou tudo! — decretou Michael. — Não há mais lugar neste avião para um cachorro se esconder. Chega de busca!
— Ainda não olhamos aquele banheiro.
Agora estou perdida, pensei, enquanto os passos do meu marido paravam diante do meu banheiro, sua respiração quente bufando do outro lado, a mão suspensa, pronta para empurrar a porta.
— Já disse que basta! Esta aeronave não é nenhum canil, senhor Montoya. Perdeu algo? Procure no seu próprio avião.
— Eu insisto que ainda falta esse cômodo.
— Saia, por favor. Não atrase ainda mais os meus compromissos.
— O senhor tem muita pressa. Pressa demais, às vezes, leva os homens à ruína.
— E teimosia demais ao ridículo. Agora vá. E boa sorte na sua busca. Tomara que encontre o seu pet.
Juan abriu um sorriso mudo e baixou a mão. Passou por Michael bem devagar e o olhou até ultrapassá-lo totalmente, até cruzar a escotilha do avião e descer as escadas. Seu perfume ficou no ar como um rastro de madeira que servia de ultimato: “Querida Laura, eu vou te achar.”
— Que sinistro! — Paul enfiou as mãos no bolso. — Tive a impressão de que aquele homem te ameaçou, Michael?
— Já estou acostumado com essa laia. E quer saber? Estou cansado demais. Vamos decolar e esquecer o patife. No que depender de mim, eu nunca mais tornarei a vê-lo.
Não só se veriam de novo, como trocariam socos.
O couro preto da poltrona cedeu quando Michael afundou nela, o rosto sério, o copo já vazio ao lado. Uma comissária ofereceu outra dose. Ele aceitou.
Enfim a torre autorizou o voo, e eu voltei à cabine como quem emerge de um mergulho nas brasas, certa de que aqueles dois ingleses eram apenas uma ponte para minha liberdade.
— A sua dor de cabeça passou?
— Está passando, senhor Grant. Obrigada por perguntar. Enxaqueca é um mal terrível.
— É. — Ele estalou o polegar. — Enxaqueca.
— Laura, se você precisar de remédio, as comissárias podem providenciar. Basta pedir.
— Obrigada, senhor Paul. Eu já me sinto melhor.
— Senhor Paul, não. Só Paul. O velho aqui é o vovô Michael.
O senhor Grant já não participava mais da nossa conversa. Voltara toda a sua alma para a janela. Relaxado, de botões abertos, ele ficava duplamente interessante.
O jato vibrou ao deixar o hangar, alinhando posição no meio da pista 36R. Em segundos, ganhamos o céu. As luzes de Madri agora eram vultos velozes através da minha janela, com meu marido ficando para trás.
"Adeus, Juan. Até nunca mais!" Suspirei. Acreditava que nossos caminhos jamais se cruzariam de novo. Eu não poderia estar mais iludida.