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Capítulo 4 — O Lobo Mau de Madri

O pior não era o medo ancorando o meu corpo naquela poltrona macia do avião. Era a certeza de que, se Juan botasse as mãos em mim, a partir daquele momento eu teria um capanga vigiando até os meus sonhos. Ele nunca mais abriria uma brecha por onde eu pudesse escapar do seu lado.

Com a garganta se fechando e a boca um deserto, eu não conseguia parar de olhar para a porta aberta da aeronave sem que a minha cabeça inventasse o rangido dos sapatos de Juan entrando por ela.

Meu marido esperava a autorização de Michael lá fora, no primeiro degrau da escada. Com ele, três viaturas da segurança do aeroporto e mais um sedã preto com quatro capangas armados para uma guerra.

— O que é todo esse circo? James Bond? — Michael olhou pela janela.

— Senhor Grant, o empresário espanhol pede a colaboração de todas as aeronaves.

— Diga que não concedo autorização. Estamos atrasados.

— Senhor, seguimos o protocolo.

— Michael, ouça o piloto — aconselhou Paul. — Quanto mais você resistir, mais tempo perdido.

Eu queria me jogar aos pés dele e implorar que mandasse o protocolo para o quinto dos infernos. Pedir a sua proteção. Mas tudo o que fiz foi cravar ainda mais fundo as unhas na saia do vestido.

— Senhor, qual é a sua resposta? Eles aguardam.

— Maldição, homem! — Michael olhou outra vez pela janela. — Está bem. Deixe que suba. Apenas o tal Juan. Não quero um bando de mercenários bagunçando meu avião.

Os próximos minutos selariam o meu destino. Não havia tempo nem refúgio para mim. Apenas mais um suspiro de liberdade. O Último.

— Laura, tudo bem?

Michael Grant percebeu a palidez da minha face. Por mais genuína que fosse a sua preocupação, ele não poderia fazer uma pergunta mais absurda.

— Estou.

As lágrimas ardendo no fundo dos meus olhos diziam o contrário. Estou perdida. Estou sozinha. Estou com medo.

— É só um pouco de dor de cabeça.

Essa mentira veio acompanhada de uma lágrima cruzando a bochecha.

— Tome. Acho que agora precisará disso.

Michael enterrou de forma sutil seu lenço entre meus dedos, me encorajando a ir me recompor no banheiro. Se a morte me esperava no fim daquela madrugada, o gesto daquele britânico seria a última gentileza na minha memória.

Se eu revelasse a verdade, será que ele iria me proteger? Não. Apenas colocaria a sua vida em risco. Michael até poderia ter muito dinheiro, mas estava longe do seu país. Estávamos na Espanha, o território de Juan e dos seus aliados poderosos. Isso encerrava o assunto.

— Com licença. — Levantei daquela poltrona para o banheiro de coração partido.

— Não era o seu lenço favorito?

— Não seja indiscreto, Paul.

— Mulher esquisita. Você viu? Ela estava chorando.

— Mas que noite! Que noite! Parece que tudo de errado desmorona ao mesmo tempo. E cadê esse bendito espanhol? O que ele quer? Que eu vá buscá-lo pela mão?

Michael nem terminara de reclamar, passos foram ouvidos no topo da escada. Eram de Juan. Ele entrou. Um metro e oitenta e cinco de pura soberba, embalado num terno Prada feito sob medida.

— ¡Buenas noches!

Seus olhos âmbar capturaram os azuis de Michael, que exigiu a conversa em inglês.

— Claro. No seu idioma.

— Senhor Montoya, que honra inesperada. Sabia que o senhor está agitando o aeroporto?

— Nunca foi minha intenção.

— Ainda assim, o seu pequeno agito atrasou o meu voo.

Ali estavam duas personalidades fortes. Dois leões provando que os opostos não se atraem; se caçam na primeira oportunidade.

— Vejo que também é um homem bastante ocupado, senhor Grant. Portanto, serei breve.

Juan deu mais alguns passos pelo corredor, seu cheiro invadindo o banheiro me deu náuseas.

— Perdi algo que me pertence e quero de volta.

— Deve ser muito importante para bloquear toda a pista. Responda, senhor Montoya. O que exatamente foi perdido?

O vômito seco subiu pela minha garganta no instante em que Michael lançou a pergunta. Cobri minha boca, lutando contra o próprio estômago se contorcendo.

— Gosta de cachorro, senhor Grant? A minha preciosa poodle fugiu de mim. E a verdade é que eu não posso viajar e deixá-la para trás. Somos tão apegados um ao outro.

— Entendo. Mas garanto que não há nenhum cão a bordo.

— Uma cadela pequena e assustada poderia facilmente entrar sem ser notada. Creio que não se importará se eu fizer uma busca rápida, por precaução.

Michael apenas moveu a cabeça, disse "sim" com o rigor analítico do seu olhar.

Atrás da porta, eu procurava respirar. Mas, a cada segundo, o cubo do banheiro encolhia. A busca começou pelo cockpit: nada. A cozinha: limpa. Os dormitórios: vazios. O primeiro banheiro: ninguém. O aroma que eu conhecia tão bem chegava mais perto, centímetro a centímetro.

— Já olhou tudo. Não há mais lugar neste avião para um cachorro se esconder. Chega de busca!

— Ainda não abrimos aquela porta.

Agora estou perdida. Pensei. Os passos do meu marido pararam diante do meu banheiro, sua respiração quente bufando do outro lado, a mão suspensa, pronta para empurrar com força.

— Já disse que basta! Esta aeronave não é nenhum canil, senhor Montoya. Perdeu algo? Procure no seu próprio avião.

— O senhor tem muita pressa. Pressa demais, às vezes, leva os homens à ruína.

— E teimosia demais, ao ridículo. Agora vá. E boa sorte na sua busca. Tomara que encontre o seu pet.

Juan abriu um sorriso mudo e baixou a mão. Passou por Michael bem devagar e o encarou até ultrapassá-lo totalmente — ombro a ombro. Não disse mais uma palavra, nem olhou para trás, até cruzar a escotilha e descer as escadas, apenas deixando no ar um perfume como um rastro de madeira que servia de ultimato: “Querida Laura, eu vou te achar.”

— Que sinistro — Paul comentou. — Tive a impressão de que aquele homem te ameaçou, Michael.

— Já estou acostumado com a laia. E quer saber? Estou cansado demais. Vamos decolar e esquecer o patife. No que depender de mim, eu nunca mais tornarei a vê-lo.

Não só se veriam de novo, como trocariam socos em um futuro próximo. Mas ali, sob o teto pressurizado do jato, o caso parecia encerrado. Pelo menos para Michael Grant, que afundou na poltrona diante da janela e pediu outra dose de uísque puro à jovem comissária de cabelos ruivos.

Enfim a torre autorizou a decolagem. Voltei à cabine ainda tremendo e ciente de que aqueles dois ingleses eram meu passaporte, uma ponte para a liberdade. Eu devia a vida a Michael Grant, embora ele não soubesse disso.

— A dor de cabeça passou? — Michael quis saber.

— Está passando — respondi. — Obrigada por perguntar. Enxaqueca é terrível.

— É. — Ele estalou o polegar. — Enxaqueca.

— Laura, se você precisar de remédio, as comissárias podem providenciar. Basta pedir.

— Obrigada, senhor Paul. Eu já me sinto melhor.

— Senhor Paul, não. Só Paul. Quem tem noventa anos aqui é o Michael.

Verdade ou não, Michael Grant já não prestava mais atenção na conversa. Ele girava o copo de uísque devagar, absorto no que via além da janela. Nem sei se ouviu a voz do comandante: “tripulação, preparar para a decolagem”, pois não esboçou reação. Continuou imóvel, mergulhado nos próprios segredos.

O jato vibrou para fora do hangar, alinhando posição na pista 36R. Em segundos, ganhamos o céu. As luzes de Barajas se transformaram num vasto lago amarelo, difuso e longínquo. Juan e Madri agora não passavam de uma página virada.

Adeus, Juan. Até nunca mais! Respirei fundo. Acreditava que nossos caminhos jamais voltariam a se cruzar. Eu nunca estive tão iludida.

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