Mundo ficciónIniciar sesiónO avião cortava o céu como se também estivesse rompendo algo dentro de mim.
Encostei a cabeça na janela, observando as nuvens se afastarem lentamente. A cada metro que eu subia, parecia que deixava para trás não apenas o Brasil… mas uma versão de mim que eu já não queria mais ser. Minha mão apertava o braço da cadeira. Eu ainda estava nervosa. Medo e empolgação disputavam espaço dentro de mim. Liana:Você consegue, Liana… — sussurrei para mim mesma. Fechei os olhos por alguns segundos e respirei fundo. Lá fora, Nova York me esperava. Ao desembarcar, o mundo parecia maior… mais rápido… mais vivo. Pessoas apressadas, vozes em diferentes idiomas, luzes, carros… tudo parecia girar sem parar. Eu caminhei devagar, puxando minha mala, tentando absorver cada detalhe. Era estranho. Ao mesmo tempo em que tudo era novo, eu sentia como se estivesse exatamente onde deveria estar. Liana:Agora começa… — murmurei para mim mesma. No primeiro mês, tudo foi um choque. A solidão apareceu nos momentos mais simples: ao chegar em casa e não ter ninguém para perguntar como foi meu dia… ao sentar para comer sozinha… ao ouvir uma música que me lembrava de coisas que eu queria esquecer. E, principalmente, nos momentos em que eu pensava nele. Porque, por mais que eu tentasse… ele ainda estava lá. Nos meus pensamentos. Nos meus hábitos. Nos meus silêncios. Mas, diferente de antes, agora… eu não corria atrás dessa dor. Eu apenas sentia. E deixava passar. Com o tempo, comecei a viver de verdade. Conheci pessoas novas. Explorei lugares que eu só via em filmes. Andei sem destino, apenas sentindo o vento no rosto. E, pela primeira vez em muito tempo… Eu me sentia livre. De volta ao Brasil Respirei fundo quando senti um toque leve em meu ombro. Abri os olhos e voltei do turbilhão de lembranças que me assombrava durante o voo. Era a aeromoça, que avisava com um sorriso gentil: Aeromoça: Já pousamos no Brasil, senhorita. Só falta a senhora descer. Sorri de volta, um tanto constrangida, e murmurei um pedido de desculpas por não ter percebido. Peguei minha mala de mão e segui até a esteira de bagagens para recolher o restante. Quando atravessei a porta de desembarque, um nó se formou na minha garganta. Lá estavam eles… minha família. Que saudade eu senti. A primeira a correr em minha direção foi Antonella, minha irmãzinha de cinco anos, com os bracinhos abertos e um sorriso que iluminava tudo. Ella: Ebaaa! Lili voltou! Ela saltou para os meus braços. Liana: Sim, meu amor, eu voltei… e trouxe presente! — respondi, rindo com lágrimas nos olhos. Carreguei-a no colo enquanto avançava em direção ao restante do grupo. Minha mãe, Lizeth, esperava com o olhar marejado. Lizeth: Oi, querida… eu quase morri de saudades. Abracei-a forte, o mais apertado que consegui. Por mais que nos falássemos por mensagens, ligações e até chamadas de vídeo, nada se comparava àquele calor de mãe que me devolvia a sensação de estar, finalmente, em casa. Depois do abraço, procurei por ele. E lá estava, um pouco afastado, como sempre fazia quando as emoções ficavam intensas demais para ele esconder. Meu pai. Nossos olhares se encontraram, e, naquele instante, senti o coração apertar. Ele não disse nada de imediato apenas abriu os braços. Corri até ele, ainda com Antonella no colo. Quando me aninhei naquele abraço, foi como se os cinco meses de distância se desfizessem em segundos. Marks: Minha menina… — murmurou contra meus cabelos. A voz falhou, e eu percebi que ele estava tão emocionado quanto eu. — Você voltou. Graças a Deus você voltou. Segurei firme em sua camisa, como se nunca tivesse partido. Liana: Voltei, pai… e voltei mais forte, como prometi. Ele se afastou apenas o suficiente para me olhar, enxugando discretamente uma lágrima que escapava. Sorriu com aquele jeito terno que sempre me derretia. Marks: Eu sabia que você ia cumprir sua palavra. Estou tão orgulhoso de você. Fiquei em silêncio. Qualquer resposta pareceria pequena diante do que eu sentia. Apenas sorri, guardando aquele momento como um tesouro. Logo depois, seguimos juntos para casa, entre risadas, histórias interrompidas pela emoção e a alegria simples de estar de volta. Era muito bom estar em casa. Assim que chegamos, minha mala foi logo aberta por Miguel e Antonella, ansiosos para ver os presentes que eu havia trazido. Todos amaram, e entre risadas e conversas, o tempo passou leve. Depois, jantamos juntos e cada um seguiu para o seu quarto. Arrumei apenas o essencial estava cansada demais para organizar tudo. Tomei um banho rápido, me joguei na cama e comecei a pensar sobre o que faria agora que estava de volta. Respirei fundo. Com calma, tudo se resolveria. Peguei o celular e comecei a mexer nas redes sociais. Foi então que, na galeria, encontrei aquela pasta exclusiva minha e de Léo. Sem pensar muito, apaguei tudo de uma vez. Pouco depois, ouvi batidas suaves na porta. Autorizei a entrada, e pela fresta Miguel colocou o rosto. Liana: Pode entrar. Ele entrou correndo e se jogou ao meu lado, me abraçando com força. Miguel: Fiquei com tanta saudade, sua chata — disse, rindo. Liana: Eu também fiquei. Você está bem? — perguntei. Miguel: Sim, obrigado. Miguel não é filho de sangue dos meus pais. Ele era filho da governanta que trabalhou conosco quando eles se casaram. Após o falecimento dela, vítima de um câncer, ninguém da família quis assumir Miguel. Então, meus pais o acolheram e nos criaram como irmãos. O amor que temos por ele é tão grande que, muitas vezes, esquecemos que não somos ligados por sangue. Miguel, inclusive, é a cópia viva da minha mãe. Bem que dizem: quando convivemos tanto com alguém, acabamos ficando parecidos. Liana: Não precisa agradecer, bobo. A gente te ama — sorri para ele. Miguel: Eu sei… mas também sei que, por mais que eu faça tudo certo, ainda vou sentir que estou devendo aos nossos pais. Liana: Você não deve nada a eles, irmão. Pode contar sempre com a gente. Miguel tem 28 anos. É incrível, educado e carinhoso. Suas sardas espalhadas pelo rosto são um charme, assim como os cabelos loiros queimados de sol — consequência das horas que passa surfando. Nossa mãe é dona de um restaurante à beira-mar, e estamos sempre por lá. Já meu pai é um magnata, dono de uma empresa de investimentos o que nos coloca no patamar de uma das famílias mais ricas da América Latina.






