Mundo ficciónIniciar sesiónTiago Souza narrando
Três anos… três malditos anos que estou preso neste lugar. Talvez eu aceitasse de boa se tivesse realmente feito aquilo de que me acusam. Mas não fiz. Nunca fiz. A criação que minha mãe e meu padrasto me deram me ensinou outra coisa: sempre fui estudioso, sempre andei na linha, sempre tratei todos com respeito. Minha mãe sempre dizia: “Por sermos negros, temos que ser dez vezes melhores.” Aqui dentro, não consigo dormir. É preciso estar sempre alerta, porque, em um piscar de olhos, podemos estar mortos. Carlos: Tá sem sono, é? Ele está aqui há mais tempo e disse que também foi preso injustamente. Tiago: Já faz três anos que eu não sei o que é dormir. Ele concordou, o mesmo sentado no chão, enquanto rabiscava algo com um pedaço de carvão na mão. Ficamos em silêncio por alguns segundos. Apenas o ranger da cama e o murmúrio distante de outros presos preenchiam o espaço. Carlos: Eles não vão achar nada — disse, tentando soar confiante, mas havia um cansaço profundo na voz dele. — Um dia a verdade aparece. Olho para ele, mas não consigo sentir esperança. A rotina aqui te desgasta por dentro. Cada dia é uma batalha contra o tédio, contra o medo… contra você mesmo. Me recosto na parede, os olhos fixos no teto, como se buscasse forças em algo invisível. Tiago: Três anos… e parece que estou há uma eternidade. O silêncio volta, pesado, interrompido apenas pelo som metálico da porta se abrindo ao longe. Cada som aqui é um alerta. Cada sombra pode ser uma ameaça. E assim seguimos, presos não só por grades, mas pelo peso da injustiça que nos sufoca. Carlos: Tem razão… faz muito tempo que não durmo direito. E você, como se sente sabendo que amanhã será solto? Soltei um suspiro fundo e levei uma das mãos até a costela, sentindo a pele marcada. Tiago: Não sei… estou sem esperança. Já falaram que eu sairia outras vezes, mas nunca aconteceu. Carlos: Mas agora vai, meu amigo. Espero que eu tenha a chance de sair daqui também. Vou te procurar, viu? Tiago: Claro que você vai sair. Não foi você mesmo que disse que, uma hora, as coisas aparecem? Ele deu um sorriso de lado, ciente de que já estávamos saturados e exaustos. Uma lágrima solitária escorreu dos meus olhos, e eu a enxuguei na mesma hora, sem coragem de mostrar fraqueza. Carlos deitou em seu lugar, e por um momento houve silêncio. Nada de sono, nada de horário… só sabíamos que era noite. E, por incrível que pareça, essa noite demorou a passar. No dia seguinte, acordei com o barulho metálico da porta se abrindo. Meu coração disparou. Cada movimento parecia amplificado, cada som dentro daquele lugar era um alerta. Levantei ansioso e segui em direção ao banheiro com Carlos, já que era o mesmo para todos. Fizemos nossa higiene e ficamos conversando até sermos liberados para o café. Carlos: Vê se vive, não fica muito preocupado, hein? Tiago: Nem saí ainda… e também não tenho certeza de que vou sair hoje. Respondi, meio desconfiado. Carlos: Eu sei que vai — ele retrucou, convicto. Tiago: Tem que prometer que não vai se meter em confusão. Pedi, olhando firme em seus olhos. Ele apenas concordou com a cabeça. Conversamos mais um pouco e voltamos para nossa cela. Horas depois, um agente apareceu na grade e chamou meu nome. Caminhei pelo corredor de paredes úmidas e mofadas. A pintura amarela já descascava em vários pontos. Panos velhos estavam amarrados nas grades, tentando esconder um pouco da imundície. O cheiro era o mesmo de sempre: ferrugem, suor e desespero. Cheguei a uma sala onde dois homens me esperavam. A sala era fria, iluminada por uma lâmpada que piscava de vez em quando. Sentei na cadeira de ferro, o coração batendo rápido. Dois agentes estavam diante de mim. Um deles segurava a tornozeleira — pesada, preta, com um fecho metálico que mais parecia uma algema moderna. Explicaram que iriam colocá-la em mim. Já estava ciente disso. O advogado público que meus pais conseguiram me alertou que, mesmo saindo dali, eu ainda seria vigiado. Era a liberdade com correntes invisíveis. Agente: É simples, Tiago — disse o mais velho, com a voz firme, sem demonstrar emoção. — Isso aqui vai ficar preso na sua perna direita. É à prova d’água, então não adianta tentar dar um jeitinho. O outro agente se aproximou, mostrando a tela de um aparelho. Agente: Funciona por GPS. Qualquer lugar que você for, a gente sabe. Você terá horários determinados para sair de casa, só para compromissos autorizados. Se tentar burlar, cortar ou desligar… — fez uma pausa, olhando diretamente nos meus olhos — volta pra cá na mesma hora. Engoli seco. O peso do objeto parecia muito maior do que era. Tiago: E quanto tempo vou usar isso? — perguntei, a voz falhando sem querer. O agente mais velho deu de ombros. Agente: Isso quem decide é a Justiça. Pode ser meses, pode ser anos. Vai depender do seu comportamento e do andamento do processo. Senti a pressão do fecho travando contra minha pele. O estalo metálico ecoou dentro de mim como uma sentença. Eu estava prestes a sair… mas não estava livre. O caminho até a saída foi rápido e estranho. Tudo parecia maior, mais aberto… e, ao mesmo tempo, assustador. Quando finalmente pisei do lado de fora, o ar fresco me cortou como se fosse a primeira vez em anos. Fechei os olhos, sentindo aquele ar livre. O céu parecia maior… tudo parecia maior. De olhos fechados, ainda respirei fundo, sentindo as lágrimas escorrerem. Segurava uma sacola com algumas coisas minhas. Abri os olhos… e os vi. Minha mãe, com os olhos vermelhos de tanto chorar. Meu padrasto, firme, tentando esconder o alívio. E minhas irmãs, com um sorriso que parecia não caber no rosto. Corri até eles, deixando a sacola cair, e fui abraçado por todos ao mesmo tempo. Marcela: Meu filho! — minha mãe sussurrou, segurando meu rosto entre as mãos. — Eu pensei que nunca mais… Tiago: Eu estou aqui, mãe… estou aqui. Respondi com a voz embargada, enquanto lágrimas desciam sem controle. Minha irmã pequena olhou curiosa para a tornozeleira, depois para mim. Sem medo… apenas curiosidade. Me agachei para ficar na altura dela, tentando sorrir — um sorriso cheio de vergonha e amor ao mesmo tempo. Ayla: Você é meu irmão… Ela disse baixinho, quase um sussurro. Meu peito se apertou. Era real. Eu estava ali. Livre… mas marcado. A tornozeleira latejava levemente contra minha pele, lembrando que o mundo ainda me vigiava. Mas, naquele instante, no abraço da minha família, eu me senti, pela primeira vez em anos, um pouco inteiro. Meu padrasto, que considero como pai, me olhava com compaixão. Um olhar de alívio… e, finalmente, ele sorriu para mim, deixando uma lágrima solitária cair. Ele sempre tenta parecer o mais durão. Fui até ele e o abracei forte. Ele logo correspondeu. Tiago: Senti saudades, pai. Luis: Também senti, filho. Vamos pra casa… para nossa casa. Concordei. Seguimos em direção ao carro vermelho parado no acostamento. Minha mãe e minhas irmãs entraram no banco de trás, enquanto eu me sentei no banco da frente. Antes de meu pai colocar o carro em movimento, olhei para as grandes letras daquele lugar… e prometi para mim mesmo que nunca mais voltaria ali. Observando a paisagem da orla, senti o peso dos três anos desaparecer — mesmo que por alguns segundos. O mundo lá fora parecia novo. Cheio de cores que eu havia esquecido. E a sensação de estar finalmente livre me fez perceber o quanto senti falta de cada detalhe… de cada toque… de cada abraço. Lembrei de Carlos. E, no fundo, torci para que ele também tivesse a chance de ver o mundo e suas cores novamente.






