Capítulo 3 — Fingindo

Emma acordou sobressaltada.

Estendeu a mão para o lado da cama.

Vazio.

O coração deu um pequeno salto antes mesmo de ela pensar qualquer coisa.

Sentou-se devagar, pegou o robe de seda e o vestiu ainda sonolenta.

Ao sair do quarto, foi envolvida por dois sons inesperados.

Thiago cantava baixinho.

E o cheiro de café fresco preenchia o corredor.

Ela seguiu o som até a cozinha.

Encontrou-o de costas, concentrado, mexendo algo no fogão, completamente fora do cenário habitual das manhãs apressadas.

— Achei que você já tinha ido pra empresa. — disse, encostando no batente da porta.

Thiago virou-se com um sorriso tranquilo.

— Eu li que você precisa se alimentar bem. — respondeu, simples. — Então fiz café da manhã.

Apontou para a mesa já posta.

— Depois a gente vai pros exames… e só então eu vou trabalhar.

Aproximou-se dela, beijou-lhe a testa com cuidado.

— Isso, claro, se você estiver se sentindo bem. — completou. — Se não, a gente volta pra casa.

Emma respirou fundo.

— Amor… não precisa disso tudo. — disse com suavidade. — Não quero essa preocupação toda em cima de mim. Nem você ficando lendo essas coisas.

Thiago inclinou a cabeça, sério pela primeira vez.

— Emma Rocha… — disse com firmeza. — Isso é meu dever como seu marido.

Ela riu, quebrando a tensão que tinha se instalado no ar.

— Você ainda não é meu marido.

Thiago deu dois passos à frente, segurou-a pela cintura e a puxou para perto, colando os corpos.

— Não por muito tempo. — murmurou, a voz baixa, segura.

Encostou a testa na dela.

— Eu te amo, linda. — disse. — E eu tô com você pra tudo.

O beijo veio lento.

Sem pressa.

Cheio de cuidado.

Não como promessa.

Mas como certeza.

Emma estava decidida a fingir.

Fingir que era só mais um dia.

Fingir que o estômago não estava embrulhado.

Fingir que o coração não batia rápido demais.

Thiago serviu duas xícaras.

Emma passou manteiga no pão como se aquilo exigisse concentração absoluta.

— Obrigado, tudo está ótimo. — disse, mordendo o pão sem vontade.

Sorriu pequeno, treinado.

Thiago observava em silêncio.

— Coma mais, você precisa se alimentar bem e fazer todas as refeições certas. — disse

Eles conversam sobre qualquer coisa.

O trânsito.

Uma reunião qualquer.

O tempo fechado.

Nenhum dos dois trocou no assunto que martelava na cabeça deles.

Emma levantou dizendo que ia se trocar.

No quarto, fechou a porta com cuidado.

Abriu o guarda-roupa e ficou parada por alguns segundos, olhando as roupas como se nenhuma fizesse sentido.

Escolheu algo simples.

Nada justo demais.

Nada claro demais.

As mãos tremiam levemente ao fechar o zíper.

Ela respirou fundo.

Uma.

Duas.

Três vezes.

Firme. Você precisa estar firme.

Quando Thiago entrou no quarto, ela já estava com a bolsa na mão.

— Vamos, amor? — ele perguntou, suave.

Emma apenas balançou a cabeça.

Não confiava na própria voz.

Saíram juntos.

No carro, o silêncio era diferente do de casa.

Mais denso.

Mais carregado.

Thiago dirigia com atenção.

Uma mão no volante.

A outra, em alguns momentos, encontrava a dela no console.

Emma não olhava pela janela.

O olhar estava fixo à frente, perdido.

No laboratório, o cheiro forte de antisséptico a fez engolir em seco.

A enfermeira sorriu profissional.

— Pode entrar, senhorita Emma.

Ela sentou na cadeira, estendeu o braço.

O elástico apertou.

A agulha entrou.

Ela não chorou.

Não reclamou.

Thiago estava ali.

De pé.

Próximo demais para ser coincidência.

Segurou a mão dela no exato momento em que o sangue começou a correr pelo tubo.

Emma fechou os olhos.

A enfermeira observou a cena e comentou, leve:

— É bom ver uma paciente tão bem acompanhada hoje em dia.

Emma abriu os olhos.

Thiago sorriu pequeno.

A enfermeira assentiu, como quem entende mais do que diz.

— Pronto. — avisou, retirando a agulha. — Já acabou.

Emma respirou aliviada… só um pouco.

Porque aquilo era só o começo.

Quando levantou, sentiu o mundo girar de leve.

Thiago foi rápido.

Apoiou-a pela cintura.

— Tô aqui. — murmurou, baixo. — Sempre.

Ela assentiu, segurando-se nele por um segundo a mais do que precisava.

Não porque fosse fraca.

Mas porque, pela primeira vez, não precisava fingir força o tempo todo.

E eles seguiram para o próximo exame.

Em silêncio.

Mas juntos.

Emma não queria ser um fardo.

Mesmo cansada, mesmo com o corpo pedindo pausa, decidiu ir para a empresa.

Precisava da normalidade.

Precisava fingir que tudo ainda estava sob controle.

No elevador, os dois permaneceram em silêncio.

Não desconfortável — protetor.

Quando chegaram ao sexto andar, Thiago se virou para ela.

— Tem certeza? — perguntou, baixo.

Emma assentiu.

— Tenho.

Ele a puxou para perto, beijou-a com cuidado.

Um beijo breve, mas cheio de promessa.

— Qualquer coisa, me liga. — disse.

— Eu sei. — respondeu, sorrindo pequeno.

As portas se abriram.

Emma saiu.

O elevador fechou, levando com ele o silêncio carregado.

Minutos depois, as portas se abriram no andar da presidência.

O som metálico foi suficiente para puxar Thiago de volta à realidade — e às preocupações que tentava organizar.

Ele respirou fundo.

Mas o alívio durou pouco.

Assim que passou pela mesa da Nathália, ela está de pé, braços cruzados, olhar atento demais para ser casual.

— Thiago… — ela disse, sem sorrir. — Onde você andou?

Ele parou.

— Você não avisou compromisso nenhum. Nem que chegaria mais tarde.

Thiago abriu a boca para responder.

E fechou.

Pensar rápido nunca tinha sido seu forte.

Muito menos inventar desculpas sob pressão.

— Desculpa, Nathi… — começou. — Eu… eu…

Ela inclinou levemente a cabeça, analisando-o.

— O que você está escondendo?

— Nada. — respondeu rápido demais. — Só… tô atrasado pra reunião, né?

E, dizendo isso, já começou a andar em direção à própria sala.

Nathália estreitou os olhos.

— Hm… — murmurou. — Thiago Albuquerque…

O tom era de quem não acreditava em uma palavra sequer.

Thiago não sabia mentir sem preparo.

Nunca soube.

Por isso, não respondeu.

Entrou na sala de uma vez e fechou a porta atrás de si, como quem precisava de paredes entre ele e a verdade que ainda não podia contar.

Do lado de fora, Nathália ficou parada por alguns segundos.

Algo estava errado.

E ela sabia.

Ainda não tinha nome.

Ainda não tinha forma.

Mas tinha peso.

E não ia passar despercebido por muito tempo.

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