Cap. 3

Gael Lewis

Sai daquela reunião maldita, me deu a oportunidade de respirar melhor.

No taxi informei o endereço da casa do meu pai.

Não posso voltar para Nova Orleans, sem ver a Rosângela, minha madrinha.

Caramba é muito difícil de me locomover, depender de taxi é um saco.

Vou ter que providenciar um carro aqui para mim.

Não posso contar com meu pai mesmo.

Tenho a Rosângela como minha mãe, mesmo que meu pai odeie isso.

Foi ela quem sempre esteve ao meu lado, então essa opinião dele não me agrega em nada.

Tenho orgulho do homem que me tornei graças a ela...

Dois garotinhos andando alegremente ao lado do seu pai.

Mas a frente outro menor no pescoço do seu pai.

Como deve ser essa sensação?

Não posso reclamar, não tive meu pai nem minha mãe, mas ainda tive alguém para me educar.

Tem crianças que infelizmente nem isso não tem.

A sorveteira que ela me trazia para tomar sorvete era a algumas esquinas da casa.

Lembro dela contando moedas para isso acontecer.

O meu herói dos carros passou a ser só de sangue e a minha verdadeira virou a Rosângela.

Fechando meus olhos, a imagem viva dela me ensinando depois da escola, me faz sorrir.

Sempre desejei que ela fosse minha mãe, só para ouvir as palavras saindo da minha boca. ‘Eu te amo mãe.’

Meu peito se apertou.

Será errado eu ter desejado uma mãe, sabendo que a minha havia falecido?

O taxi parou e eu tinha que descer.

Ainda bem que meu pai esta na sua empresa.

Olhei para aquela enorme garagem.

O Interfone estava ali no mesmo lugar.

Onde eu implorava para meu pai abrir, pedindo para me deixar entrar.

Paguei o taxista.

Sai caminhando até o interfone.

Apertei chamou.

Meu coração acelerou aguardando sua voz.

— Casa do Lewis, como posso ajudar? — Sua voz parecia cansada.

Sorri porque eu estava com saudades.

— Olá, mulher da minha vida. Você me ajuda vindo me receber!

— Meu filho! — Sua voz se alegrou. — Já estou indo.

O clique do portão se abrindo, me fez olha-lo me afastei esperando por ela.

Quase correndo ela apareceu na porta.

Sorri.

Mas ainda sim, havia um semblante de cansaço em seu rosto.

Mas perto comecei a entrar e seus braços se abriram.

Abracei ela a levantando para cima.

Enquanto fechei meus olhos sentindo seu suave perfume de rosas.

— Como você está lindo meu menino. — Ela murmurou.

Como eu queria dizer, ‘puxei minha mãe.’ Mas nem faço ideia de como ela é.

— Obrigado — Beijei sua testa.

Em seus olhos haviam um brilho suave, um que eu não conseguia identificar.

Já chamei ela de mãe quando era pequeno e naquela época meu pai ouviu.

Ele ficou tão furioso que me deu uma surra deixando marcas pelo meu corpo.

Acho que ele só não me matou, ou não me deixou com ferimentos mais sério, porque Rosângela entrou na frente.

Ela jogou seu corpo e acabou recebendo alguns golpes no meu lugar.

Mesmo vendo que era ela, ele não parou.

Ele empurrou ela para longe, me levantou pelos braços e chacoalhava como se eu fosse um boneco gritando.

‘ Sua mãe morreu moleque insolente, não ouse chamar essa empregada de mãe. Ouviu!? Sua mãe está morta!

— Filho porque você está com lágrimas nos olhos?

Olhei para Rosângela.

Sorri.

— Não é nada. — Murmurei.

— Você veio sem avisar, aconteceu alguma coisa? — Ela falou suave como sempre.

— Vim em uma reunião absurda do pai, mas não consegui ficar até o final.

Caminhei ao seu lado para dentro da casa.

Lugar bonito, grande bem cuidado, mas com lembranças que qualquer um gostaria de apagar.

Gosto de ouvir ela me chamando de filho, mas isso acontece longe dele.

Do meu pai.

— Tudo poderia ser diferente se meu pai, não fosse meu pai. — Falei.

Ela parou me encarando.

Por segundos não identifiquei sua expressão.

Mas aquele maldito aperto em meu peito voltou.

Lágrimas inundaram seus olhos.

— Falei algo errado? — perguntei enquanto entrávamos na cozinha.

— Não querido — ela murmurou com um sorriso fraco. — Estou apenas me lembrando de quando você morava aqui. — ela pausou e eu limpei suas lágrimas que escorreram — Tenho saudades de te ver todos os dias — Sua voz se embargou.

Reprimi o maldito nó na minha garganta.

— Vem morar comigo? — Falei.

Não é a primeira vez que chamo, só não entendo porque ela nunca aceita.

— Não posso meu filho. — Seu olhar caiu para baixo.

— Porque não? — Engoli o nó seco e ele desceu raspando. — Eu sei que ele te maltrata. — Ela olhou para baixo — Então porque não ir embora comigo?

Porque se ele faz o que faz na minha frente, nem quero imaginar o que faz quando não estou aqui.

— Um dia você entenderá, meu filho.

Ah! Porque ela não fala?

Ela me abraçou, não foi de saudade foi de aconchego.

Apertei forte seu corpo ao meu, me levando ao passado quando me agarrava em sua perna fugindo das surras do meu pai.

Ficamos em silêncio.

Depois contei a ela a decisão doentia do meu pai.

Por incrível que pareça, ela não ficou tão espantada o quanto deveria.

O que ela sabia dele que eu ainda não estava ciente?

Mas sim, ela ficou em choque com a escolha do Heitor, mas quem não ficaria?

Desejo mesmo que essa pobre garota se livre do inferno que a espera.

Porque meu pai, não tenho palavras para descrever a vida ao lado dele...

Parei de falar quando percebi minha madrinha um pouco abatida.

— Tem certeza que está tudo bem? — insisti.

Ela assentiu frenética.

— Sim, querido. Não se preocupe.

Franzi minhas sobrancelhas.

Tem alguma coisa errada e ela não quer me contar, desviou até seu olhar.

— Gael!

A voz dele tensionou o como todo.

Olhei para meu pai na porta da cozinha.

— O que faz aqui? Porque não foi embora? — havia nojo em seu semblante.

Endireitei minha postura.

— Já estou indo.

Maldição ele ainda é meu pai.

Porque essa dinâmica maldita? Porque?

Se eu baixar minha guarda perto dele, ele pisa e me humilhar igual no passado, mas ainda sim, me sinto péssimo agindo assim.

— Não vai ficar mais tempo? — Rosângela murmurou ao meu lado.

Olhei para ela, seus olhos estavam esperançosos.

Sorri.

Mas eu não poderia ficar.

Eu nem poderia estar aqui hoje, tenho assuntos na minha empresa.

Me admira.

Olhei para meu pai. Realmente me admiro que esse homem me chame e eu venha correndo, acreditando que algo havia mudado.

— Não posso — voltei minha atenção para ela. — Preciso voltar o quanto antes.

Seu olhar ficou triste.

E meu coração desacelerou.

Dei um beijo em sua testa, um abraço apertado.

Caminhei em direção à saída, parei de frente com ele.

Sua cabeça erguida, nariz em pé.

Olhar superior.

O olhei por segundos em silêncio.

Tencionei minha mandíbula e sai...

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