Quatro

Lorena não sabia por quanto tempo andou.

As ruas passavam diante de seus olhos como manchas sem forma, vitrines borradas pelas lágrimas que não paravam de cair. O ar da noite parecia pesado demais para entrar nos pulmões, e cada passo exigia um esforço que ela não tinha certeza se conseguiria sustentar.

A perna ainda ardia. O sangue já havia secado, mas a dor continuava ali, pulsando, como um lembrete cruel do que tinha acabado de acontecer.

Ela levou a mão ao bolso, pegou o celular.

Não havia ninguém para quem ligar.

Desde o casamento, Rafael havia ocupado todos os espaços da vida dela. Os almoços com amigos ficaram raros. As mensagens não respondidas viraram silêncio definitivo. Aos poucos, sem perceber, Lorena ficou sozinha - e agora sentia o peso disso esmagando seu peito.

O estômago, que ela havia esquecido completamente depois da cena no hospital e da humilhação na casa Menezes, voltou a doer.

Dessa vez, com força.

Uma dor profunda, que a fez se curvar levemente, apoiando-se em um poste. A respiração ficou curta. A náusea subiu rápido demais.

- Não… - murmurou, fechando os olhos.

Ela não aguentaria mais andar.

Com dedos trêmulos, abriu o aplicativo de transporte e pediu um carro. Assim que o veículo parou, Lorena entrou no banco de trás sem dizer uma palavra, abraçando a bolsa contra o peito como se fosse a única coisa que ainda lhe pertencesse.

O carro arrancou.

Ela não viu o veículo escuro que começou a segui-la desde o momento em que Lorena cruzara o portão da casa Menezes, Rafael mandara alguém atrás dela.

Enquanto isso, na mansão, o clima era pesado.

Sônia ainda falava, despejando veneno sobre o nome de Lorena, enquanto Nina assentia, fingindo compreensão, fingindo tristeza.

- Ela sempre foi ingrata - dizia a mãe. - Sempre soube que não estava à altura…

- Chega.

A voz de Rafael cortou o ar como uma lâmina.

As duas se calaram imediatamente.

- Saiam - ele ordenou, sem levantar o tom. - Agora.

Nina tentou se aproximar.

- Rafael, eu só estava tentando…

- Saia - repetiu.

Não havia espaço para questionamentos. O olhar dele estava duro demais, perigoso demais.

As duas mulheres deixaram o quarto em silêncio.

Rafael fechou a porta e ficou sozinho.

O quarto parecia maior agora. Vazio. Frio.

No chão, espalhadas de qualquer jeito, estavam algumas roupas de Lorena. Marta havia obedecido à ordem - jogado ali o que supostamente não "pertencia" a ela.

Rafael se abaixou lentamente.

Pegou uma das blusas. Aproximou o tecido do rosto e inspirou fundo.

O perfume dela ainda estava ali.

Um nó se formou em seu peito, misturado com raiva, frustração e algo que ele se recusava a chamar de culpa.

Ele tinha se sacrificado tanto.

Desde o primeiro dia na faculdade, desde o instante em que a viu sentada sozinha, concentrada, alheia a tudo. Ele se apaixonara ali. À primeira vista.

E tentou de tudo para conquistá-la.

Foram cinco anos.

Flores. Convites. Promessas.

E ela sempre fria. Distante.

Sempre dizendo que eles não combinavam. Que vinham de mundos diferentes. Que ela não era o tipo de mulher que frequentava os círculos dele.

Uma pedra de gelo.

Mas ele insistiu. Porque sabia, no fundo, que ela era a mulher certa. Só precisava enxergar.

E quando finalmente enxergou, quando finalmente aceitou ser sua esposa, ele a envolveu em tudo o que ela nunca teve.

Luxo. Proteção. Conforto.

Rafael deixou a blusa de lado e caminhou até o closet.

Abriu as portas.

Lá estavam os vestidos. As bolsas. Os sapatos. Coisas que ela jamais poderia ter comprado com o salário que ganhava antes. Coisas que ele deu sem hesitar.

Passou os dedos pelos cabides, um por um.

Lembrava de cada peça. O vestido azul que ela usou no aniversário dele. O vermelho no réveillon. O casaco de cashmere que ela achou "exagerado", mas que ele comprou mesmo assim.

Ela reclamava, às vezes. Dizia que era demais. Que não precisava.

Mas usava.

E ficava linda.

Rafael sorriu, mas o sorriso não durou.

O estômago dele se contraiu.

Não. Ela não aguentaria aquilo. Não depois de anos com ele.

Ele voltou para o quarto, os olhos fixos nas roupas jogadas no chão.

Pegou outra peça. Uma blusa mais simples, de algodão. Lembrava de quando ela apareceu com aquilo, antes do casamento. Ele odiou. Disse que parecia coisa de gente sem ambição.

Ela nunca mais usou.

Era isso que ele fizera por ela. Ensinara a ter padrão. A se valorizar. A não aceitar migalhas.

E agora ela escolhia migalhas?

Rafael apertou a blusa nas mãos.

- Ingrata - murmurou.

Ela não entendia. Nunca entenderia o quanto ele se sacrificou.

O pai batendo nele por causa dela. A família inteira contra. Os amigos rindo pelas costas. Tudo porque ele escolheu uma mulher "comum".

E ele aguentou. Por amor.

Agora, ela fugia porque ele precisava de um herdeiro?

Os dedos dele apertaram o tecido com força.

- Você vai ter que voltar pra mim - murmurou, a voz baixa, carregada de certeza. - E dessa vez vai ser você quem vai correr atrás de mim, Lolô.

Ele soltou a blusa.

Caminhou até a janela.

Lá fora, a cidade brilhava. Carros de luxo. Prédios imponentes. Tudo que ele construiu. Tudo que ele ofereceu a ela.

Ela ia sentir falta.

Não hoje. Talvez não amanhã. Mas quando o dinheiro acabasse. Quando o cartão fosse recusado. Quando precisasse trabalhar para comer.

Aí ela entenderia.

Aí ela voltaria.

Rafael respirou fundo, os ombros relaxando.

Era só questão de tempo.

- Você vai ver - disse para o reflexo no vidro. - Vai ver como o mundo é cruel sem mim.

A imagem no vidro era a de um homem confiante. Controlado. Certo de si.

Mas havia algo nos olhos - uma fagulha - que ele preferiu ignorar.

O que era aquilo?

Dúvida?

Não.

Não podia ser.

Ela voltaria.

Tinha que voltar.

Ele se virou de repente, como se afastar do reflexo pudesse afastar também a sensação incômoda que começava a crescer.

Olhou mais uma vez para as roupas no chão.

Depois para a janela.

Para a cidade imensa.

Ela estava em algum lugar lá fora.

Sozinha.

Com medo.

E, muito em breve, desesperada.

Então voltaria.

Porque Rafael Menezes não perdia.

Nunca perdeu.

Nem ia começar agora.

Pegou o celular.

Disco um número.

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