Mundo de ficçãoIniciar sessãoA dor não diminuiu.
Quando Lorena chegou ao hospital, mal conseguiu explicar o que sentia. As palavras saíam quebradas, a visão embaçada, o corpo inteiro reagindo como se estivesse em alerta máximo. Foi colocada em uma maca, luzes fortes acima do rosto, vozes rápidas ao redor.
- Pressão caiu - alguém disse.
- Dor abdominal intensa - disse outra voz.Ela fechou os olhos quando a agulha entrou na veia.
O remédio começou a agir devagar, como um véu pesado descendo sobre seus sentidos. A dor foi cedendo, não porque tinha ido embora, mas porque seu corpo já não tinha forças para gritar.
Algum tempo depois - ela não soube dizer quanto - um médico entrou no quarto. Era um homem de meia-idade, expressão séria, mas não alarmista.
- Lorena Souza? - perguntou, conferindo o prontuário.
Ela assentiu.
- Você teve uma crise de gastrite nervosa - explicou. - Já vinha ignorando os sintomas há tempo demais. Encontramos pequenas úlceras no estômago.
As palavras demoraram a fazer sentido.
- Úlceras? - repetiu, baixa.
- Sim. Nada que exija cirurgia agora, mas é um aviso claro do seu corpo. - Ele a encarou com atenção. - Você precisa controlar o estresse, as emoções. Se continuar assim, isso pode evoluir.
Lorena fechou os olhos por um instante.
Controlar as emoções.
Como se isso fosse uma escolha simples.- Vou prescrever a medicação correta e uma dieta rigorosa - continuou o médico. - E repouso. Muito repouso.
Ela assentiu de novo, automaticamente.
O médico saiu.
O quarto ficou silencioso, quebrado apenas pelo som distante dos aparelhos no corredor. O efeito do medicamento a deixava pesada, lenta, como se estivesse submersa.
Foi quando a porta se abriu novamente.
Uma enfermeira entrou, segurando um tablet e um cartão na mão.
- Senhora Lorena? - chamou, com um sorriso profissional.
- Sim… - respondeu, sonolenta.
- O cartão do seu plano de saúde foi recusado.
Lorena franziu a testa, confusa.
- Isso… isso não é possível - murmurou. - Eu usei hoje de manhã. Aqui mesmo.
- Pois é - a enfermeira respondeu, ainda sorrindo, mas agora de forma um pouco mais rígida. - Consta como bloqueado no sistema.
O coração de Lorena acelerou.
- Deve ser algum erro.
- Pode ser - concordou a mulher. - Enquanto isso, precisamos providenciar o pagamento do atendimento.
Lorena engoliu em seco.
- Eu… - levou a mão à bolsa e tirou o cartão do banco. - Pode passar nesse.
A enfermeira pegou o cartão e saiu por alguns instantes.
Lorena tentou não pensar. O remédio deixava tudo meio distante. Depois eu resolvo, pensou.
A enfermeira voltou.
- Cartão recusado - informou, agora sem sorrir.
O frio percorreu a espinha de Lorena.
- Não… - ela se sentou com dificuldade. - Tenta de novo, por favor.
A mulher tentou. O resultado foi o mesmo.
- A senhora pode verificar no aplicativo do banco?
Com dedos trêmulos, Lorena pegou o celular. Abriu o aplicativo. A tela demorou a carregar.
Quando finalmente apareceu, o aviso estava lá.
Conta bloqueada.
Aquela conta.
A conta conjunta.Tudo se encaixou de uma vez só.O plano de saúde.
O cartão.O bloqueio.Rafael.
Ele não precisava dizer nada.
O recado estava claro.Lorena sentiu o estômago se contrair de novo, não pela gastrite, mas pela compreensão brutal.
Ele quer me controlar.
A enfermeira pigarreou, visivelmente desconfortável, e forçou um sorriso educado.
- Então, senhora… - disse, com a voz treinada para não julgar. - Qual vai ser a forma de pagamento?







