Mundo ficciónIniciar sesiónEGO FERIDO
O uísque no meu copo já tinha perdido o gelo há mais de uma hora. Ontem à noite, enquanto eu deveria estar no clube BDSM finalizando o contrato com a ruiva, passei o tempo sozinho no meu apartamento, encarando a vista panorâmica do quadragésimo andar. — andei uma mensagem curta cancelando a sessão em cima da hora, sem dar explicações a ninguém. A verdade era uma só: o meu foco tinha sido completamente destruído por causa de uma garrafa de limpa-vidros, uma pá de lixo e uma faxineira abusada. E a humilhação não tinha parado por aí. Hoje de manhã, a cartada final veio como um soco no meu estômago. A caixa de veludo negro com o kit de luxo que mandei entregar no setor de limpeza voltou direto para a minha mesa. O entregador parecia desconfortável ao me devolver o pacote. Colei na tampa, escrito com uma caneta preta de traço firme, direto e sem hesitação, estava o recado: “EU NÃO SOU SUBMISSA.” Passava das duas da tarde. Eu encarava aquele bilhete como se fosse uma afronta pessoal. Nenhuma mulher jamais tinha jogado um presente meu de volta. Nenhuma jamais tinha ousado me dar uma resposta atravessada ou me olhar com o desprezo que ela usou no corredor. O padrão de todas as mulheres que passaram pela minha vida — dentro e fora do clube — sempre foi o mesmo: fascínio pelo meu dinheiro, fascínio pela minha posição, ou submissão absoluta ao meu controle. Mas aquela brasileira de olhos verdes agiu como se a minha existência, o meu império e o meu poder fossem completamente irrelevantes. Apertei o botão do interfone na mesa de mogno. — Peça ao Jeffrey para vir à minha sala. Agora. Não se passaram três minutos até que a porta da diretoria se abrisse. Jeffrey entrou com a leveza irritante de sempre, jogando a pasta de couro sobre o sofá e desabotoando o paletó cinza. Nós tínhamos a mesma idade, crescemos juntos dividindo férias na fazenda da família e nos conhecíamos desde a época em que éramos apenas dois garotos aprendendo como o mundo corporativo funcionava. Ele era meu braço direito, o diretor financeiro do grupo e a única pessoa nesta empresa que não falava comigo pisando em ovos. — O que aconteceu para você me intimar no meio do expediente? — perguntou Jeffrey, se acomodando na poltrona à minha frente. — A reunião com o conselho foi adiantada? — Você viu a mulher que está cobrindo o turno da Márcia hoje? — perguntei direto, sem enrolação, cruzando os braços sobre o peito. Jeffrey piscou, surpreso pela pergunta, e aos poucos um sorriso de canto se desenhou no seu rosto. — A Ava? Vi sim. Inclusive passei uns vinte minutos conversando com ela no andar de baixo enquanto ela limpava a minha sala. Garota incrível, extremamente espirituosa e com uma energia que este prédio estava precisando. Tranquei o maxilar, sentindo um gosto amargo na boca. — Incrível? A mulher é uma insolente sem o menor filtro. Trombou comigo no corredor de manhã, me chamou de tarado dentro do meu próprio banheiro privativo e, para fechar com chave de ouro, acabou de devolver um presente que mandei entregar para ela. Jeffrey encarou meu rosto por dois segundos inteiros. A expressão dele mudou de surpresa para um deboche absoluto. Ele jogou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada alta, que ecoou pelo teto alto da sala: — Não brinca! A filha da Márcia te deu um fora monumental logo no primeiro dia?! — Não tem nada de engraçado aqui, Jeffrey — rosnei, me ajeitando na poltrona e estreitando os olhos. — Ela é uma funcionária da empresa. Deveria, no mínimo, saber o lugar dela e manter o respeito. — Adán, meu caro primo... — Jeffrey parou de rir, mas manteve um brilho divertido nos olhos enquanto se inclinava para a frente. — Você está mal habituado. Passou a vida inteira cercado de pessoas que se dobram para o seu sobrenome ou por mulheres que assinam contratos para fazer exatamente o que você manda no seu mundo secreto. A Ava não sabe quem você é e, sinceramente? Conhecendo o temperamento daquela garota, mesmo se soubesse que você é o dono disso tudo, ela não mudaria uma única vírgula do jeito dela. Ela tem o mesmo orgulho e a mesma garra da mãe. Fiquei em silêncio, moendo a raiva no peito enquanto ouvia. — Aliás — continuou Jeffrey, ajustando os punhos da camisa —, mandei entregar um buquê de flores lindo na casa da Márcia e pedi especificamente para a Ava levar. A Márcia é uma funcionária impecável, tem anos de dedicação a esta empresa e merece o nosso respeito. Agora, se você tentou jogar seu charme de 'lobo mau' ou suas táticas de dominação para cima da filha dela... você deu com a cara no muro. A Ava não se curva para homem nenhum. — Ninguém é inabalável — respondi em tom baixo, frio. — Ela só é reativa porque não sabe como o jogo funciona. Jeffrey perdeu o tom brincalhão. Ele me encarou com uma gravidade rara, apoiando os cotovelos nos joelhos: — Tira o cavalo da chuva, Adán. Eu sei exatamente como a sua cabeça funciona quando você fecha as portas daquele clube à noite. Mas com a Ava esse seu jogo de BDSM e controle não vai funcionar. Ela não é uma das suas submissas de contrato, não precisa do seu dinheiro e não tem medo da sua postura intimidadora. Se você tentar forçar a barra com ela, vai quebrar a cara de um jeito que nunca quebrou na vida. — Você fala como se soubesse exatamente o que eu devo ou não fazer — rebati, encarando-o de frente. — Eu conheço você desde moleque, Adán — disse ele, levantando-se da poltrona com calma. — Você é acostumado a ter o domínio de tudo: do mercado financeiro, das contas da empresa, das decisões da diretoria e das pessoas com quem você se relaciona. Quando aparece alguém que você não consegue controlar nem com dinheiro, nem com poder e nem com ameaça... o seu ego entra em parafuso. Ele pegou a pasta de couro sobre o sofá, caminhou até a porta e parou com a mão na maçaneta, olhando para mim de lado: — Cuidado. Seu ego está ferido porque uma faxineira teve a coragem de te dizer 'não'. O problema de tentar dominar uma mulher que nasceu livre é que você corre o risco de ficar completamente obcecado por ela. Antes que eu pudesse retrucar, ele girou a maçaneta e saiu, deixando a porta se fechar em silêncio. Fiquei sozinho na sala imensa. Olhei novamente para a mesa, para a caixa de veludo e para as quatro palavras em tinta preta. Obcecado? Não. Eu não estava obcecado por ela. Eu só não aceitava perder. Se quiser ajustar a atitude da Ava na cena seguinte, o segundo trabalho dela ou o próximo embate dos dois, me diga exatamente onde quer mexer e como quer conduzir!






