Mundo de ficçãoIniciar sessãoHana olhou discretamente para o relógio de pulso.
Já passava das nove da noite. Ela terminou de beber a água, levantou-se da cadeira e sorriu educadamente. — Bom... foi um prazer rever a senhora, dona Fernanda. Fernanda sorriu de volta. — O prazer foi meu, querida. Hana voltou o olhar para Xavier. — E foi um prazer conhecer o senhor Xavier. Ele apenas fez um leve aceno com a cabeça. — Mas agora eu realmente preciso ir para casa trocar de roupa. Daqui a pouco tenho um plantão. Xavier franziu o cenho. — Você ainda vai trabalhar hoje? — Vou, sim. Ela pegou a bolsa. — Hoje tem show na casa de eventos. Preciso bater a meta e vender o máximo de bebidas possível. Ele demonstrou curiosidade. — Como assim, meta? — A casa estabelece uma meta de vendas para cada garçonete. — E quanto é essa meta? — Depende do movimento, mas normalmente tento vender oito mil reais em bebidas. Fernanda arregalou os olhos. — Oito mil? Hana sorriu. — Tem dias que vendo cinco mil. Em outros consigo chegar aos oito. Xavier perguntou: — E o que você ganha com isso? — Se eu atingir os oito mil, recebo trinta e cinco por cento das vendas. — Trinta e cinco por cento? — ele repetiu. — Sim. Ela deu de ombros. — Se vendo menos, ganho bem menos também. Mas às vezes recebo boas gorjetas. Percebendo a expressão dos dois, ela resolveu explicar melhor. — Eu não fico no bar preparando bebida. Os dois continuavam ouvindo. — Eu ando pelo salão com a maquininha de cartão. Vou de mesa em mesa perguntando o que os clientes querem beber. Eles pagam comigo, depois eu busco os baldes de cerveja ou as bebidas e entrego. Fernanda assentiu. — Entendi. — Alguns clientes também oferecem bebida para mim. Ela sorriu sem graça. — Mas eu quase não bebo. Xavier perguntou: — E o que faz quando ganha? — Levo para casa. Ele arqueou uma sobrancelha. — Para beber depois? Ela balançou a cabeça. — Não. Sorriu discretamente. — Tem um depósito de bebidas perto de casa. Eu revendo tudo lá. Fernanda ficou surpresa. — Você revende? — Sim. — E eles compram? — Compram. Não pelo mesmo valor, claro. Mas já ajuda bastante. Ela respirou fundo. — No fim do mês faz diferença. Xavier permaneceu olhando para ela. — Então você trabalha praticamente para sustentar sua mãe. Hana respondeu sem hesitar. — Sim. — Sua mãe é solteira? — Não. Fernanda não conseguiu esconder a surpresa. — Sua mãe é casada... e mesmo assim você sustenta a casa? Hana abaixou os olhos por um instante. — Está complicado, senhora. Sua voz continuava calma. — É uma situação complicada. Ela levantou novamente o olhar. — Eu ajudo minha mãe porque ela precisa. Fez uma pequena pausa. — Só isso. Depois sorriu educadamente. — Mas agora eu realmente preciso ir. Fernanda levantou-se. — Eu peço para o motorista levar você. — Não precisa, dona Fernanda. — Tem certeza? — Tenho. Hana sorriu. — Chamo um táxi rapidinho, passo em casa, troco de roupa e vou trabalhar. Ela fez um pequeno aceno. — Muito obrigada pelo jantar. — Boa noite. — Boa noite, querida — respondeu Fernanda. — Boa noite, senhor Xavier. — Boa noite. Hana caminhou até a porta da mansão e desapareceu alguns segundos depois. O silêncio tomou conta da sala. Fernanda continuou olhando para a porta fechada. Então virou-se para o filho. — E aí? Xavier permaneceu calado. Ela cruzou os braços. — Ainda acha que ela é uma oportunista? Ele respondeu sem alterar o tom. — Não podemos confiar em alguém tão rapidamente. Fernanda sorriu de canto. — Eu não falei em confiar rapidamente, Xavier. Ela caminhou lentamente pela sala. — Mas eu nunca vi nenhuma mulher se aproximar de você dizendo que não quer o seu cartão black. Ele permaneceu ouvindo. — Nunca vi nenhuma dizer que não quer o seu sobrenome. Ela respirou fundo. — Muito menos alguém que se contentaria com uma aliança de bijuteria... Olhou diretamente para o filho. — Sabendo que você pode comprar o anel de diamante mais caro do mundo. Xavier permaneceu em silêncio. Fernanda continuou: — E outra coisa me chamou atenção. — O quê? — Ela trabalha até a exaustão para sustentar a mãe. Fez uma pausa. — Uma mãe que é casada. Xavier também havia percebido aquela contradição. — Isso não faz sentido. — Exatamente. Fernanda suspirou. — Provavelmente esse padrasto dela é um homem folgado... ou pior. Xavier não respondeu. Ela continuou, pensativa: — E quando ela disse que usar uma aliança facilitaria a vida dela... Seu olhar ficou sério. — Aquilo não foi uma frase qualquer. Xavier recordou a expressão de Hana naquele momento. Ela não parecia feliz. Parecia aliviada com a ideia de usar uma aliança. — Tem alguma coisa por trás disso — disse ele, pela primeira vez concordando com a mãe. Fernanda assentiu. — Tem. O silêncio voltou a tomar conta da sala. Depois de alguns segundos, Xavier pegou o celular sobre a mesa. Fernanda percebeu o movimento. — O que vai fazer? Ele respondeu sem desviar os olhos da tela. — Investigar. Ergueu o olhar para a mãe. — Antes de casar com Hana Monteiro... eu quero saber de quem ela está tentando se proteger. Na manhã seguinte, Xavier chegou cedo à empresa. Assim que entrou em sua sala, apertou o botão do interfone. — Gustavo, venha até aqui. Menos de um minuto depois, seu advogado e homem de confiança entrou no escritório. — Bom dia, doutor. — Bom dia. Sente-se. Gustavo percebeu pela expressão do chefe que o assunto era sério. — Preciso que faça uma investigação discreta. — Sobre quem? Xavier abriu uma pasta e retirou uma cópia do documento de Hana. Empurrou a folha pela mesa. — Hana da Silva Monteiro. Gustavo pegou o documento. — O que exatamente o senhor quer saber? — Tudo. O advogado esperou que ele continuasse. — Onde mora. Quem mora com ela. Quem é a mãe. Quem é o marido da mãe. Quero saber se ela tem dívidas, se alguém a ameaça, se existe algum processo envolvendo o nome dela... Ele fez uma pequena pausa. — Mas sem invadir a privacidade dela de forma ilegal. — Entendido. — E, principalmente... Gustavo levantou os olhos. — Descubra por que uma mulher de vinte e cinco anos trabalha em quatro empregos e disse que uma aliança de casamento facilitaria a vida dela. — Certo. — Seja discreto. Ela não pode descobrir que está sendo investigada. — Pode deixar. Gustavo saiu da sala. Xavier permaneceu sentado, olhando pela janela. A imagem de Hana voltava à sua cabeça sem que ele percebesse. A simplicidade. A calma. O jeito como ela recusou qualquer vantagem. Aquilo não combinava com alguém interessado em dinheiro. Ele respirou fundo e voltou ao trabalho. Enquanto isso, Hana caminhava apressada até a lanchonete. Os olhos denunciavam o cansaço da noite anterior. Ela havia chegado em casa depois das seis da manhã, dormido poucas horas e já estava novamente de pé. Assim que entrou no estabelecimento, o gerente olhou para ela. — Bom dia, Hana. — Bom dia. — Dormiu? Ela deu uma risadinha. — Mais ou menos. — Você vai acabar desmaiando qualquer dia desses. — Ainda estou firme. Ele balançou a cabeça, já acostumado com a resposta. — Você é teimosa. Hana apenas sorriu e amarrou o avental na cintura. Pegou a comanda e começou mais um turno. Como fazia todos os dias. Sem imaginar que, naquele mesmo momento, alguém começava a juntar as peças da vida que ela escondia tão bem.






