capítulo 4

O silêncio tomou conta da sala.

Xavier continuou olhando para Hana, tentando entender a serenidade com que ela tinha falado.

Ela não parecia encantada pela mansão.

Não parecia impressionada com o sobrenome Lockwood.

Muito menos interessada no dinheiro.

Ela apenas parecia... cansada.

Ele puxou a cadeira à sua frente.

— Senta.

Hana olhou rapidamente para Fernanda, que apenas fez um gesto discreto com a cabeça.

Ela se sentou.

Xavier também.

Por alguns segundos, ele apenas a observou.

— Minha mãe disse que você trabalha em dois lugares.

— Sim, senhor.

— Quais?

— Numa floricultura durante o dia e numa lanchonete à noite.

— E ainda consegue sorrir desse jeito?

Ela deu um sorriso tímido.

— A gente aprende.

Ele apoiou os cotovelos sobre os joelhos.

— Você tem família?

— Não mais.

A resposta foi tão curta que ele percebeu que havia uma história ali.

Mas não insistiu.

— E por que disse que hoje passou por muita coisa?

Hana respirou fundo.

— São problemas meus.

— Entendo.

Ela sorriu de leve.

— Prefiro não trazer isso para cá.

Xavier assentiu.

— Justo.

Fernanda observava a conversa em silêncio, surpresa por ver o filho falando com tanta calma.

Ele normalmente encerraria aquela conversa em menos de cinco minutos.

Mas não estava fazendo isso.

Depois de alguns instantes, Xavier voltou a falar.

— Se esse casamento acontecer...

Hana ergueu os olhos.

— Vai ser um casamento por contrato.

Ela assentiu.

— Eu imaginei.

— Um ano.

— Certo.

— Cada um terá seu quarto.

— Tudo bem.

— Você continua trabalhando, se isso realmente é importante para você.

Ela sorriu pela primeira vez de forma mais espontânea.

— Obrigada.

— Mas haverá regras.

— Quais?

— Respeito acima de tudo. Nada de entrevistas, nada de exposição da minha vida, nada de usar meu nome para conseguir vantagens.

Hana respondeu sem pensar duas vezes:

— Eu também tenho uma regra.

Ele arqueou uma sobrancelha.

— Qual?

— Não tente controlar quem eu sou.

Aquilo fez Xavier encará-la por alguns segundos.

Ninguém jamais tinha falado com ele daquela maneira.

Sem medo.

Sem arrogância.

Apenas com sinceridade.

Ela continuou:

— Eu não quero mudar o senhor... e também não quero que tente me mudar.

Xavier permaneceu em silêncio.

Depois, um pequeno sorriso quase imperceptível apareceu no canto de sua boca.

Fernanda arregalou os olhos.

Fazia muito tempo que não via o filho esboçar qualquer sorriso durante uma conversa.

Ele estendeu a mão novamente.

— Então... acho que temos um acordo.

Hana olhou para a mão dele.

Respirou fundo.

E apertou sua mão.

— Temos um acordo.

Fernanda levou as mãos à boca, emocionada.

Seus olhos se encheram de lágrimas.

Ela tentou disfarçar, mas era impossível.

Depois de tantos anos vendo o filho rejeitar qualquer possibilidade de relacionamento, ela finalmente tinha conseguido fazê-lo dar um passo que jamais imaginou que ele daria.

O jantar seguiu em um clima surpreendentemente tranquilo.

Fernanda observava os dois conversarem com discrição. Xavier fazia perguntas objetivas. Hana respondia com a mesma sinceridade de sempre.

Depois de alguns minutos, ele pousou os talheres sobre o prato.

— Então... daqui a dois dias nos casamos.

Hana apenas assentiu.

— Tudo bem.

— Você pode me entregar um documento seu? Vou pedir para o jurídico providenciar toda a documentação.

Ela abriu a bolsa, retirou a identidade e entregou a ele.

Xavier conferiu rapidamente.

— Você tem vinte e cinco anos.

— Sim, senhor.

Ele fechou o documento.

— Eu tenho quarenta.

— Tudo bem.

A resposta foi tão natural que ele ergueu os olhos para ela.

Nem surpresa.

Nem julgamento.

Apenas um "tudo bem".

— Você gostaria de alguma coisa específica no casamento? — perguntou.

Hana balançou a cabeça.

— Não, senhor. Só preciso que me informe o horário.

— O horário?

— Sim. Assim eu aviso ao meu patrão. Vou ao casamento e depois volto para o trabalho. Dobro o plantão.

Xavier franziu a testa.

— Você dobra muito plantão?

— Às vezes, senhor.

— E esse plantão vai até que horas?

— Depende do dia.

Ele apoiou os braços na mesa.

— Porque nós podemos ter um casamento por contrato... mas eu não vou gostar de saber que a minha esposa está virando madrugada na rua.

Hana sorriu de leve.

— Senhor... eu tenho um trabalho duas vezes por semana que é justamente de madrugada.

Fernanda arregalou os olhos.

— Como assim?

— Trabalho numa casa de shows.

Antes que qualquer um dissesse alguma coisa, Hana completou rapidamente:

— Show de pagode, tá? Antes que o senhor pense que eu trabalho como stripper.

Xavier permaneceu sério.

— Eu não falei nada.

Ela sorriu sem graça.

— Eu sei... só quis deixar claro.

— O que você faz lá?

— Sou garçonete.

Ela tomou um gole de água antes de continuar.

— Saio de lá por volta das seis da manhã. Vou para casa, tomo banho, troco de roupa e sigo para a lanchonete, onde a senhora Fernanda me encontrou. Trabalho lá até o fim da tarde. Depois vou para outro emprego e fico até umas dez da noite.

Xavier a encarava em silêncio.

— E nos dias da casa de shows?

— Viro a noite.

Fernanda levou a mão à boca.

— Minha filha...

A voz dela saiu cheia de preocupação.

— Você trabalha tudo isso? Por quê?

Hana respondeu com simplicidade.

— Eu ajudo minha mãe. Ela precisa.

Depois voltou o olhar para Xavier.

— E, como o senhor disse... eu não quero o seu dinheiro.

Ele permaneceu ouvindo.

— O senhor falou que não quer que eu use seu sobrenome para conseguir vantagens.

Ela assentiu.

— Fique tranquilo. Eu não preciso disso.

Respirou fundo antes de continuar.

— A vida inteira eu trabalhei. Durante muito tempo eu virava quatro noites por semana.

Fernanda já demonstrava preocupação antes mesmo do restante da frase.

— Até que meu corpo não aguentou mais.

Hana manteve a voz calma.

— Desenvolvi anemia. Fiquei desnutrida. Dormia cerca de duas horas por dia nessas semanas.

O silêncio caiu sobre a mesa.

— Fiquei muito doente.

Ela deu um pequeno sorriso.

— Então reduzi para duas noites por semana. Nos outros dias trabalho até umas oito, às vezes dez da noite. Muito raramente fico até seis da manhã.

Olhou novamente para Xavier.

— Então pode ficar tranquilo. Eu realmente não preciso do seu sobrenome.

Ele cruzou os braços.

— Como não?

Hana respondeu imediatamente.

— Podemos casar com separação total de bens.

Fernanda olhou surpresa para ela.

— Assim o senhor nunca vai pensar que eu me aproximei para herdar alguma coisa.

Ela fez uma pequena pausa.

— E também não preciso usar o sobrenome Lockwood.

Xavier permaneceu em silêncio.

— Posso continuar sendo Hana da Silva Monteiro.

Ela sorriu discretamente.

— Sinceramente... eu nem sei o tamanho do império da família de vocês.

Fernanda abaixou os olhos.

— Foi a senhora quem me contou um pouco... mas eu nunca pesquisei. Nunca tive curiosidade por dinheiro ou por fama.

Os olhos dourados de Xavier continuavam fixos nela.

Então ele perguntou:

— Se é assim... por que aceitou casar comigo?

Hana demorou alguns segundos para responder.

— Como eu disse... eu passei por alguns problemas pessoais.

Ela respirou fundo.

— E andar usando uma aliança de casamento... vai facilitar um pouco a minha vida.

Xavier percebeu que havia algo escondido naquela resposta, mas ela claramente não queria contar.

— Só isso?

— Só isso.

Ela deu um pequeno sorriso.

— E nem precisa comprar uma aliança cara.

Fernanda a olhou, surpresa.

— Como o casamento é um contrato... e ninguém vai saber quem eu sou...

Ela voltou a olhar para Xavier.

— Pode comprar a mais simples que encontrar.

Sorriu de maneira humilde.

— Pode até ser uma bijuteria.

— Eu me contento.

Levantou discretamente a mão esquerda, como se imaginasse a aliança ali.

— Eu só preciso de uma aliança no meu dedo.

Xavier permaneceu em silêncio.

Pela primeira vez em muitos anos, ele conhecia alguém que parecia fazer questão de abrir mão de tudo o que o sobrenome Lockwood podia oferecer.

E isso, para ele, era mais difícil de compreender do que qualquer contrato de casamento.

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