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CAPÍTULO 3 – A MANEIRA COMO ELE OLHA

O jantar na mansão Hale não parecia jantar. Parecia uma cerimônia silenciosa, como se cada talher tivesse sido treinado para não fazer barulho. Charles avisara que era “tradição da casa” manter a refeição tranquila, sem conversas desnecessárias. Lia achou curioso… até desconfortável. Silêncio demais sempre a lembrava do passado.

Aria estava ao lado dela, numa cadeirinha elegante que parecia grande demais para uma criança tão pequena. A menina comia devagar, observando tudo como quem vive num planeta distante. O único som que escapava era o tilintar suave da colher.

Dominic entrou na sala exatamente às oito horas. Sem atraso, sem pressa. O tipo de homem que faz o tempo girar em torno de si. Ele vestia outra camisa, mais escura, com as mangas dobradas, revelando antebraços fortes. Nada nele parecia casual, mas ele carregava o próprio cansaço como se fosse parte do uniforme.

— Boa noite — ele disse, a voz grave cortando o silêncio.

Aria levantou os olhos para o pai. Por um segundo, Lia achou que a menina falaria algo, mas ela apenas segurou a colher com mais força.

Dominic sentou na cabeceira. O garçom serviu o prato dele, e então, por algum motivo que Lia não esperava, ele desviou o olhar para ela.

— Como foi o primeiro dia?

A pergunta veio simples, mas o olhar não. Tinha peso. Era uma avaliação. Tinha algo que deixava seu estômago apertado de um jeito estranho.

— Bom — Lia respondeu. — Aria me deixou entrar no quarto dela. Acho que foi um bom começo.

Dominic desviou rapidamente o olhar para a filha. Algo ali suavizou suas feições, mas por tão pouco tempo que era quase imperceptível.

— Isso é… raro — ele admitiu.

Raro. Não impossível. Mas raro o suficiente para fazer o ar ao redor deles mudar.

Lia percebeu a tensão que existia entre Dominic e Aria. Não era distância por falta de amor. Era um abismo feito de histórias não ditas.

— Ela é muito doce — Lia disse, tentando preencher a ponte que parecia quebrada. — Só precisa de alguém que fale com ela do jeito certo.

Dominic ergueu o rosto, encarando Lia por segundos longos demais. A sala inteira parecia segurar o ar.

— E você acha que sabe qual é esse jeito? — ele perguntou, sem arrogância, mas com cuidado. Como se realmente quisesse saber.

— Acredito que posso descobrir — ela respondeu, firme. — Crianças falam de muitas formas além das palavras.

Dominic observou Lia como se aquilo fosse novo para ele. Ou perigoso. Ou os dois.

— Espero que você esteja certa.

Depois disso, o silêncio voltou. Não aquele incômodo, mas outro tipo… um que flutuava entre eles como uma pergunta que ninguém ousava fazer.

Quando o jantar terminou, Lia levou Aria para o quarto. A casa, iluminada por luzes baixas, parecia um labirinto calmo demais. A menina estava sonolenta, e Lia sentou ao lado dela, cantarolando algo suave. A canção era antiga, de quando Lia ainda acreditava que o mundo era mais leve.

Aria encostou a cabeça em seu colo, cedendo à música.

Lia ficou ali até sentir a respiração da menina ficar profunda.

Levantou devagar e saiu do quarto, fechando a porta com cuidado. Mas quando virou para o corredor, parou.

Dominic estava ali.

Encostado à parede, observando.

Não havia expressão alguma em seu rosto, mas havia algo nos olhos dele — algo atento demais, intenso demais.

— Ela dormiu rápido — ele disse, num tom que não combinava com o homem duro que o mundo conhecia. Era quase… suave.

— Ela estava cansada — Lia respondeu. — E… acho que gostou da música.

Dominic inclinou a cabeça, como se tentasse decifrar algo nela.

— Você tem um efeito curioso nesta casa — ele disse. — Chegou hoje, e tudo está… diferente.

Lia não sabia o que responder. O olhar dele a atravessava de um jeito que deixava claro que ele não falava apenas da casa.

— Não fiz nada de especial — ela murmurou.

— Fez — Dominic afirmou, sem hesitar. — Você trouxe silêncio diferente.

Lia sentiu o corpo aquecer. Não pelo elogio em si, mas pelo modo como ele foi dito. Pelos olhos que não fugiam dos dela.

— Eu só estou tentando fazer meu trabalho.

— E está fazendo. — Ele se aproximou um passo. Não muito, mas o suficiente para ela sentir o perfume dele, a força dele, a presença dele. — Continue assim.

As palavras ficaram entre eles, carregadas de algo que nenhum dos dois queria reconhecer tão cedo.

Mas a verdade estava ali, vibrando no ar.

Dominic Hale estava olhando para ela como um homem que não deveria desejar nada.

E Lia sentiu algo despertar dentro de si, um aviso quente que corria pela pele:

Aquele homem podia ser perigoso.

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