Mundo ficciónIniciar sesiónO jantar na mansão Hale não parecia jantar. Parecia uma cerimônia silenciosa, como se cada talher tivesse sido treinado para não fazer barulho. Charles avisara que era “tradição da casa” manter a refeição tranquila, sem conversas desnecessárias. Lia achou curioso… até desconfortável. Silêncio demais sempre a lembrava do passado.
Aria estava ao lado dela, numa cadeirinha elegante que parecia grande demais para uma criança tão pequena. A menina comia devagar, observando tudo como quem vive num planeta distante. O único som que escapava era o tilintar suave da colher.
Dominic entrou na sala exatamente às oito horas. Sem atraso, sem pressa. O tipo de homem que faz o tempo girar em torno de si. Ele vestia outra camisa, mais escura, com as mangas dobradas, revelando antebraços fortes. Nada nele parecia casual, mas ele carregava o próprio cansaço como se fosse parte do uniforme.
— Boa noite — ele disse, a voz grave cortando o silêncio.
Aria levantou os olhos para o pai. Por um segundo, Lia achou que a menina falaria algo, mas ela apenas segurou a colher com mais força.
Dominic sentou na cabeceira. O garçom serviu o prato dele, e então, por algum motivo que Lia não esperava, ele desviou o olhar para ela.
— Como foi o primeiro dia?
A pergunta veio simples, mas o olhar não. Tinha peso. Era uma avaliação. Tinha algo que deixava seu estômago apertado de um jeito estranho.
— Bom — Lia respondeu. — Aria me deixou entrar no quarto dela. Acho que foi um bom começo.
Dominic desviou rapidamente o olhar para a filha. Algo ali suavizou suas feições, mas por tão pouco tempo que era quase imperceptível.
— Isso é… raro — ele admitiu.
Raro. Não impossível. Mas raro o suficiente para fazer o ar ao redor deles mudar.
Lia percebeu a tensão que existia entre Dominic e Aria. Não era distância por falta de amor. Era um abismo feito de histórias não ditas.
— Ela é muito doce — Lia disse, tentando preencher a ponte que parecia quebrada. — Só precisa de alguém que fale com ela do jeito certo.
Dominic ergueu o rosto, encarando Lia por segundos longos demais. A sala inteira parecia segurar o ar.
— E você acha que sabe qual é esse jeito? — ele perguntou, sem arrogância, mas com cuidado. Como se realmente quisesse saber.
— Acredito que posso descobrir — ela respondeu, firme. — Crianças falam de muitas formas além das palavras.
Dominic observou Lia como se aquilo fosse novo para ele. Ou perigoso. Ou os dois.
— Espero que você esteja certa.
Depois disso, o silêncio voltou. Não aquele incômodo, mas outro tipo… um que flutuava entre eles como uma pergunta que ninguém ousava fazer.
Quando o jantar terminou, Lia levou Aria para o quarto. A casa, iluminada por luzes baixas, parecia um labirinto calmo demais. A menina estava sonolenta, e Lia sentou ao lado dela, cantarolando algo suave. A canção era antiga, de quando Lia ainda acreditava que o mundo era mais leve.
Aria encostou a cabeça em seu colo, cedendo à música.
Lia ficou ali até sentir a respiração da menina ficar profunda.
Levantou devagar e saiu do quarto, fechando a porta com cuidado. Mas quando virou para o corredor, parou.
Dominic estava ali.
Encostado à parede, observando.
Não havia expressão alguma em seu rosto, mas havia algo nos olhos dele — algo atento demais, intenso demais.
— Ela dormiu rápido — ele disse, num tom que não combinava com o homem duro que o mundo conhecia. Era quase… suave.
— Ela estava cansada — Lia respondeu. — E… acho que gostou da música.
Dominic inclinou a cabeça, como se tentasse decifrar algo nela.
— Você tem um efeito curioso nesta casa — ele disse. — Chegou hoje, e tudo está… diferente.
Lia não sabia o que responder. O olhar dele a atravessava de um jeito que deixava claro que ele não falava apenas da casa.
— Não fiz nada de especial — ela murmurou.
— Fez — Dominic afirmou, sem hesitar. — Você trouxe silêncio diferente.
Lia sentiu o corpo aquecer. Não pelo elogio em si, mas pelo modo como ele foi dito. Pelos olhos que não fugiam dos dela.
— Eu só estou tentando fazer meu trabalho.
— E está fazendo. — Ele se aproximou um passo. Não muito, mas o suficiente para ela sentir o perfume dele, a força dele, a presença dele. — Continue assim.
As palavras ficaram entre eles, carregadas de algo que nenhum dos dois queria reconhecer tão cedo.
Mas a verdade estava ali, vibrando no ar.
Dominic Hale estava olhando para ela como um homem que não deveria desejar nada.
E Lia sentiu algo despertar dentro de si, um aviso quente que corria pela pele:Aquele homem podia ser perigoso.







